Para não esquecer

Petit Gateau iria hoje ao petshop para um dia de beleza e saúde. Tosar a cabeleireira, tomar vacinas, ficar saudável e lindo. Nas duas últimas semanas ele tem sido um menino teimoso, recusa a presença de humanos e foge como se estivesse diante do próprio coisa ruim. E talvez estivesse mesmo. A espécie que é a racional da Criação e que descarta um ser vivo indefeso como se lixo fosse realmente não merece consideração.

Como o peludinho saberia que eu queria apenas salvá-lo das intempéries da vida? Que se aceitasse meu convite estaria em uma casa junto com dois outros iguais, Argus e Azula? Dia após dia eu tentava conquistá-lo mas ele não me dava ouvidos. Corria feito o Papa-Léguas do Coiote.  Finalmente tive a ideia para o plano infalível de resgate. Adicionaria gotas de calmante, aquelas que dei aos cães durante a mudança, na água e ração. O cãozinho dormiria e então eu o levaria para sua nova casa.

Não houve tempo. O atropelamento tirou do bichinho a chance de uma vida feliz. Petit Gateau partiu sem nem mesmo ouvir seu novo nome. Não pode ouvir a minha promessa de que teria uma vida segura, como seus novos irmãos Argus e Azula e de que nunca mais seria abandonado à infeliz sorte.

Numa manhã ensolarada de outono eu senti a dor da impotência diante do destino. Eu tentei mudá-lo, mas fracassei.

Viver é uma dádiva

João Pedro costuma reclamar de algum incômodo, seja qual for, e ao final do lamento diz: Mãe, acho que estou morrendo aos poucos. Minha resposta é sempre parecida: Morremos a cada dia, por isso precisamos viver mais. Com a quantidade de notícias de morte que chega todo dia é fácil perceber que a vida é muito mais passageira do que costumamos pensar.

Enquanto escrevo aqui e você lê aí, quantas pessoas morreram e quantas outras nasceram? A vida, lá e cá, não para. Estive de luto por esses dias, me agarrei numa tristeza e me encolhi como medo da vida. Meu luto era o mesmo de tantas outras pessoas entristecidas com as mortes que viraram manchetes nos últimos dias.

A certeza de que nossos dias podem acabar a qualquer instante não deve nos paralisar, porém, ao saber que nosso tempo é limitado e que desconhecemos quando chegará ao fim, devemos aproveitar o dia que nos apresenta cheio de possibilidades. Por que guardar o sorriso para depois quando estiver de batom? Sorria sem restrições. Não deixe no guarda-roupa aquela blusa linda que comprou para usar numa ocasião especial que nunca chega do jeito que planeja, mas que está aí todo dia e você nem percebe.

Não tenha medo de viver, não há tempo para isso. Estamos aqui, somos vencedores. Viver é uma dádiva, acredite. Viva!

Dor de todas nós

Esses últimos dias no Brasil têm sido de tragédias, essas que todos sabem, ouvem falar, acompanham na TV. Elas chocam a todos, consternam, incomodam. Famílias que sumiram na lama em Brumadinho, relatos de mães que perderam filhos, de filhos que ficaram órfãos, homens e mulheres viúvos. Uma tristeza sem fim. Histórias que comovem, que nos deixam perplexos com os estragos provocados pela irresponsabilidade de empresas e governos. Meninos que morreram carbonizados em um contêiner transformado em alojamento provisório. Crianças que saíram de casa para viver o sonho de ser jogador de futebol e que retornaram em um caixão lacrado.

Imagino quantas mães nesse País se uniram em oração às mães desses meninos. Desde que me tornei mãe nunca mais uma morte teve o mesmo impacto para mim. A dor dela é minha também. Dor é muito pouco para definir essa devastação na alma, mas ninguém conseguiu nominá-la, pois é gigantesca, indescritível. 

Todos os dias morrem dezenas, centenas, milhares de filhos mundo a fora. No Brasil morrem muitos deles, faça chuva, faça sol. No asfalto da rua comercial, do bairro elegante, nas favelas, nos morros, nos hospitais, nas escolas.  As tragédias são diárias. Não enxergamos todas, nem ao menos ficamos sabendo, mas elas existem. No mesmo dia que os 10 meninos do CT do Flamengo morreram no incêndio, outros jovens morreram em disputa de tráfico. Estavam onde não deveriam estar, poderiam estar trabalhando, estudando ou na praia. Mas, por escolhas que não foram somente deles, estavam ali onde não deveria estar filho de ninguém.