Dinâmica da felicidade

“O que te fez feliz hoje?”, essa pergunta e as dezenas de respostas que se seguiram a ela me fizeram ter certeza de que a vida é feita de momentos muitos singelos aos quais damos alguma importância. Mas não é sempre que estamos conscientes de que algo como tomar café da manhã sem pressa pode ser prazeroso. A pergunta fazia parte de uma dinâmica de grupo da qual participei.

A minha resposta foi: “Ter dirigido de casa até aqui. Moro em São José e é a primeira vez que dirijo na Ilha na hora do rush!”.

E os momentos de felicidade foram os mais variados: ter dado conta de cumprir todas as tarefas que se propôs para aquele dia; ter conseguido chegar a tempo à reunião mesmo saindo com pouca antecedência; ter entregue a dissertação; ter finalizado o TCC; ter reencontrado um amigo de infância que não via há anos; ter conversado um tempão com uma irmã ao telefone…

E foram quase 50 motivos de alegria, felicidade, bom ânimo. E há milhares deles.

A vida é simples e a dinâmica da felicidade – essa “mais fácil”, não aquela que ficará mais para adiante, está em observarmos e estarmos presentes em cada momento.

A nossa presença em nossa própria vida faz diferença.

Capim e poesia na estrada

Um passeio pode nos fazer relembrar poesia e perceber que há beleza em nossa volta. Mas é preciso estar de alma leve. Foi assim que percebi os capins do caminho para a serra, em São Joaquim (SC). Havia uma variedade deles, brancos, dourados, roxos. Junto a eles, muitas florzinhas com diversidade de cores. Colhi alguns, plantei os enraizados e com os demais fiz um arranjo.

Durante esse processo, um poema não me saía do pensamento, “Capim”, do Djavan.

“Capim do Vale, vara de goiabeira na beira do rio
paro para me benzer
Mãe d’Água sai um pouquinho desse seu leito ninho
que eu tenho um carinho para lhe fazer
Pinheiros do Paraná
Que bom tê-los como areia no mar
Mangas do Pará, pitombeiras da Borborema
A Ema gemeu no tronco do Juremá
Cacique perdeu mas lutou que eu vi
Jari não é Deus mas acham que sim
Que fim levou o amor
Plantei um pé de fuló deu capim…”

Capins e macelas colhidos na estrada

Eu quero a leveza do capim e da poesia nos meus dias. Todos os dias. 

A minha frase de mãe

“Me chamou, mãe?”, pergunta João Pedro após meia hora do meu chamado. “Você está com delay? Se fosse vida ou morte, eu já estaria morta”. A resposta foi automática. Eu que sempre critiquei (em pensamento) os exageros da minha mãe estava ali reproduzindo uma versão do clássico “quando eu morrer vocês vão chorar”.

Deve haver algum dispositivo no corpo feminino que é ativado após o nascimento do primeiro filho e logo que a criança cresce são disparadas as primeiras frases maternais, como “fecha a boca e come tudo que está no prato”. Um grande mistério. Como comer se a boca deveria estar fechada? Ouvi muito isso durante minha infância. Ah, quem me dera ter mantido meu desinteresse por comida. Poxa, mãe!

Ontem, dia das mães, tentei lembrar quais frases “de mãe” eu repito para o meu filho. Não lembrei de nada, então perguntei a ele e a resposta aqueceu o meu coração: “‘Sabe que eu te amo?’, é o que a senhora mais fala [para mim]”. Eu que pensava que ele não prestava atenção, nem mesmo ouvia.

Vou continuar falando que o amo e demonstrando com atitudes. Afinal, ele “não é todo mundo”.

Eles não foram com a minha cara

Fui à Unidade Básica de Saúde do bairro para me cadastrar e marcar consulta com um clínico geral. O primeiro atendente exigiu certidão de casamento para provar que eu moro no endereço apresentado. Voltei em casa e peguei o documento e, claro, nova senha. Fui atendida por outro que disse que eu teria que esperar a visita de agentes de saúde para então marcar a consulta. “Moço, meu marido foi atendido pelo médico no mesmo dia em que esteve aqui. Não foi nenhum agente em casa até hoje”. Ele me fuzilou com o olhar e voltou a mexer nos papéis que eu havia entregue. “Ah, aqui está a certidão de casamento”, disse, como se eu já não tivesse apresentado o documento a ele no início do atendimento.

Preencheu algumas fichas, fez meu cartão de paciente e então perguntou: “A senhora quer consulta para quê? É algum check up?”. Para não ser jogada em uma consulta somente em junho ou 2020, respondi: “Tenho um tumor na cabeça e preciso de acompanhamento”. Pronto. Consulta marcada para segunda-feira, às 10h.

Sinceramente, eu nem lembrava do tumor e que preciso refazer os exames para ver como está o bichinho. Queria apenas que o médico avaliasse uma “lombada” que apareceu na minha coxa. Mas, se eu respondo isso, ele poderia me mandar procurar um especialista particular.

Cheguei em casa e contei o acontecido. Esses dois funcionários foram os mesmos que atenderam ao Zé Carlos “muito bem” semanas atrás.

E teve mais. Na sala de vacina contra Influenza, dei o braço para ser picado, mas a vacinadora pediu o glúteo. “Ué? Mas não é o braço?”, perguntei. “O certo é o glúteo, fazem no braço, mas não é o correto”, respondeu, enfática.

Adivinha? Isso mesmo, o Zé Carlos foi vacinado, por essa mesma funcionária, no braço e recebeu até algodãozinho.

Eles não foram com a minha cara.

Apenas uma placa

Porto Velho do Rio Madeira

Não é apenas um nome de cidade na placa. É a cidade da minha história. Ela estava sempre ali, por onde eu andava, me lembrando de onde vim. Algo tão simples e que me fez sentir um aperto no coração quando recebi as fotos enviadas pelo Zé Carlos diretamente do Detran.

Porto Velho não estava mais ali. São José agora é quem estará comigo por onde eu for.

São José da Terra Firme

Estará no endereço, na placa do carro, na volta para casa, meu novo lar.

E Porto Velho? É mais que um lugar, um endereço, uma placa. Porto Velho, maninha, esse não sairá jamais de mim. É ruim hein?! 

Bonitinho e ordinário

Doces árabes, disseram

Uma vitrine de doces é um mundo de possibilidades. Eu bato os olhos num bolinho redondo e penso: Hum… Deve ter gosto de laranja. Aponto para enroladinho e pergunto para ter certeza: é de goiabada e queijo? E a pessoa atrás do balcão geralmente responde: É Romeu e Julieta. E eu sempre sorrio a essa resposta. Ah, mas nem bolinho de laranja, nem docinho mineiro. Eu quis a sobremesa árabe, um ninho de damasco. (Me perdoem se a nacionalidade do quitute está errada, foi o que me informaram).

Que lindo! Perfeito para uma foto. Que textura! Fico até meio ansiosa para provar, mas deixo para depois.  Com certeza o doce não é mais saboroso do que uma conversa leve numa tarde descompromissada.  Pode esperar.

Após goles de café, histórias e exclamações, chegou o momento aguardado. Com as mãos gulosas, levo o doce das arábias à boca. Mordisco com cuidado. Engulo. A força. Quero gritar pelo Procon. Quero convocar a Comissão de Direitos Humanos. Uma bancada de psicólogos, por favor.

Lido com frustrações há uns bons anos e há algum tempo aprendi a não ser limitada por elas. Um relacionamento que não era bem aquilo. O trabalho que não rendeu tanto quanto esperava. A receita que falhou no dia da festa. Ok, é tudo superável.

Mas um doce fingir ser maravilhoso; seduzir e prometer o céu em pequenos beliscões; iludir com a promessa de prazer inesquecível? Isso é inaceitável.

Inadmissível para mim com tantos carimbos na página da vida ter sido enganada por um docinho de padaria. Onde vou parar desse jeito?

Severino quer mudar

Tenho uma família relativamente grande, se considerar tios e primos com os quais não tenho ou nunca tive contato algum. Mas se contar apenas os próximos é bem pequena, mãe, irmãos e sobrinhos – e agora minha tia, que está bem próxima. Mudei-me para Santa Catarina e ela mora ali, na Ilha, e eu aqui, no Continente. Coisas da vida.

Nessa madrugada sonhei com o pai dela, meu avô, também pai do meu pai. É o único avô que conheci, seo José Severino Duarte. Como dizia papai, “sorte sua não ser ‘Severina'”, ele Alcides Severino da Silva. Severino, vô? Poderia ter batizado papai de Duarte. Já pensei nisso:  Marcela Ximenes Duarte e não ‘da Silva’. Mas, hoje, estou bem com o sobrenome do meu pai – tanto que o mantive ao casar e adotar o Sá do Zé Carlos.

No sonho vovô sorria, do jeito que eu o conheci quando estivemos todos em Campo Grande no início dos anos 80. Não era uma viagem de férias, estávamos lá para consultas médicas, mas era como se fosse, afinal, éramos crianças conhecendo a família do papai.

Meu avô era mineiro, meu pai também. Não sei a história, o porque de a família ter se mudado para Mato Grosso e depois Mato Grosso do Sul. Meu pai serviu ao Exército em Cuiabá. Depois foi para o Amazonas e por fim, Rondônia, onde continuou trabalhando nas Forças Armadas por um tempo até conhecer minha mãe, casarem, ele sofrer um acidente e ser dispensado.

Vovô e papai, no sonho, tratavam de mudança. Queriam ir para outra terra e eu não lembro qual. Pará, Rio Grande do Sul, Ceará? Não importa. Os dois homens planejavam viajar em breve. Desse sonho, ficou na minha lembrança nitidamente a voz do papai e o sorriso do vovô. Sem dúvida, um jeito alegre de começar o dia, a semana, o mês, de recomeçar. Obrigada pela visita, meus queridos.

Minha primeira e difícil mudança

Eu nasci e vivi até os 13 anos na rua José Bonifácio, bairro Pedrinhas, em Porto Velho. No centro do mundo, do meu mundo. No dia que papai colocou a casa à venda minhas irmãs e eu ficamos bem descontentes. Mas ninguém ficou mais desesperada do que eu.

No dia da mudança, lembro-me bem, me agarrei ao telefone e não queria largar, falando com uma grande amiga – da qual não tenho notícias há uns 30 anos, pelo menos -, seria o fim da minha vida viver longe dela, oh Deus! Eu chorava, esperneava em cima do caminhão da mudança. Que cena!

Mudamos para o fim do mundo, a rua Tancredo Neves, no recém-nascido Jardim Eldorado. “Socorro, cadê o jardim daqui? Só tem poeira, nesse lugar horroroso!”. O Pedrinhas era o bairro mais lindo do mundo para mim, só perdia para o bairro da minha avó em Campo Grande/MS. Era só o que eu conhecia.

Durante não sei quanto tempo, minhas irmãs e eu íamos passar os domingos no lindo Pedrinhas. Não lembro como essa rotina de matar a saudade cessou.

Quero viver livre de preconceitos

Talvez tenha sido quando resolvemos viver a realidade e aproveitar a companhia dos novos amigos da vizinhança. Nos adaptar a um bairro totalmente diferente do nosso querido Pedrinhas. Era tudo diferente. As ruas, as casas, os comércios, as pessoas.

A diferença entre as ruas José Bonifácio e Tancredo Neves continua até hoje. A rua do Pedrinhas, lá onde nasci, continua na mesma. A do Eldorado é uma grande via de acesso aos demais bairros que surgiram logo depois. Não lembra nada daquela rua de faroeste.

Em mim também ocorreram mudanças. Hoje resta muito pouco daquela menina cheia de medos e preconceitos e eu tenho apenas a agradecer.

Você não está vazio de amor

Nas últimas semanas tenho feito um regime de palavras. As negativas eu não posso engolir. E o Twitter, a rede que eu mais gosto, está repleta delas.

Penso sempre quando leio (ou ouço) “que ódio!” se a pessoa faz a miníma ideia do que representa essa palavra, a força dela. Para se ter ódio de algo você tem que estar muito vazio de amor. Não acredito que todos estejam. Deus nos livre!

A fila incomoda, a demora no sinal perturba, a mensagem que não chega é motivo de “preferia estar morta!”. Essa pressa por nada pode encurtar a vida e daí será muito triste você descobrir que não, não era melhor estar morta.