Prefiro feijão com charque

Ultimamente tenho pensado que o topo de um muro tem melhor utilidade para passarinhos e gatos. Às vezes eu me apoio nele para conseguir podar a primavera, que se estica tijolos a fora e ameaça chegar ao meio da rua. Mas o muro figurativo é um lugar onde não desejo estar, principalmente em meio a tantos conflitos. Antes eu até via esse recurso como algo seguro, onde seria mais fácil manter relacionamentos e, especialmente, amizades. Não que eu queira me desfazer de amigos ou deseje que eles se desfaçam de mim, nada disso. O que não dá mais é fingir que está tudo bem quando não está. Poderia até pensar que está bem sim, afinal, tenho um emprego, casa própria, quantas refeições quiser ao dia, meu filho e meu marido perto de mim. Grandessíssima egoísta seria se assim pensasse.

Milhares de desempregados, famintos, órfãos, desesperados. O Brasil nunca foi um país justo, mas agora está se superando em alargar ainda mais a desigualdade, aprofundar o abismo social e matar pela desesperança. Dizer que isso “sempre foi assim” é de uma ignorância sem tamanho. Aliás, combina com o tamanho do desprezo que se tem pela realidade.

Nos últimos meses tenho me assustado com os preços no supermercado. Como um assalariado come? Um quilo de feijão de má qualidade é 5 reais, um garrafa de óleo de soja, que nem um litro tem mais, é quase 8 reais – isso na promoção!, leite, arroz, carne, café – nada escapa à inflação. E o botijão de gás que leva 10% do salário mínimo? Isso é estar bem? Não é e vai piorar. Porque não tem ninguém interessado em mudar esse cenário. Só se pensa em outubro de 2022. Quantos morrerão de inanição até lá?

Por isso, prefiro feijão com arroz e ovo frito. Mas pode ser feijão com farinha. Melhor ainda se for feijão com charque. Se tiver banana frita acompanhando, prefiro.

Armas não servem à nada, além da morte. Falsa sensação de segurança e poder para quem quer dominar pela força. Argumento de covardes e violentos.

Prefiro o diálogo ao embate. Regras à anarquia. Direitos conquistados à ditadura. Democracia ao autoritarismo. A Constituição ao AI 5.

Prefiro feijão mesmo que seja cru.

Feijoada preparada por mim para amigos, em Porto Velho

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