Primeiro aninho

Em 2019 passamos a chamar pão francês de pão de trigo, lava jato de lavação, cadela de bucica. A rua principal aqui perde a identidade para ser chamada de Geral. Demoramos um instantinho para entender a lógica.

E também adotamos o diminutivo. “Moço, quero um caldinho [de cana]”. Eu gostei? Mas é claro! Ah, é. Aqui tem caldo de cana por todos os cantos – rural ou urbano. Gostei ainda mais. E churros? Senhor do céu! Praças, cemitério, praia – sempre tem. Ainda bem que tem Pilates também.

Ainda sobre comida: o almoço começa a ser servido às 11h (nos restaurantes). O café da tarde é às 15h. Muitos restaurantes, principalmente pizzarias, abrem a partir das 18h para o jantar.  O lanche mais comum é cachorro-quente prensado.

Ainda não tive vontade e nem coragem de provar o açaí vendido aqui e estou há um ano sem consumir o que há de melhor no Norte. Arrisquei a fazer tapioca com uma goma (argh!) que comprei no supermercado para nunca mais repetir a experiência. Não vou macular as boas lembranças da tapioca do Norte e Nordeste.

Mas no lugar da tapioca tem cuca, tem rosca, tem bolos e biscoitos. Tem uma variedade de queijos e frutas frescas.

Oh, São José, tu és uma beleza, mô quirido!

A mudança e a ponte

No dia 30 de dezembro de 2018 saímos de Porto Velho rumo à São José. Não tínhamos casa, o plano era chegar, visitar imóveis previamente selecionados, escolher e então nos mudarmos. Tudo isso em uma semana. Os primeiros dias não foram fáceis, apesar da vista. Mas como sempre acontece, as coisas se ajeitaram.

Um ano após o início da mudança de cidade estávamos, Zé Carlos e eu, comemorando a volta da Ponte Hercílio Luz. Aquela beleza de estrutura pela qual somos apaixonados. Uma ponte que para nós, assim como para outras pessoas, é o carimbo mais querido no passaporte das férias.

Essa ponte representa um desejo que nasceu em janeiro de 2012 quando do nosso primeiro encontro nessa vida com Florianópolis. Quase oito anos depois, lá estávamos nós e umas 50 mil pessoas festejando a reinauguração do ícone.

A volta da ponte é uma significativa comemoração a esse primeiro ano de nossa corajosa resolução de termos saído do cômodo para o desconhecido.

Nós na Ponte Hercílio Luz

Apenas uma placa

Porto Velho do Rio Madeira

Não é apenas um nome de cidade na placa. É a cidade da minha história. Ela estava sempre ali, por onde eu andava, me lembrando de onde vim. Algo tão simples e que me fez sentir um aperto no coração quando recebi as fotos enviadas pelo Zé Carlos diretamente do Detran.

Porto Velho não estava mais ali. São José agora é quem estará comigo por onde eu for.

São José da Terra Firme

Estará no endereço, na placa do carro, na volta para casa, meu novo lar.

E Porto Velho? É mais que um lugar, um endereço, uma placa. Porto Velho, maninha, esse não sairá jamais de mim. É ruim hein?! 

Primeiros dias no Sul

As pessoas me perguntam: e aí, já se acostumou? Está sentindo muito a mudança? E nesses primeiros 30 dias a resposta tem sido a mesma: Estou tranquila, como se não houvesse saído do Norte para o Sul do país. Não sei se é porque não houve ainda tempo para pensar, ponderar sobre isso. Agora meu foco é organizar a casa nova e isso demanda dedicação e muita energia.

Nesses dias observei as diferenças em relação a produtos nas prateleiras dos supermercados e nas vitrines do açougue, por exemplo. A oferta de manteiga é insignificante, o que há em quantidade e variedade é marcas de margarina e nata. Parece que na Grande Florianópolis manteiga não faz sucesso e aqui em casa é o que consumimos. E no açougue? O patinho tem preço de picanha. Considere que sou rondoniense e em Porto Velho a oferta de carne bovina de qualidade é grande. Mas, como sempre digo, questão de adaptação. Por outro lado, tenho fácil frutas, legumes e hortaliças. Afinal, muita coisa sai do Sul para o Norte.

E isso é para colocar em balança? Na minha não. São coisas tão pequenas diante do que realmente importa para mim. Estou onde gostaria de estar, vivendo o que foi planejado – com uns atropelos aqui e outros acolá, como acontece na vida real – com quem eu amo. No mais, o futuro está bem aí e precisa ser construído sem barreiras de costumes e hábitos que só nos aprisionam.

Viagem de 120 horas com dois cachorros

Azula Dora Milaje, uma princesa com todas as raças <3
Argus Maximus, Dachshund ciumento e amoroso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nossa maior preocupação para a viagem de mudança era o Argus Maximus e a Azula Dora Milaje, nossos cãezinhos. Como eles reagiriam a 5 dias dentro de um carro sem passar mal, enjoar e nos incomodar, claro, com choro e birras? Pesquisamos sobre viagem de carro com cachorro e a maioria das experiências era de curta duração, nada perto das 120 horas que encararíamos.

Consultamos o veterinário deles, dr Pedro, que nos tranquilizou, receitou o remedinho abençoado (Acepran), atualizou o cartão de vacinação, deu os atestados para viagem e orientou para que fizéssemos paradas a cada 3h, se possível, de acordo com o comportamento deles. Pronto.

Inicialmente, cheguei a cogitar vir apenas com o Argus e Azula seguir de avião com o João Pedro. Ela é tranquila e o Argus é meio aperreado e muito apegado a nós. Mas não tive coragem. Pensei na possibilidade de ela passar mal, se soltar, morrer. Conversei com Zé Carlos e João Pedro e eles concordaram em virmos todos juntos no carro, 3.450 quilômetros de estrada. Esse número eu repito sempre. Tente falar em voz alta e você sentirá a força dos 3.450 km rs.

Argus nunca gostou de passear de carro. Nunca mesmo. Tem 5 anos e não se acostuma. Sempre que vê a nossa movimentação em preparar o carro para um passeio, fica agitado, aparentemente ansioso e, geralmente, pula para o banco traseiro e fica lá com carinha feliz (pelo menos é o que parece). Mas é só sairmos da garagem de casa que começa a gritaria, uivos, choro. Um escândalo até o pet shop. Na volta sempre volta tranquilo. Não entendo esse comportamento antagônico.

Azula, que dia 22/2 completará 1 ano, sempre fica tranquila no carro. Nos primeiros passeios à clínica veterinária babava muito, dr Pedro explicou que ela enjoava. Com o passar do tempo isso acabou, mas ela continua uma miss em comportamento.

 

No terceiro dia de viagem estavam mais amigos

 

Demos a dose de Acepran recomendada pelo veterinário e tudo seguiu bem. Saímos num domingo chuvoso de Porto Velho e em poucos quilômetros eles estavam dormindo. No carro estavam com peitoral preso ao cinto de segurança. Nada de caixas ou caminha. Forramos o banco do carro com mantas para que se sentissem confortáveis e seguros. Argus foi ao lado do João Pedro porque sente ciúmes da Azula.

A primeira parada foi em 100 quilômetros, no município de Itapuã do Oeste, para o café da manhã. Essa experiência não foi nada legal, pois a chuva continuava, mas nada que atrapalhasse. Não quiseram beber água e nem comer, acho que estavam meio sem entender o que estava acontecendo. Segue o baile.

Nosso pernoite naquele domingo, 30/12, foi em Vilhena. Ficamos no Hotel Colorado. Nessa acomodação eles podiam andar pelos corredores, sem necessidade de serem carregados no colo. Tudo tranquilo. Levamos as caminhas dele, bebedouros e preparamos um banheiro com jornais. Sonho de anjinhos até às 5h30, quando levantávamos e íamos passear com eles. Para comermos, um de nós ficava com eles enquanto 2 comiam, ou ao contrário.

 

Primeira noite da viagem. Dormiram tranquilos em suas caminhas

 

Nossas paradas não foram de 2 ou 3 horas. Era inviável isso e vimos também que não era necessário. Inviável porque não tinha onde parar e quando havia um bom acostamento, estava chovendo. Mas sempre que parávamos, o João Pedro caminhava e corria com eles. Até levou para passear num pasto, onde a Azula quis encarar uma vaquinha rs.

Quanto ao remédio,  demos as gotinhas para a Azula nos 2 primeiros dias. Percebemos que não era necessário, pois ela ficava quieta, dormia a maior parte do tempo. O tempo máximo que o Argus ficou sem o remédio foi 2h. Como disse, ele não gosta de carro.

 

Importante passear com os dogs em paradas programadas

 

Todos os hotéis foram reservados. Pesquisei na Booking os que aceitavam pets. Como as hospedagens eram na estrada foi mais fácil.  Os hotéis foram em Vilhena, Hotel Colorado; Várzea Grande, Marion Pantanal Hotel; Londrina, London Hotel; Joinville, Alpinus Hotel. Nesses dois últimos, eles deviam ser carregados no colo, mas isso não é demérito para as acomodações. Ainda bem que elas estavam na nossa rota!

Em Florianópolis ficamos hospedados na Casa do Sossego, em Cacupé, e ó, nota 10! Os dogs puderam correr, brincar, rolar na grama sem medo de serem enxotados. Muito boa a hospedagem para cachorrinhos e humanos.

Se você pretende viajar com seus dogs, vá sem medo. Apenas se organize, você conhece seus bichinhos, sabem como podem reagir, então esteja preparado. Importante dar água sempre, mesmo quando eles rejeitarem, insista – precisei fazer isso com Azula, a mais resistente. Leve brinquedos, mantas, objetos que eles gostam para que se sintam seguros. Quando parar, passei com eles, faça carinho, converse rs peça paciência porque “está quase chegando”. Ah, importante forrar bem o banco do carro. Acho que daqui a 10 anos ainda encontrarão pelos dessa viagem dentro do Sandero. E quem liga, né? Tudo valeu a pena e é o que importa.

Deixe o banco bem confortável para que se sintam seguros e à vontade no espaço

Três mil 450 km de mudança

Fim da missão. Bagageiro pronto.

Saímos no domingo, dia 30/12, bem cedinho. No sábado, passamos o dia cuidando de colocar tudo no bageiro do carro. Para isso contamos com a família. Cada um foi fundamental para que tudo desse certo. Última noite em Porto Velho passamos na casa da Kárita, João Pedro dormiu na casa do Fábio, Azula e Argus ficaram na agora ex-casa.

Quando voltamos à 4634 para buscar os cães e dar aquela última conferida – se nada estava ficando para trás – passeei pelos cômodos da casa, acariciei suas paredes como havia feito há 10 anos quando tomamos posse de seu espaço. Fui ao jardim e me despedi das plantas que ficaram, agradeci a todas por ter convivido conosco todo esse tempo, aos passarinhos pela companhia diária. Pronto. Acabou ali a história com a casa da rua Bandeirantes.

Embarcados por cinco dias

Todos embarcados e parecia que estávamos indo ali num passeio. Muita expectativa no ar. Como será que reagiríamos ao deixarmos a Terra de Rondon dali a 700 quilômetros? Gratidão foi o que sentimos a passarmos na segunda-feira, após pernoite em Vilhena, na divisa Rondônia/Mato Grosso. Zé Carlos deu umas buzinadas e gritamos: Obrigada, Rondônia! Gratidão por esse estado maravilhoso onde nasci, cresci e vivi por 45 anos.

Nesses 5 dias de viagem, o terceiro pernoite foi em Campo Grande na casa de amigos queridos que acolheram a todos nós com carinho e a quem somos gratos. Maristela, Bibo, Flaviane, Fábio, Fabielli, Dinho, crianças, Roxy – muito obrigada!

Amigos Maristela e Bibo, que nos acolheram em Campo Grande

Passamos por Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná até entrarmos em Santa Catarina. Nesses quase 3,5 mil quilômetros de estrada, de convivência praticamente ininterrupta – só não íamos juntos ao banheiro, a maioria dos dias foi leve e agradável. Houve momentos de tensão, cansaço e mau humor – os cães às vezes se agitavam, o trânsito parava, a chuva não dava trégua.

Tudo superado. Chegamos a Florianópolis, onde ficamos hospedados enquanto resolvíamos a compra da nova morada, numa manhã alegre para todos, principalmente para os cães que puderam correr e brincar como há dias não faziam. Para ficar anotado: chegamos dia 4 de janeiro, aniversário de 37 anos de instalação de Rondônia.

Uma nova etapa estava se concretizando.