Porque eu amo junho

O céu azul com poucas nuvens e a lua aparente, o ar mais leve. À noite, as estrelas brincam para ver quem é a mais brilhante. Daqui, sinto o coração acariciado por sentimento de alegria e gratidão. Junho é assim para mim desde sempre.

No início havia mais: brincar perto da fogueira, fazer promessas de amizades, dançar quadrilha, comer paçoca e bolo de milho, ah, claro! e muita pipoca. Depois as visitas aos arraiais, o passeio pela cidade para ver as fogueiras de São João. Mais recentemente, organizávamos uma festa em casa, em Porto Velho, onde tínhamos delícias da culinária junina e o melhor que há na vida: amigos. O Arraiá Duzamigo era, principalmente, a minha expressão sobre junho.

Neste ano, o sentimento íntimo não é diferente, o que muda é o ambiente em comum. Não há os festejos como eu conheço, a tradição de arraiais e quadrilhas não faz parte da cultura de São José e Florianópolis. Após muita pesquisa, nada consegui saber sobre eventos juninos. Mas, por acaso, ouvi um carro de som anunciando um arraial. E lá fomos nós. Desnecessário dizer o quanto estava ansiosa para conhecer o hábito festivo do Sul.

Um dos muitos arraiais

A primeira diferença é o horário: aqui as festas começam à tarde para acabar à noitinha. Pelo menos nesse arraial de uma creche comunitária não havia mingau de milho, curau ou arroz doce. O bolo de milho devia ser fantasia. E mesmo assim eu adorei! Tinha pinhão e amendoim na casca, cachorro-quente e paçoca. Que maravilha! Toda a festa tinha como objetivo um bingo de mil reais. Toda comunidade ansiosa para levar a dinheirama para casa. Enquanto não começava a disputa pelas notas, fizeram rifas de bolos, doces e bebidas.

No próximo junho, a festa será em nossa casa. Um arraial com sabores do Sul temperados com recordações do Norte. Anarriê!

Bonitinho e ordinário

Doces árabes, disseram

Uma vitrine de doces é um mundo de possibilidades. Eu bato os olhos num bolinho redondo e penso: Hum… Deve ter gosto de laranja. Aponto para enroladinho e pergunto para ter certeza: é de goiabada e queijo? E a pessoa atrás do balcão geralmente responde: É Romeu e Julieta. E eu sempre sorrio a essa resposta. Ah, mas nem bolinho de laranja, nem docinho mineiro. Eu quis a sobremesa árabe, um ninho de damasco. (Me perdoem se a nacionalidade do quitute está errada, foi o que me informaram).

Que lindo! Perfeito para uma foto. Que textura! Fico até meio ansiosa para provar, mas deixo para depois.  Com certeza o doce não é mais saboroso do que uma conversa leve numa tarde descompromissada.  Pode esperar.

Após goles de café, histórias e exclamações, chegou o momento aguardado. Com as mãos gulosas, levo o doce das arábias à boca. Mordisco com cuidado. Engulo. A força. Quero gritar pelo Procon. Quero convocar a Comissão de Direitos Humanos. Uma bancada de psicólogos, por favor.

Lido com frustrações há uns bons anos e há algum tempo aprendi a não ser limitada por elas. Um relacionamento que não era bem aquilo. O trabalho que não rendeu tanto quanto esperava. A receita que falhou no dia da festa. Ok, é tudo superável.

Mas um doce fingir ser maravilhoso; seduzir e prometer o céu em pequenos beliscões; iludir com a promessa de prazer inesquecível? Isso é inaceitável.

Inadmissível para mim com tantos carimbos na página da vida ter sido enganada por um docinho de padaria. Onde vou parar desse jeito?

Doce de importância

Na mala eu trouxe farinha de tapioca, única lembrança física que poderia resistir aos dias de mudança de cidade, aqueles mais de 3.400 quilômetros.  Numa tarde na casa nova, enchi uma xícara de café, coloquei um pouquinho de leite e um tanto de tapioca e saboreei como se esses grãos tão simples fossem o que há de melhor para se comer.

Num domingo comprei banana da terra e separei duas para fazer o inigualável mingau de banana com tapioca, mas acabei fritando todas as bananas. Com isso parece que ficou claro que o mingau não é tão inigualável como eu supunha.

Mas ontem a tapioca ganhou o destaque que merece. Usei boa parte dela para fazer uma sobremesa para amigos que vieram nos visitar. Eles moraram durante seis anos em Porto Velho, gostam do que o Norte oferece e a tapioca aflorou as boas lembranças à mesa, como o tambaqui assado.

 

Bolo gelado de tapioca temperado com significados

 

As coisas simples do dia a dia tornam a vida especial. Uma simples farinha é capaz de fazer você refletir sobre o que realmente importa.  Valorizar o que  somos hoje é dar importância a nós mesmos. Somente nós sabemos de nossas conquistas , as batalhas que vencemos contra nós mesmos, as guerras que ainda temos que enfrentar para nos tornarmos pessoas melhores. Para tudo isso a simplicidade está a nosso favor. Enquanto refletia sobre os passos que devo dar,  preparei o bolo de tapioca, acho que o melhor de todos os tempos.

Três mil 450 km de mudança

Fim da missão. Bagageiro pronto.

Saímos no domingo, dia 30/12, bem cedinho. No sábado, passamos o dia cuidando de colocar tudo no bageiro do carro. Para isso contamos com a família. Cada um foi fundamental para que tudo desse certo. Última noite em Porto Velho passamos na casa da Kárita, João Pedro dormiu na casa do Fábio, Azula e Argus ficaram na agora ex-casa.

Quando voltamos à 4634 para buscar os cães e dar aquela última conferida – se nada estava ficando para trás – passeei pelos cômodos da casa, acariciei suas paredes como havia feito há 10 anos quando tomamos posse de seu espaço. Fui ao jardim e me despedi das plantas que ficaram, agradeci a todas por ter convivido conosco todo esse tempo, aos passarinhos pela companhia diária. Pronto. Acabou ali a história com a casa da rua Bandeirantes.

Embarcados por cinco dias

Todos embarcados e parecia que estávamos indo ali num passeio. Muita expectativa no ar. Como será que reagiríamos ao deixarmos a Terra de Rondon dali a 700 quilômetros? Gratidão foi o que sentimos a passarmos na segunda-feira, após pernoite em Vilhena, na divisa Rondônia/Mato Grosso. Zé Carlos deu umas buzinadas e gritamos: Obrigada, Rondônia! Gratidão por esse estado maravilhoso onde nasci, cresci e vivi por 45 anos.

Nesses 5 dias de viagem, o terceiro pernoite foi em Campo Grande na casa de amigos queridos que acolheram a todos nós com carinho e a quem somos gratos. Maristela, Bibo, Flaviane, Fábio, Fabielli, Dinho, crianças, Roxy – muito obrigada!

Amigos Maristela e Bibo, que nos acolheram em Campo Grande

Passamos por Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná até entrarmos em Santa Catarina. Nesses quase 3,5 mil quilômetros de estrada, de convivência praticamente ininterrupta – só não íamos juntos ao banheiro, a maioria dos dias foi leve e agradável. Houve momentos de tensão, cansaço e mau humor – os cães às vezes se agitavam, o trânsito parava, a chuva não dava trégua.

Tudo superado. Chegamos a Florianópolis, onde ficamos hospedados enquanto resolvíamos a compra da nova morada, numa manhã alegre para todos, principalmente para os cães que puderam correr e brincar como há dias não faziam. Para ficar anotado: chegamos dia 4 de janeiro, aniversário de 37 anos de instalação de Rondônia.

Uma nova etapa estava se concretizando.

Problemas de estimação

Você deve conhecer alguém que tem sempre pronta uma lista de problemas para apresentar e entre os itens alguns que você já ouviu antes. Com toda boa vontade, você se dedica a mostrar as possibilidades de solução para os males apresentados. “Mas, o quê? Você não entendeu nada do que eu disse!”, diz, contrariado, seu amigo reclamão.

Essa é a senha para você saber que desses problemas essa pessoa não quer se livrar. São de estimação.

Deixa quieto.