Aproveita o embalo

Nas últimas três semanas tenho sonhado com o meu pai em situações cotidianas, aquelas que não damos importância. Hoje entrei numa conversa sobre suculentas no grupo de whatsapp dos meus irmãos e disse: “Por falar nisso, eu fiz hoje um brigadeiro com chocolate a 80%!”. E depois completei: sonhei com o papai.

Isso é a cara do meu pai. Geralmente acontecia assim, estávamos na varanda de casa falando sobre o passeio no sítio. Um irmã levantava e ele dizia: “Por falar nisso, fulana, traz um copo com água para mim?”. “Mas pai, eu não disse nada!” – era a reação mais comum. Podia acontecer também de alguém falar sobre o rio Caracol e ele aproveitar a deixa: “Por falar em rio, pega o alicate de unha pra mim?”.

Outra fala ícone é o “aproveita o embalo”. Uma irmã perguntava: “Pai, cadê fulana?”. E ele respondia: “Está lá atrás no quintal. Vai lá chamar ela? Então aproveita o embalo e lava as vasilhas da pia”. Era assim. E tinha as piadas sem graça. Piadas que até podiam ser engraçadas e ele não sabia contar. Mas sabia rir.

Uma das lembranças mais vivas do riso do meu pai é de um domingo à tarde quando assistíamos ao filme ‘O auto da Compadecida’. Ele rio de chorar. E agora eu choro de saudade.

Sabe essas pequenas coisas do dia a dia? São elas que valem. Aproveita o embalo para valorizar o que de fato importa.

Preconceito dói

Meu avô materno era indígena do Amazonas, minha avó materna era negra filha de escravos da Bahia. Meus avós paternos eram brancos do interior de Minas Gerais. Minha mãe tem traços indígenas e meu pai tinha cara de europeu. Eu nasci parda, cabelos negros e espetados. Minha irmã depois de mim tem a pele e os cabelos claros e a depois dela é morena. E foi nessa escadinha entre um de cabelos pretos e outro de cabelos loiros que meus pais formaram uma vitrine da miscigenação brasileira.

No Norte do Brasil, onde nasci, é muito difícil encontrar uma família que não seja formada por todas as raças dessa imensa nação. Porto Velho é um grande recorte da nossa mistura de nacionalidades, raças, crenças e origens. Assim como são outras cidades que nasceram a partir de um grande empreendimento estrangeiro. Essas diferenças que nos tornam parecidos – afinal, somos um pouco de cada um – poderiam unir, mas afastam. Eu vivi isso.

Minha “cara de índia” não era o motivo das chacotas. O meu pai ser branco e eu morena sim. Minha mãe ser indígena e meu pai branco loiro sim. Eu não gostava (quem é que gosta?) de que falassem que ele não era meu pai ou que minha mãe não podia estar casada com ele. Isso me deixava triste, mas nunca me abalou da forma como me destroçava ver minhas amigas negras serem desrespeitadas.

Lá pelos 15 anos eu tive uma amiga na escola cuja família era do interior do Maranhão. A mãe dela, mulher gentil e valorosa, era negra e criava sozinha essa minha amiga. Fazia tudo o que era possível para que ela tivesse todos os livros, todas as oportunidades, para que a filha não precisasse se sujeitar a serviços pesados e pudesse sair do círculo “mulher negra, analfabeta e pobre”.

Lembro que chorávamos juntas quando ela, minha amiga, contou que uma menina da escola não a queria na “rodinha” porque ela era negra e gorda. Eu era descartada por ser pobre e não ter roupa para a festa. A sexta série foi um inferno para nós duas. Talvez por isso reprovamos, queríamos correr daquela escola de gente desumana.

Aos 18 anos abracei e chorei com uma amiga que queria morrer porque não conseguia deixar o “cabelo bonito”. Os cabelos negros e crespos sofriam com químicas e ferro quente e estavam caindo. Cabelo bonito para ela, há quase 30 anos, era como o meu, liso. Ela era xingada na escola. Minhas irmãs, eu e outros colegas a defendíamos das ofensas. A nossa amizade a tranquilizava, ela sabia que a amávamos.

Mas isso não basta para quem sofre preconceito, seja pela cor da pele, pelo credo (ou falta dele), pela orientação sexual ou situação social. Não importa. Todas as vezes que leio algo sobre preconceito lembro dessas minhas amigas. Especialmente elas porque eu as amava e a dor delas me atingia. Ter sido um dia xingada de cabelo de macarrão escorrido, de nariz de macaco ou de beiçola não é nada, absolutamente nada, diante do que essas duas mulheres enfrentam desde o dia que nasceram.

Não estou dizendo que indígenas, pobres, estrangeiros ou quem quer que seja possa ser xingado. Nada disso! Mas não dá para relativizar a opressão que as pessoas negras sofrem com o preconceito que, por exemplo, um pardo pobre sofre. Eu não sei como e quando deixaremos para trás o racismo, mas acredito que tudo começa pelo respeito ao outro. Isso poderá ser conquistado quando as famílias conseguirem educar pelo exemplo, mostrando com atitudes que a cor da pele é apenas uma questão de genética.

Exemplo que arrasta

Mais de 50 mil pessoas morreram de covid-19 até ontem (20). Cinquenta mil vidas se foram vítimas de um vírus que chamamos ‘novo’ mas que já está há muito tempo entre nós destroçando famílias. Muito tempo para tanta morte são quatro meses desde a primeira vítima no Brasil. Bebês, crianças, jovens e idosos de gêneros, idades e classes sociais distintas morreram nesse imenso País, que está há mais de um mês sem um ministro da Saúde.

Milhares de brasileiros morreram vítimas do novo coronavírus. Vírus que tem sua letalidade potencializada pelo descaso governamental que vê na pandemia uma histeria. O que uma “gripezinha” pode fazer com quem está acostumado, segundo o presidente, a nadar no esgoto? O que demonstra uma grande falta de conhecimento sobre os males que a falta de saneamento básico – de Norte a Sul – provocam nas populações mais vulneráveis do Brasil. E mais, trata como se fosse aceitável alguém mergulhar em águas pútridas.

Nós, brasileiros, estamos sem rumo seguro para fora dessa pandemia. Cinquenta mil pessoas é muito mais que a população de muitos municípios brasileiros, é como se Laguna, no Sul de Santa Catarina, tivesse desaparecido. Multiplica por três cada uma dessas vidas. Porque, você sabe, para cada morte outras vidas são afetadas. Parece que a única pessoa que não sente nada disso é o presidente da República, o brasileiro que representa a todos nós. Em nenhum momento ele foi solidário à dor de familiares, em nenhuma ocasião ele visitou um hospital, fez um pronunciamento. Tudo o que fez é ridicularizar o luto de milhares.

O presidente dá voz e incentiva os negacionistas como ele. Gente sem máscara na rua que acredita ser esse um direito inalienável – o de contrariar medidas sanitárias que protege desde o ignorante ao mais sensato cidadão. O presidente diz que o vírus é invenção da China, nada comprovado até hoje – e você ouve esse tipo de certeza no balcão da padaria. O presidente pede para que hospitais sejam invadidos e, claro, eles são assim como profissionais da saúde são hostilizados.

Agora imagina se o presidente da República, mesmo contra tudo o que ele acredita, agisse de outra forma? Fosse para as redes que o elegeram e para a TV e o rádio que ele usa para emitir ideias desconexas de sabotagem e perseguição pedir aos brasileiros que se mantenham em casa, os que podem, e que ao sair, quando houver necessidade, tome todas as precauções? E ao sair do Planalto ou do Alvorada ele próprio usasse máscara e mantivesse distância das demais pessoas, não as tocasse e nem tossisse como um bebê que desconhece a etiqueta?.

E daí? E daí que é pelo exemplo que se arrasta seguidores. Ele mesmo é um exemplo disso. Para o mal de mais de 50 mil brasileiros mortos pela covid-19 e por outros que devem perecer pelo vírus e pela inação do governo federal. Um exemplo de como não governar vidas é arrastá-las para a morte.

Ansiedade na vitrine

Ontem eu não quis descer para o café da manhã com o Zé Carlos. Preferi ficar no quarto e tomar café na cama. Estava me sentindo cansada. Cansada de não poder descer as escadas sozinhas como todas as manhãs anteriores à queda e entorse do meu pé direito. Desde então, o João Pedro me reboca escada abaixo e depois escada acima.

Não posso trabalhar, estou afastada por ordem médica. Não posso cozinhar, cuidar do jardim, fazer faxina e qualquer outra coisa que movimente corpo e mente e me leve para longe dos temas ‘pandemia’ e ‘INSS’. Devo ficar em repouso para me recuperar o mais breve possível. Certo. Então leio.

Estou com o livro ‘Relatos de um certo Oriente’, de Milton Hatoum, pela metade, o e-book ‘Brás Cubas’, de Machado de Assis, nos primeiros capítulos e no comecinho de ‘Escravidão’, de Laurentino Gomes. Esses são os que estão na vez. Tem outros tantos aguardando a chance de serem lidos por mim.

Nem sempre consigo manter o foco. Verdade seja dita, quase nunca. Mas ontem foi diferente. Concentrei minha atenção em uma única atividade. Passei toda a manhã entrando e saindo de inúmeras lojas online. Era como se eu estivesse batendo pernas nas lojas sem medo de vírus nenhum, apenas preocupada em fazer um bom negócio e levar para a casa o que procurava.

Foi quase um dia perdido no nada. A energia que dispensei em olhar detidamente cada página de blusa de tricô poderia ter sido empregada em algo útil. Eu simplesmente não me importei.

Hoje, após o café na cama – preferi permanecer no quarto, ponderei o por quê de tanto empenho para comprar umas peças de roupas. Só pode ser ansiedade! Mas isso eu já havia desconfiado após ter devorado uma pacotão de pipoca doce.

Quem chuta a dor do outro?

Para quem ainda acredita que a pandemia é uma conspiração e que a culpa pelas mortes é dos governadores e prefeitos que receberam um trilhão de dólares da União e que enfiaram nos bolsos;

Para quem se fia na certeza de que a Covid-19 hoje só pega pobre;

Para quem jura que é invenção isso tudo ai;

Para todas as pessoas que por um motivo ou outro entendem que o coronavírus é criação da mídia ou da Lua em aquário:

Não haja como o cidadão que não respeitou um protesto pacífico e arrancou as cruzes que simbolizavam os mortos pelo novo coronavírus no Rio de Janeiro. Ele xingava e um pai chorava sentindo o desprezo pela sua dor indescritível. Uma dor que pai nenhum quer sentir, inclusive o que chutava a dor daquele e de todos os pais e filhos.

Pais perderam filhos, filhos perderam pais, avós ficaram sem seus velhos queridos. Gente perdendo gente. Gente e não coisas. Gente. De cor diferente, idades diferentes, pensamentos diferentes dos seus.

A não ser que você não tenha mais um pingo de sangue quente correndo nas veias, não faça isso.

Protesto pelo descaso com a saúde pública ou uma homenagem aos que partiram vítimas do coronavírus não é palco para a indelicadeza com o sofrimento do outro, que é muito maior do que a sua lardeada indignação.

Vale mesmo vestir o manto da agressividade? Já pensou se você morrer nas condições que 40 mil brasileiros morreram e chegar do lado de lá e ser informado que ninguém chorou por você porque, afinal, era tudo uma farsa?

Um pé de vida

Uma queda me fez pensar na fragilidade da vida, que num instante está cheia de certezas para em seguida se perder no vazio de dúvidas. Num momento estava conversando sobre a preservação da Mata Atlântica e no outro estava caída com o pé direito virado para trás. Ao descer uma escada na casa de uma entrevistada pisei num degrau solto. Essa mesma escada havíamos subido e descido algumas vezes naquela tarde de quarta-feira quando produzíamos a reportagem sobre o Dia Mundial do Meio Ambiente.

Comentei com o meu amigo Anderson Coelho sobre termos feito a trilha do Morro da Pedra Branca sem nenhum incidente digno de nota e ali estávamos numa pauta tranquila, segura e diante de um acidente de trabalho.

Meu primeiro acidente de trabalho em 22 anos de jornalismo. Escorregar no barranco do rio Madeira não conta. Aqueles escorregões geravam mais riso do que constrangimento ou dor. Repórter na Amazônia que nunca escorregou numa beira de rio, não sei, talvez esteja ficando demais na caixinha da redação.

Eu (quase) sempre peço ao sair da casa para que eu possa voltar. Naquele dia falei com o Zé Carlos: “Se tudo sair como o planejado, lá pelas 17h ou 18h estarei de volta”. Não deu. Às 18h estávamos, Anderson, Vilmar e eu, na icônica fila da Via Expressa tentando chegar no Hospital da Unimed.

Pé direito torcido e fé na vida. Eu tenho.

Dias de molho e reflexão

Um 1º de maio histórico

O Dia do Trabalhador deste ano é histórico. Milhares de desempregados, milhares de trabalhadores sem expectativas e cheios de dúvidas.

A partir desse 1º de maio, minha jornada de trabalho e meu salário foram reduzidos em 25%. A situação não está fácil, mas há colegas de profissão desempregados e outros que tiveram maior perda salarial.

O navio é um só e estamos todos nele. Alguns mais à proa e a maioria agarrada à popa. Se a remada continuar desigual, o naufrágio é mais à frente. Sem um comandante que conduza a embarcação, parece que teremos que enfrentar a grande tormenta que se aproxima.

Esse talvez não seja o caso de um bote salva-vidas. Talvez um motim.

O menino da foto

Antes de desligar o celular para ir dormir, conferi uma mensagem enviada por minha irmã número 2, a Aerllen. Era uma foto do João Pedro com três anos de idade. Foi como se eu tivesse sido empurrada para uma espiral que abriu uma porta cheia de lembranças sensoriais.

A primeira sensação foi a das mãozinhas daquele menino franzino acariciando meu rosto. Às vezes ele fazia das mãos uma moldura e dizia: “Ri, mamãe!”. Com as pequeninas mãos, ele também sacolejava minha cabeça para eu não dormir durante uma brincadeira.

O sorriso daquele menino era tão honesto e a risada tão contagiante, como os são de toda criança saudável e feliz.

Aquele menino da foto era o meu filho, o mesmo que estava no quarto ao lado numa aula online. Mas não são exatamente a mesma pessoa.

João Pedro aos três anos

O João Pedro de hoje sorri menos, é tímido e não parece feliz. Meu filho menino ficou lá atrás e pouco conservou daquela criança cativante. Eu me perdi como mãe no processo entre a segunda infância e a adolescência.

A foto de quase 20 anos atrás me fez ver que ainda não me perdoei por isso.

Feminidades

Nesta semana a minha irmã número cinco (são seis), a Dani, fez um procedimento cirúrgico delicado e significativo para uma mulher. Para impedir o desenvolvimento de um tumor, ela retirou o útero. Foi tudo muito rápido, uma semana entre o diagnóstico, que veio após exame de rotina, e a histerectomia.

Por motivos diferentes, minha irmã número dois, a Kárita, passou por essa cirurgia no ano passado. Em dezembro de 2014 eu “estreei” nessa experiência. Também foi rápido. Uma dor misteriosa interrompeu um final de semana num hotel fazenda no interior de Rondônia. Primeira avaliação deu apendicite, mas não era. Agradeço a essa dor, que não tinha relação alguma com o problema, ter me mostrado o que eu precisava saber .

A cirurgia que minhas irmã e eu passamos não tem relação genética, pois eram problemas diferentes. Se coincidência existisse, eu diria que essas histerectomias “entre irmãs” é um grandessíssimo exemplo de sincronia universal.

Renascer

O renascimento é diário.

Todo dia podemos florescer ou secar.

A escolha sempre será nossa.

A vida não tem fim (Ilustra: Flávio Wetten)