Cada vida vale

Cada vida vale.

A do idoso que vive com a saúde debilitada, a da criança que corre cheia de energia, a do garoto que disputa a atenção dos colegas, a do adulto que se divide entre a preocupação com a saúde e a manutenção financeira.

Não importa se negro, branco, feio ou belo. Estar vivo importa. Toda vida tem seu valor. Seja a do sacerdote que aconselha paciência para as horas de angústia, seja a do incauto que avança sobre o direito do outro.

Moradias simples, casas confortáveis, apartamentos luxuosos ou o banco da praça abrigam vidas em metrópoles ou no interior. Aqui ou na Europa, na Ásia ou na África. Não importa onde. Seja onde for toda vida vale.

O doente tem o direito (e o dever!) de querer a saúde assim como o são tem quase uma obrigação de se manter saudável. Relativizar mortes de acordo com idade e classe econômica tem tom de psicopatia no momento em que se pensa apenas em si em detrimento do outro.

Vivemos na matéria e precisamos nos manter vivos, mas que isso não represente a morte da solidariedade. Pela humanidade, devemos cuidar da vida de todos nós.

Nove meses de home office

Desde julho passado, quando comecei no Jornal Notícias do Dia, faço teletrabalho. A apuração é feita por telefone, aplicativo e e-mail. Claro que em muitas pautas preciso sair e então vou e volto de Uber. Tenho minha própria redação, mas cumpro as cinco horas contratuais, que são registradas no aplicativo da empresa. O contato com a redação – localizada no Morro da Cruz, em Florianópolis – é, basicamente, pelo WhatsApp.

Os primeiros três meses foram de adaptação ao home office. Muito barulho, entra e sai, distrações, cães latindo e por aí vai. Agora os demais ocupantes da casa entenderam como funciona, que eu estou trabalhando e preciso estar concentrada.  Os cães nem sempre conseguem resistir ao caminhão da coleta de lixo ou a um colega cachorro que passa na rua, por isso, sempre antes de começar uma entrevista por telefone deixo eles presos.

Também aprendi a parar de verdade para fazer o intervalo de 15 minutos.  Aproveito para passar um café e dar atenção aos carentes Argus, Azula e Atena.

Eu moro e trabalho no mesmo lugar, sendo que faço dupla jornada – sou dona de casa e jornalista, portanto, respeitar horários é fundamental. Meu tempo máximo na cozinha é até as 13h para que eu possa começar meu turno jornalístico às 14h.

Nesses dias de quarentena, quanto ao home office, para mim está tudo certo, pois esse é meu modo de trabalho há nove meses. Não precisei comprar álcool em gel para minha bancada porque há água e sabão por perto.

Quanto a não sair de casa, aí é outra história.

Brincar de dormir

Hoje eu lembrei de uma das tantas noites que, cansada e com muito sono após um longo dia de tripla jornada, tentava distrair e esvaziar as pilhas do João Pedro.

Ele gostava que eu lesse o Soldadinho de Chumbo (Hans Christian Andersen/1838) e isso era quase que diário. Às vezes eu pulava algumas partes e ele reclamava, segurava a minha mão e dizia: – Não, mamãe, não é assim.

Uma brincadeira recorrente pré-sono era a de quem dormiria primeiro. Mas teve um dia que ele cansou e não quis mais brincar de dormir.

– Vamos brincar de quem dorme primeiro, filho?

– Não, a senhora sempre ganha.

Mais que trilhas

Na quinta-feira (30) encarei uma trilha íngreme, uma hora e meia subindo rumo ao pico da Pedra Branca, um monumento natural da Grande Florianópolis, localizado em São José no limite com Palhoça. Não fui a passeio, mas a trabalho.

Sugeri ao editor uma pauta sobre o Morro da Pedra Branca que é visto de vários pontos da região. A sugestão foi minha, então eu que lutasse para fazer a reportagem. E assim foi.

O sol estava entre nuvens e isso amenizou o calor na trilha, que ocorreu sem problemas. A vista lá do alto é espetacular e todo o esforço foi recompensado.

Subindo rumo à Pedra Branca

No sábado seguinte (1), fui para outra trilha. Dessa vez a passeio, sem compromisso com conteúdo. Os parceiros não eram mais o colega fotógrafo e o guia personagem. A Trilha do Gravatá, no Sul da Ilha de Santa Catarina, era novidade para mim, o Zé Carlos e a Josy.

Pensa num lugar fantástico, não a trilha, o final dela. Lindo, lindo, lindo.

Chegar à Praia do Gravatá, tomar banho no mar azul de águas frescas valeu cada pisada durante um pouco mais de uma hora.

Josy encarando a Trilha do Gravatá

Quis as circunstâncias que a lembrança dessa primeira ida ao Gravatá fosse além da paisagem. Anotamos no livro aberto para 2020 o dia em que o Zé Carlos passou mal e foi resgatado pelo helicóptero da Polícia Militar.

Foi como um filme: Uma trilha no meio do mato dentro de uma metrópole, com uma praia paradisíaca, um salvamento de helicóptero com atendimento digno de todos os elogios.

Agora quando eu passar perto do Gravatá vou me lembrar do Águia chegando para salvar o Zé Carlos, assim como desde o dia 30 penso “já estive ali em cima” quando meus olhos alcançam o Morro da Pedra Branca.

A primeira vista da Praia do Gravatá

Pais ou servos?

Você provavelmente já presenciou uma cena semelhante. No restaurante entra um casal com uma criança, que vai de um lado a outro escolhendo uma mesa para o jantar. “Não, não. Aqui não, é melhor ali”, determina o menino (ou menina), para logo mudar de ideia. O garçom morde os lábios, revira os olhos – mesmo que disfarçadamente, mas você percebe, porque está fazendo o mesmo.

E situações assim se repetem no transporte, seja no avião durante a viagem de férias ou o ônibus escolar, no supermercado (eu queeeero!!) e por onde quer que eles estejam. Eles, os pais sem autoridade e os filhos “dominadores”.

As crianças se aproveitam da permissividade dos pais para agir como bem entendem e assim satisfazer suas vontades, que podem ser apenas mostrar quem manda.

Para esses pais, a criança é alguém com gênio forte, cheio de personalidade. Para os filhos deles, o pai e a mãe são seus realizadores de vontades.

No final de semana presenciei um menino de uns cinco anos fazer os avós de bestas indo de um canto a outro do restaurante escolher a mesa. Isso me fez lembrar de quando meu filho, então bem pequeno, após uma ordem minha (isso mesmo, ordem), perguntou entre os dentes:

– Quando vou mandar na senhora?

– Nunca, porque sou sua mãe e isso nunca vai mudar nessa vida.

Não é por acaso que somos pais. Estivemos na posição de filhos crianças e adolescentes e tivemos bons pais – e não amigos – para sermos educados. Que tal repetir a fórmula com os que estão sob nossa tutela?

Ah, sim. É claro que em alguns casos é preciso algumas adaptações e correções no roteiro. O tempo da vara de goiabeira ficou no passado e deve morrer por lá.

Breve história da Atena

Ao abrir as cortinas do quarto na manhã de sexta-feira (17) vi na calçada do vizinho um cachorro desconhecido. Corri para saber quem era e logo percebi que ele estava com uma patinha machucada. Fui conversar com ele, que fugiu mancando. Após muita insistência voltou desconfiado e então soube que era ela.  Dei ração, água, atenção e recebi muitos sorrisos.

O dia seguiu cheio de afazeres e Charlote não saia de meus pensamentos. No início da tarde consegui sair para procurá-la e a encontrei sendo alimentada por um casal de jovens, que recém-mudou para a outra rua.  Ficou combinado que no sábado cedo eu iria levá-la ao veterinário e que o nome dela seria Atena e não Charlote. Aceitei a “sugestão” do João Pedro, padrinho da resgatada.

A noite foi insone. O medo da experiência que tive com o Petit Gateau se repetir parecia um fantasma me perseguindo pelas portas do sono. No sábado, o sol chegou aquecendo meus planos.

Quando a conheci na sexta-feira. Patinha machucada foi a isca do amor

Foi no consultório veterinário que percebi o quanto Atena estava suja, com o corpo machucado e infestado de pulgas e carrapatos, as orelhas e os olhos aparentemente lesionados pelo sol ou por parasitas (ou as duas coisas). Primeira suspeita foi de anemia e doença do carrapato.

Não tinha pretensão alguma de adotar mais um animal. Argus e Azula são nossos queridos mascotes e ocupam um bom espaço da casa e de nossas vidas. Mas como ignorar a Atena tão indefesa, machucada, assustada e com dores? Não pude.

Atena vai continuar tomando uns comprimidos por duas boas semanas. Logo que estiver recuperada da anemia e da infecção, será vacinada e castrada.

Desconheço a vida pregressa dela. Pode ter sido abandonada ou mesmo ter fugido de casa, como saber? O que importa é que ela está bem. Se tem alguém procurando por ela que a encontre logo, antes que o laço fique mais apertado e eu tenha que desatá-lo em lágrimas.

Na terça-feira, segundo dia no novo lar, a aparência está saudável

Primeira tattoo de 2020

Foi num intervalo de almoço em 2015 que eu decidi fazer uma tatuagem. Decidi e fiz. Liguei para o tatuador indicado por um amigo, que estava – que sorte a minha – com horário vago por desistência de um cliente. Tatuei o perfil de um dachshund em homenagem ao Argus Maximus e desde então não parei mais.

Em três viagens consegui ser atendida por tatuadoras super-talentosas. Em Taubaté marquei minha paixão por viajar. Em Salvador, guardei o carinho pelo Nordeste num potinho e também tatuei a loba da liberdade. O São Francisco com o Argus no colo foi tatuado em Curitiba.

Em 2018 devo ter feito umas quatro tatuagens.  Ano passado, na cidade nova, fiz apenas uma. Marquei na pele a Ponte Hercílio Luz e as Caixas d’Água, homenagem a Florianópolis e Porto Velho. Obra do meu primo Muriel, o Curumex – que retratou a minha ideia com criatividade.

Há uns três meses estava com outra ideia fixa, mas não sabia a quem recorrer. Surgia na minha mente uma girafinha fofa comendo pipoca. Eu gosto muito de girafas e sou dependente de pipoca e então imaginei juntar essas duas queridas. A espera foi recompensada no sábado (18).

Girafinha pipoqueira

Ainda não sei se o porquê das tatuagens vai além do simples gostar. Enquanto não for proibido ou me fizer mal, continuarei rabiscando a minha pele.

Primeiro aninho

Em 2019 passamos a chamar pão francês de pão de trigo, lava jato de lavação, cadela de bucica. A rua principal aqui perde a identidade para ser chamada de Geral. Demoramos um instantinho para entender a lógica.

E também adotamos o diminutivo. “Moço, quero um caldinho [de cana]”. Eu gostei? Mas é claro! Ah, é. Aqui tem caldo de cana por todos os cantos – rural ou urbano. Gostei ainda mais. E churros? Senhor do céu! Praças, cemitério, praia – sempre tem. Ainda bem que tem Pilates também.

Ainda sobre comida: o almoço começa a ser servido às 11h (nos restaurantes). O café da tarde é às 15h. Muitos restaurantes, principalmente pizzarias, abrem a partir das 18h para o jantar.  O lanche mais comum é cachorro-quente prensado.

Ainda não tive vontade e nem coragem de provar o açaí vendido aqui e estou há um ano sem consumir o que há de melhor no Norte. Arrisquei a fazer tapioca com uma goma (argh!) que comprei no supermercado para nunca mais repetir a experiência. Não vou macular as boas lembranças da tapioca do Norte e Nordeste.

Mas no lugar da tapioca tem cuca, tem rosca, tem bolos e biscoitos. Tem uma variedade de queijos e frutas frescas.

Oh, São José, tu és uma beleza, mô quirido!

A mudança e a ponte

No dia 30 de dezembro de 2018 saímos de Porto Velho rumo à São José. Não tínhamos casa, o plano era chegar, visitar imóveis previamente selecionados, escolher e então nos mudarmos. Tudo isso em uma semana. Os primeiros dias não foram fáceis, apesar da vista. Mas como sempre acontece, as coisas se ajeitaram.

Um ano após o início da mudança de cidade estávamos, Zé Carlos e eu, comemorando a volta da Ponte Hercílio Luz. Aquela beleza de estrutura pela qual somos apaixonados. Uma ponte que para nós, assim como para outras pessoas, é o carimbo mais querido no passaporte das férias.

Essa ponte representa um desejo que nasceu em janeiro de 2012 quando do nosso primeiro encontro nessa vida com Florianópolis. Quase oito anos depois, lá estávamos nós e umas 50 mil pessoas festejando a reinauguração do ícone.

A volta da ponte é uma significativa comemoração a esse primeiro ano de nossa corajosa resolução de termos saído do cômodo para o desconhecido.

Nós na Ponte Hercílio Luz

A ponte é do povo

População compareceu à reinauguração da ponte

Dia 30 de dezembro de 2019 entrou para a história de Florianópolis como o dia em que a Ponte Hercílio Luz voltou a ter vida após 28 anos de convulsões involuntárias. Descaso, corrupção, má vontade e outros males consumiram quase três décadas do maior ícone catarinense.

Ontem o esforço de alguns homens e mulheres somado ao incentivo e ao desejo de milhares de pessoas foi compensado pelo sentimento de pertencimento. A ponte é novamente do povo. Ela é dos catarinenses, dos brasileiros e de todo o mundo.  Pertence a todos que respeitam e honram a memória, a história.

Foram R$ 1 bilhão escoados de alguma forma sendo a ponte o motivo, mas não a destinatária. A culpa não é dela, não é da cidade. É de quem não respeitou o dinheiro público. Que os culpados pelos golpes ao erário sejam punidos e que nós, cidadãos, aprendamos a nos mobilizar de verdade, na vida real, para que casos absurdos como esse não tornem a acontecer.

A majestosa Ponte Hercílio Luz

Viva a ponte!