Entrevistas e latidos

Minha primeira experiência com home office foi há muitos anos, quando atuei como freelancer. Recebia a demanda e me organizava para entregar dentro do prazo.  Muitas vezes trabalhei até tarde da noite, atendia a vários clientes ao mesmo tempo.

Meu atual contrato de trabalho é home office, mas com algumas diferenças. Tenho horas a cumprir e ponto a registrar. Dois domingos ao mês trabalho na redação, em Florianópolis.

Ocupo um canto da sala com notebook, telefone, cadernos, blocos e canetas.  E vez ou outra meu espaço de trabalho é invadido por uma Azula carente que deita no meu colo ou coloca a cabeça no meu ombro. Faço um carinho rápido e a despeço.

Azula me observa enquanto trabalho

Dias atrás, meu telefone tocou e a Azula ficou em alerta. Aguardou eu atender a ligação, falar alguma coisa com o interlocutor para então se espreguiçar e soltar um bocejo demorado e barulhento.

“Oi? Não entendi”, disse a pessoa do outro lado da linha.

Noutro dia, estava no meio de uma entrevista Azula e Argus resolveram latir como se o mundo estivesse em chamas. A pessoa riu e eu pedi desculpas. A resposta me tranquilizou: “Tudo bem, eu tenho três”.

Empatia é tudo.

De volta às ruas

Hoje foi meu primeiro plantão de final semana. A pauta é um assunto conhecido por mim, uso proibido de cerol, mas o local da cobertura totalmente novo: a beira mar de Florianópolis. Por enquanto quem ganhou no quesito “quem diria” foi a pauta que eu fiz sobre a estiagem rigorosa nos rios de Santa Catarina. Eu, do Norte, falando sobre estiagem do (e no) Sul. Parece nada, não é?

Durante a semana também conversei com famílias de refugiados da Venezuela, escrevi sobre estacionamento rotativo, lixo nas ruas, serviço de correios. Nada novo, além da empresa, o local e as expectativas.

Primeira pauta na rua. Assunto: lixo na Via Expressa

 

O lixo na TV

A TV do laboratório estava ligada e sem som (ainda bem) num programa que repetia a imagem do prefeito que ficou ferido ao acender uma fogueira. Antes de conseguir uma cadeira fora do alcance das imagens desnecessárias, vi legendas que chamavam atenção para uma diversidade de casos de violência, tragédia e infelicidade.

Eram 7h, a recepção estava lotada e a programação que, parece, anunciava o fim do mundo, era acompanhada por algumas pessoas. Talvez se houvesse som a audiência fosse maior. Primeiro impacto é o nome do programa. Nunca havia ouvido falar. Até pensei ser local, mas ao chegar em casa e pesquisar vi que se trata de um nacional do SBT.

O canal do Silvio Santos, que praticamente extinguiu o jornalismo de sua grade, mantém um programa matinal de péssima qualidade ancorado no sensacionalismo e na preferência do público que consome sorrindo a desgraça alheia.

Em uma hora é possível observar muitas coisas. As pessoas que assistiam àquilo não tinham um celular nas mãos. As que não acompanhavam a sanguinária matinal estavam ocupadas em distrair crianças ou se (des)informando pelo Whatsapp. E eu observava tudo fazendo meu julgamento travestido de análise social.

Currículo fake

Na entrevista de emprego:

– Como foi sua experiência na CNN?, questiona o executivo da vaga.

– Onde? Não entendi a pergunta.

– Na CNN onde você foi repórter. Está aqui no seu currículo.

– Ah, a CNN! Pois é, eu não fui selecionada.

– Mas está aqui no seu currículo!, rebate, quase gritando o meu ex-quase- futuro-chefe.

– Eu coloquei porque tinha a intenção de trabalhar lá…

E assim termina a história: eu sem emprego e queimada no mercado de trabalho.

Mas para o governador do Rio de Janeiro a história não acaba agora.  Wilson Witzel incluiu Harvard no Currículo Lattes sem nunca ter estudado na instituição norte-americana. Depois do descuido ter sido descoberto e publicado, o governador, claro, disse que a notícia é mentirosa e pôs, adivinha?, culpa na imprensa.

Witzel continuará governador e logo a história sobre essa fraude será esquecida e substituída por outra até o final do mandato.

E eu continuarei sem a CNN no currículo e com a consciência tranquila.

Três minutos

O tempo,  já sabemos, é relativo. Por causa de três minutos eu fui descartada. Três minutos. Eu não estava em frente ao notebook para responder imediatamente a uma mensagem, havia ido ao portão atender alguém que chamava. Quando voltei à mesa, vi a mensagem e respondi. Silêncio. Momentos depois insisti e nada.

Ilustração: Revista Super Interessante

Soube, dias depois, que “demorei demais a responder”. Não se tratava de teste ou entrevista, era o primeiro contato após a pessoa ter recebido meu currículo. Eu, que geralmente respondo e-mail e whatsapp rapidamente, fui considerada lerda e, por isso, ignorada.

Quanto tempo temos?

Prestígio?

Um dia na redação do Diário da Amazônia, uma colega atendeu ao telefone. Era uma colunista do interior do estado convidando-a para escrever uns artigos para uma revista. -“Ah, que beleza”, respondeu a minha colega. -“E quanto é o cachê?”, perguntou. -“Você terá o prestígio de ter seu nome na minha revista”, respondeu a colunista.

A repórter desligou o telefone indignada, claro. Nos contou a história, que virou piada “interna” de todos que ali estavam. Hoje “prestígio” é uma expressão conhecida por muitas pessoas que souberam desse fato tão pitoresco.

Lembro-me sempre desse episódio ao ler as inúmeras ofertas de vagas de emprego em que o candidato precisa lavar, passar, cozinhar e construir um foguete em quatro horas pela honra de ter o prestígio de servir a determinada empresa.

Como diz um amigo fotógrafo: -“Meu senhor, prestígio não enche o tanque de gasolina!”.

Mostra mais, Globo!

O prefeito Marcelo Crivella disse a uma repórter, durante coletiva, que é perseguido pela emissora na qual a profissional trabalha, a Rede Globo. Segundo ele, a TV “faz drama” com situações corriqueiras da cidade do Rio de Janeiro. Sério, senhor? Essa série de acontecimentos dos últimos dias é algo assim, normal para a cidade por que ela tem morros, geografia acidentada? Foi mais um evento cotidiano o desabamento de prédios na manhã desta sexta-feira (12) e a morte de dois cidadãos, prefeito?

Deixa que eu respondo: – Não, não foi. Isso nada mais é do que o descaso com a cidade e o descompromisso com o cargo para o qual o senhor prefeito foi eleito, assim como os demais que o antecederam. Tragédias previstas por qualquer pessoa que observe o Rio de Janeiro ou outra cidade brasileira mal-administrada.

Acho que a imprensa ainda faz pouco. Mostra mais, Globo. Expõe todos os desmandos, mas cobra mais. É nosso dever de jornalista! Jornalismo é serviço ao cidadão e ao coletivo, sim!

Lembro-me do dia que um chefe me disse: – Marcela, o prefeito [de Porto Velho] está reclamando que você só fala mal dele. – Eu não falo mal de ninguém. Estou mostrando como está a cidade e administração dele. Se o prefeito acha que está mal, cabe somente a ele melhorar. E continuei fazendo o meu trabalho junto com a equipe, porque trabalhamos na imprensa e não na floricultura.

Houve o caso que o (outro) prefeito e o chefe eram amigos e então eu pedi demissão.

Vírgulas, muitas

Entrei no portal para ler uma notícia que me interessava. Saí apressada. Tantas vírgulas, muitas delas, quase me sufoco. Ah, mas você não havia dito que não se importaria com o português alheio? Sim, disse, quase jurei. Mas, no meio de um mar de vírgulas, esqueci.

Outro dia li o post de um rapaz no Linkedin sobre a ascensão profissional dele. Uma saga. Nenhuma vírgula. Cinco parágrafos. Nenhuma vírgula. Senti falta de ar. Relevei. O redator não era jornalista.

Como nasceu a jornalista

Desde criança tenho grande admiração pelos professores, por essa profissão que transforma vidas, que traz luz à ignorância. Minhas irmãs e eu montávamos o cenário de escolinha: papéis, lápis, canetas coloridas e tocos de giz. Lembro-me do dia que nossa mãe puxou uma lona preta no corredor entre o muro e a casa e fez uma sede para nossa escola. Ali foi fermentada a minha vontade por “ensinar”.  Eu sempre gostei muito de ler. Ficava ansiosa todo início de ano para receber os livros didáticos. Era um ritual: colocava um ao lado do outro em cima da cama e, claro, começava pelo livro de Português.

Abria-o, encostava o nariz em suas páginas e sentia o cheirinho de tinta nova como se fosse o perfume secreto de alguma floresta mágica. Virava as páginas e passava a mão, como se o toque fosse antecipar todo o conhecimento que estava ali para ser descoberto durante o semestre. Depois de folhear todo o livro, começa a ler as crônica, poemas, tirinhas – o que tivesse de “historinha”. Ah, preciso dizer que o livro de matemática não ganhava essa atenção, era apenas folheado muito por cima.

Ainda criança gostava de ler também reportagens, histórias reais contadas como se fosse uma vizinha, cheia de detalhes. Revistas sempre me atraíram. Não demorou muito para eu começar a escrever as minhas histórias. Escrevia no caderno procurando imitar a forma da narrativa do repórter. E assim foi crescendo minha vontade por trabalhar em uma revista e contar histórias de pessoas. Aproximar leitores de personagens. Eu já sabia o que queria, muito mais do que ser professora, queria ser jornalista – quem sabe uma escritora? – não, não. Aí já era demais, pensava.

E o tempo voou, tornei-me adulta e logo que pude virei assinante de Círculo de Livro e de revistas semanais. Assistia a todos os telejornais possíveis. Apaixonada por reportagens, colecionava histórias.

Sem acreditar que um dia poderia tornar-me jornalista, nunca me preparei para realizar este desejo. (E fica para eu contar depois essa parte da minha vida).

Um dia assistindo ao telejornal local do SBT, no intervalo um chamado: “se você tem boa redação, gosta de escrever, venha fazer parte da equipe de redatores da TV Allamanda”.  Claro que o anúncio não era exatamente assim, mas a finalidade era a mesma: contratar redatores. Senti um frio na espinha. E minhas irmãs começaram: “Marcela, você não quer ser jornalista? Vai lá, irmã!” E eu fui! Morrendo de medo, de vergonha, mas fui.

Flagrada não sei por quem sentada na mesa da chefa na TV Allamanda

Fiz o teste de vídeo. Péssima. Minha vontade era escrever, não queria estar a frente de câmeras, e sim por trás delas. Na prova de redação eu me soltei, montei uma matéria a partir de uma notícia que tinha lido em uma das revistas que assinava. Como eu imaginava, não fui chamada para trabalhar.

E a vida seguiu por três meses até o dia que recebi uma ligação da pessoa que seria minha primeira e mais importante professora de jornalismo e entraria para a lista de amigas-irmãs queridas. Fui para a entrevista com a jornalista Nara Vargas. Ela me mostrou minha redação, a melhor entre todas da seleção de meses antes. Soube que não fiquei com a vaga porque fui muito mal no teste de vídeo (Oh, quem diria?!), mas estavam precisando de alguém que soubesse escrever bem para fazer o jornal mais importante da emissora.

Meses depois já não era mais redatora, era apresentadora de um programa de notícias populares. Ao vivo! Imagina? Eu ao vivo. Seguiram-se então a bancada do telejornal da TV Meridional, a Band local, e depois, finalmente, consegui o que me interessava: a rua! Fui para a reportagem escrever e contar histórias. Não era revista impressa, mas bem melhor do que ser “âncora”. Para mim, claro. Sei de gente que daria muita coisa para estar numa bancada.

Quatro anos de TV, de escola, de preparo, me levaram para o impresso. Repórter, editora, editora-executiva, editora-chefe, coordenadora de conteúdo… professora de jornalismo!

Noite que me tornei jornalista profissional oficial

Volta lá para meu primeiro sonho profissional de infância. Quando concluí o curso de jornalismo – sim, muito tempo depois de prática, fiz o curso, pois não havia em Porto Velho -, fui convidada para dar aulas. E eu fui fazer o que acredito que seja a principal função de um professor: compartilhar conhecimento, colaborar com o crescimento do outro, formar. Gostei demais da experiência. Acredito ter colaborado com os alunos, hoje colegas de profissão.

Essa linha do tempo sobre minha vida profissional me fez refletir sobre eu nunca ter me preparado, pelo menos conscientemente, para nada disso. Deixei a escola muito cedo (depois eu conto), não pensei que conseguiria cursar uma faculdade (cursei duas), nunca ambicionei nada além de trabalhar “direitinho” e fazer o melhor, independente do local onde estivesse empregada.

Hoje continuo apaixonada pela minha profissão, mas – muito diferente do que pensava – estou aberta a mudanças. Minha crença em fazer o melhor é inabalável e serei  feliz onde quer que eu possa trabalhar.

Amores de outubro

Porto Velho, onde nasci e vivo desde sempre, completa nesse 2 de outubro 104 anos de criação. Há 11 anos eu produzi e escrevi um especial para o jornal Diário da Amazônia sobre essa efeméride. Na época era repórter e pedi ao meu editor que me autorizasse a fazer o suplemento comemorativo. A pauta: queria falar sobre o que é ser porto-velhense, fazer com que o leitor se identificasse. Não contar apenas a história da cidade, mas das pessoas – os hábitos, as tradições, o seu jeito de falar.

Dias após a publicação, ao chegar à redação e abrir o ‘MSN’ (sim, isso foi há mais de 10 anos!) uma mensagem de um amigo:” Você está com tudo hein? “. Não entendi, e precisei esperar muito tempo para que ele respondesse o meu “Por quê? O que houve?” Horas depois recebi o link da coluna Banzeiros. Era a resposta. O colunista político José Carlos Sá havia comentado o “meu” caderninho sobre Porto Velho (!!!). Eu fiquei eufórica, como se tivesse sido citada na revista Imprensa.

Acompanhava a coluna do JCSá, gostava do que ele escrevia, de suas observações, seu humor e ironia. Mas não o conhecia e ele estava elogiando meu trabalho. Enviei um e-mail em agradecimento à gentileza. Ele respondeu dizendo que acompanhava o meu trabalho há algum tempo. Mais e-mails.

Quase um mês depois nos encontramos pessoalmente. Seis meses depois ficamos noivos.  Mês passado fizemos 10 anos de casados.

Tudo começou porque escrevi sobre Porto Velho. Escrevi com minha alma porto-velhense, com meu sotaque cantado, com meu vocabulário meio nordestino com sabor de açaí.

O de 2 outubro desde aquele 2007 passou a ter mais significado para mim. A cidade que eu nasci se juntou à minha paixão por escrever e trouxeram para mim o amor da minha vida.

Nosso passeio por Porto Velho, no dia dos 104 anos de criação