Três minutos

O tempo,  já sabemos, é relativo. Por causa de três minutos eu fui descartada. Três minutos. Eu não estava em frente ao notebook para responder imediatamente a uma mensagem, havia ido ao portão atender alguém que chamava. Quando voltei à mesa, vi a mensagem e respondi. Silêncio. Momentos depois insisti e nada.

Ilustração: Revista Super Interessante

Soube, dias depois, que “demorei demais a responder”. Não se tratava de teste ou entrevista, era o primeiro contato após a pessoa ter recebido meu currículo. Eu, que geralmente respondo e-mail e whatsapp rapidamente, fui considerada lerda e, por isso, ignorada.

Quanto tempo temos?

Prestígio?

Um dia na redação do Diário da Amazônia, uma colega atendeu ao telefone. Era uma colunista do interior do estado convidando-a para escrever uns artigos para uma revista. -“Ah, que beleza”, respondeu a minha colega. -“E quanto é o cachê?”, perguntou. -“Você terá o prestígio de ter seu nome na minha revista”, respondeu a colunista.

A repórter desligou o telefone indignada, claro. Nos contou a história, que virou piada “interna” de todos que ali estavam. Hoje “prestígio” é uma expressão conhecida por muitas pessoas que souberam desse fato tão pitoresco.

Lembro-me sempre desse episódio ao ler as inúmeras ofertas de vagas de emprego em que o candidato precisa lavar, passar, cozinhar e construir um foguete em quatro horas pela honra de ter o prestígio de servir a determinada empresa.

Como diz um amigo fotógrafo: -“Meu senhor, prestígio não enche o tanque de gasolina!”.

Terra de ninguém

Nas duas últimas semanas tenho dedicado algumas horas do dia para procurar trabalho. Busco por vagas em São José, Florianópolis ou Palhoça. Entrei em grupos de emprego no Facebook, muito mais por curiosidade do que alguma certeza de que ali haveria algo para mim. Nesses grupos há uma variedade de cases de pessoas despreparadas, ingênuas e mau-caráter, para citar alguns perfis. Tem gente que realmente acredita que digitar ‘ok’ em uma publicação serve como um contato profissional. Outras creem que uma empresa grande está contratando pelo Facebook, basta informar o número do telefone. No grupo de mau-caráter estão aquelas criaturas que postam vagas falsas pelo simples prazer de enganar, que se valem do desespero de quem está desempregado para pegar mão de obra de graça, porque ao fim do “contrato” dá calote. É lamentável.

No feed desconexo apareceu uma vaga esquisita para… jornalista! Requisitos ter mais de 45 anos, ser formado em Jornalismo ou Psicologia (Quê???). Curiosa, enviei e-mail e esperei resposta, que não veio. Já estava imaginando desmascarar alguma furada, mas a pauta caiu. Houve outra vaga que me causou estranheza, não pelo cargo, mas pelo salário oferecido. Mas para esse anunciante não enviei e-mail. Meu único objetivo era ir lá, caso meu currículo passasse na seleção, claro, e perguntar se ele não tem vergonha de oferecer 1.200 reais para um redator com “redação e gramática impecáveis” trabalhar 8h por dia, 6 dias por semana. Achei melhor não gastar meu português com isso. Menos uma pauta, chefe.

Um quarto apertado

Quando menina, dividia um quarto com minhas três irmãs. Anos depois, adolescentes, mudamos de casa. Era uma casa grande, com quatro quartos – mas estava na fase de acabamento, que deve ter durado uns 10 anos, talvez  menos. Já não éramos quatro. Tinha nascido o primeiro (e único) menino e a última irmã estava a caminho. Por uns três meses ficamos nós, seis filhos, com nossos pais em um quarto. Desnecessário enumerar os problemas e dificuldades que enfrentamos com tanto aperto e desconforto.

Minha mãe era, na época, auxiliar de enfermagem no Hospital de Base Ary Pinheiro e para aumentar (um pouco) a renda prestava plantões no Pronto-Socorro João Paulo II. Foram anos de corre-corre até ser forçada a parar por não ter condições físicas e emocionais para carga de trabalho tão pesada. Junta-se a isso crianças com graves problemas de saúde. Quem suportaria?

Meu pai era taxista, depois comerciante, depois fretista (de frete).  Trabalhava sem parar, eu me condoía ao vê-lo alquebrado após um dia exaustivo de preocupação em manter a família alimentada.

Nos duros anos do governo Sarney, quando a carestia tomou conta da vida de todos brasileiros pobres, a situação piorou. Quando era possível, comíamos peru – carne que até hoje desagrada meu paladar. Sendo eu a mais velha, ia cedo para a fila do açougue comprar essa ave pálida e sem sabor. É deste período que tenho uma lembrança de meu pai indo vender a única joia que ele tinha, uma pulseira que ele mandou fazer com pedaços de ouro e prata que eram perdidos no táxi dele. Ele foi a pé, pois não tinha dinheiro para a condução, de casa – no Jardim Eldorado – até a 7 de Setembro, no Centro.

Situações como essa, tenho certeza, formaram meu caráter e minha disposição para o trabalho correto, independente de qual seja, contando que seja honrado.  Não passei, ainda, dificuldades na vida adulta como meus pais. As que enfrentei não são nada diante do que eles viveram com os sete filhos. É possível que elas surjam, claro. Com tudo o que vivi até os 19 anos espero ter aprendido a manter a confiança, perseverar no bem e acreditar que o dia de amanhã sempre pode nos surpreender com o sol da solução.

É preciso carregar?

Casamento, namoro, trabalho, amizade – seja o que for – tem gente reclamando. Alguns acreditam serem a cruz que devem carregar, que devem levá-la até o Gólgota, ou sabe-se lá para onde, e insistem. Continuam nas lamentações sem nada fazer para mudar a situação. Têm as mesmas atitudes esperando resultado diferente. Mas acho que sabem que não terão. Apenas não querem enxergar. Talvez seja um apego ou medo do depois. Ou os dois.