Mais que trilhas

Na quinta-feira (30) encarei uma trilha íngreme, uma hora e meia subindo rumo ao pico da Pedra Branca, um monumento natural da Grande Florianópolis, localizado em São José no limite com Palhoça. Não fui a passeio, mas a trabalho.

Sugeri ao editor uma pauta sobre o Morro da Pedra Branca que é visto de vários pontos da região. A sugestão foi minha, então eu que lutasse para fazer a reportagem. E assim foi.

O sol estava entre nuvens e isso amenizou o calor na trilha, que ocorreu sem problemas. A vista lá do alto é espetacular e todo o esforço foi recompensado.

Subindo rumo à Pedra Branca

No sábado seguinte (1), fui para outra trilha. Dessa vez a passeio, sem compromisso com conteúdo. Os parceiros não eram mais o colega fotógrafo e o guia personagem. A Trilha do Gravatá, no Sul da Ilha de Santa Catarina, era novidade para mim, o Zé Carlos e a Josy.

Pensa num lugar fantástico, não a trilha, o final dela. Lindo, lindo, lindo.

Chegar à Praia do Gravatá, tomar banho no mar azul de águas frescas valeu cada pisada durante um pouco mais de uma hora.

Josy encarando a Trilha do Gravatá

Quis as circunstâncias que a lembrança dessa primeira ida ao Gravatá fosse além da paisagem. Anotamos no livro aberto para 2020 o dia em que o Zé Carlos passou mal e foi resgatado pelo helicóptero da Polícia Militar.

Foi como um filme: Uma trilha no meio do mato dentro de uma metrópole, com uma praia paradisíaca, um salvamento de helicóptero com atendimento digno de todos os elogios.

Agora quando eu passar perto do Gravatá vou me lembrar do Águia chegando para salvar o Zé Carlos, assim como desde o dia 30 penso “já estive ali em cima” quando meus olhos alcançam o Morro da Pedra Branca.

A primeira vista da Praia do Gravatá

Pais ou servos?

Você provavelmente já presenciou uma cena semelhante. No restaurante entra um casal com uma criança, que vai de um lado a outro escolhendo uma mesa para o jantar. “Não, não. Aqui não, é melhor ali”, determina o menino (ou menina), para logo mudar de ideia. O garçom morde os lábios, revira os olhos – mesmo que disfarçadamente, mas você percebe, porque está fazendo o mesmo.

E situações assim se repetem no transporte, seja no avião durante a viagem de férias ou o ônibus escolar, no supermercado (eu queeeero!!) e por onde quer que eles estejam. Eles, os pais sem autoridade e os filhos “dominadores”.

As crianças se aproveitam da permissividade dos pais para agir como bem entendem e assim satisfazer suas vontades, que podem ser apenas mostrar quem manda.

Para esses pais, a criança é alguém com gênio forte, cheio de personalidade. Para os filhos deles, o pai e a mãe são seus realizadores de vontades.

No final de semana presenciei um menino de uns cinco anos fazer os avós de bestas indo de um canto a outro do restaurante escolher a mesa. Isso me fez lembrar de quando meu filho, então bem pequeno, após uma ordem minha (isso mesmo, ordem), perguntou entre os dentes:

– Quando vou mandar na senhora?

– Nunca, porque sou sua mãe e isso nunca vai mudar nessa vida.

Não é por acaso que somos pais. Estivemos na posição de filhos crianças e adolescentes e tivemos bons pais – e não amigos – para sermos educados. Que tal repetir a fórmula com os que estão sob nossa tutela?

Ah, sim. É claro que em alguns casos é preciso algumas adaptações e correções no roteiro. O tempo da vara de goiabeira ficou no passado e deve morrer por lá.

Breve história da Atena

Ao abrir as cortinas do quarto na manhã de sexta-feira (17) vi na calçada do vizinho um cachorro desconhecido. Corri para saber quem era e logo percebi que ele estava com uma patinha machucada. Fui conversar com ele, que fugiu mancando. Após muita insistência voltou desconfiado e então soube que era ela.  Dei ração, água, atenção e recebi muitos sorrisos.

O dia seguiu cheio de afazeres e Charlote não saia de meus pensamentos. No início da tarde consegui sair para procurá-la e a encontrei sendo alimentada por um casal de jovens, que recém-mudou para a outra rua.  Ficou combinado que no sábado cedo eu iria levá-la ao veterinário e que o nome dela seria Atena e não Charlote. Aceitei a “sugestão” do João Pedro, padrinho da resgatada.

A noite foi insone. O medo da experiência que tive com o Petit Gateau se repetir parecia um fantasma me perseguindo pelas portas do sono. No sábado, o sol chegou aquecendo meus planos.

Quando a conheci na sexta-feira. Patinha machucada foi a isca do amor

Foi no consultório veterinário que percebi o quanto Atena estava suja, com o corpo machucado e infestado de pulgas e carrapatos, as orelhas e os olhos aparentemente lesionados pelo sol ou por parasitas (ou as duas coisas). Primeira suspeita foi de anemia e doença do carrapato.

Não tinha pretensão alguma de adotar mais um animal. Argus e Azula são nossos queridos mascotes e ocupam um bom espaço da casa e de nossas vidas. Mas como ignorar a Atena tão indefesa, machucada, assustada e com dores? Não pude.

Atena vai continuar tomando uns comprimidos por duas boas semanas. Logo que estiver recuperada da anemia e da infecção, será vacinada e castrada.

Desconheço a vida pregressa dela. Pode ter sido abandonada ou mesmo ter fugido de casa, como saber? O que importa é que ela está bem. Se tem alguém procurando por ela que a encontre logo, antes que o laço fique mais apertado e eu tenha que desatá-lo em lágrimas.

Na terça-feira, segundo dia no novo lar, a aparência está saudável

Primeira tattoo de 2020

Foi num intervalo de almoço em 2015 que eu decidi fazer uma tatuagem. Decidi e fiz. Liguei para o tatuador indicado por um amigo, que estava – que sorte a minha – com horário vago por desistência de um cliente. Tatuei o perfil de um dachshund em homenagem ao Argus Maximus e desde então não parei mais.

Em três viagens consegui ser atendida por tatuadoras super-talentosas. Em Taubaté marquei minha paixão por viajar. Em Salvador, guardei o carinho pelo Nordeste num potinho e também tatuei a loba da liberdade. O São Francisco com o Argus no colo foi tatuado em Curitiba.

Em 2018 devo ter feito umas quatro tatuagens.  Ano passado, na cidade nova, fiz apenas uma. Marquei na pele a Ponte Hercílio Luz e as Caixas d’Água, homenagem a Florianópolis e Porto Velho. Obra do meu primo Muriel, o Curumex – que retratou a minha ideia com criatividade.

Há uns três meses estava com outra ideia fixa, mas não sabia a quem recorrer. Surgia na minha mente uma girafinha fofa comendo pipoca. Eu gosto muito de girafas e sou dependente de pipoca e então imaginei juntar essas duas queridas. A espera foi recompensada no sábado (18).

Girafinha pipoqueira

Ainda não sei se o porquê das tatuagens vai além do simples gostar. Enquanto não for proibido ou me fizer mal, continuarei rabiscando a minha pele.

Primeiro aninho

Em 2019 passamos a chamar pão francês de pão de trigo, lava jato de lavação, cadela de bucica. A rua principal aqui perde a identidade para ser chamada de Geral. Demoramos um instantinho para entender a lógica.

E também adotamos o diminutivo. “Moço, quero um caldinho [de cana]”. Eu gostei? Mas é claro! Ah, é. Aqui tem caldo de cana por todos os cantos – rural ou urbano. Gostei ainda mais. E churros? Senhor do céu! Praças, cemitério, praia – sempre tem. Ainda bem que tem Pilates também.

Ainda sobre comida: o almoço começa a ser servido às 11h (nos restaurantes). O café da tarde é às 15h. Muitos restaurantes, principalmente pizzarias, abrem a partir das 18h para o jantar.  O lanche mais comum é cachorro-quente prensado.

Ainda não tive vontade e nem coragem de provar o açaí vendido aqui e estou há um ano sem consumir o que há de melhor no Norte. Arrisquei a fazer tapioca com uma goma (argh!) que comprei no supermercado para nunca mais repetir a experiência. Não vou macular as boas lembranças da tapioca do Norte e Nordeste.

Mas no lugar da tapioca tem cuca, tem rosca, tem bolos e biscoitos. Tem uma variedade de queijos e frutas frescas.

Oh, São José, tu és uma beleza, mô quirido!

A mudança e a ponte

No dia 30 de dezembro de 2018 saímos de Porto Velho rumo à São José. Não tínhamos casa, o plano era chegar, visitar imóveis previamente selecionados, escolher e então nos mudarmos. Tudo isso em uma semana. Os primeiros dias não foram fáceis, apesar da vista. Mas como sempre acontece, as coisas se ajeitaram.

Um ano após o início da mudança de cidade estávamos, Zé Carlos e eu, comemorando a volta da Ponte Hercílio Luz. Aquela beleza de estrutura pela qual somos apaixonados. Uma ponte que para nós, assim como para outras pessoas, é o carimbo mais querido no passaporte das férias.

Essa ponte representa um desejo que nasceu em janeiro de 2012 quando do nosso primeiro encontro nessa vida com Florianópolis. Quase oito anos depois, lá estávamos nós e umas 50 mil pessoas festejando a reinauguração do ícone.

A volta da ponte é uma significativa comemoração a esse primeiro ano de nossa corajosa resolução de termos saído do cômodo para o desconhecido.

Nós na Ponte Hercílio Luz

A ponte é do povo

População compareceu à reinauguração da ponte

Dia 30 de dezembro de 2019 entrou para a história de Florianópolis como o dia em que a Ponte Hercílio Luz voltou a ter vida após 28 anos de convulsões involuntárias. Descaso, corrupção, má vontade e outros males consumiram quase três décadas do maior ícone catarinense.

Ontem o esforço de alguns homens e mulheres somado ao incentivo e ao desejo de milhares de pessoas foi compensado pelo sentimento de pertencimento. A ponte é novamente do povo. Ela é dos catarinenses, dos brasileiros e de todo o mundo.  Pertence a todos que respeitam e honram a memória, a história.

Foram R$ 1 bilhão escoados de alguma forma sendo a ponte o motivo, mas não a destinatária. A culpa não é dela, não é da cidade. É de quem não respeitou o dinheiro público. Que os culpados pelos golpes ao erário sejam punidos e que nós, cidadãos, aprendamos a nos mobilizar de verdade, na vida real, para que casos absurdos como esse não tornem a acontecer.

A majestosa Ponte Hercílio Luz

Viva a ponte!

Para quê relacionar males?

Vi há alguns dias vários tweets em que a pessoa cita o nome, a idade e lista os problemas de saúde. Não sei o que motivou a corrente de patologias pessoais.

Alguns tweets me deram a sensação de que o paciente tem até gosto em falar que tem uma doença pouco conhecida – pelo nome. Utilizam a nomenclatura médica para problemas comuns (que são ruins, mas comuns), como a bendita cólica menstrual e seus acessórios.

Essas publicações me fizeram lembrar como eram as conversas entre uma vizinha e a minha mãe. Dona Helena sempre tinha um rosário de lamentações após o convencional “tudo bem?”. E então começava a disputa de quem estava com o problema mais grave e de nome mais difícil. Já repararam que elas (as pessoas adoecidas) falam fluentemente o doentês?

As doenças estão aí, são bem democráticas. Eu tenho algumas mas não são de estimação.  Meses atrás fui à minha primeira consulta médica em São José. Ao final da conversa, precisei voltar e sentar novamente para contar ao médico um problema relativamente sério (e comum) que eu tenho – e não é o esquecimento.

Foi um problema de saúde que me fez reavaliar hábitos e atitudes. Não quero focar meus pensamentos em dores e suspeitas. Sou grata pelo despertar trazido por aqueles dias difíceis. E para por aí. Não vou ficar relacionando males, se posso contabilizar o que tem de bom na vida.

Sem remorso e adiante

Na estrada da vida não devemos perder tempo na rotatória do remorso e nem nas encruzilhadas da mágoa.

O tempo perdido em remordimentos nos aprisiona no passado e o caminho para o futuro não tem retorno. É sempre adiante. O trajeto é construído durante a caminhada e os atalhos são armadilhas. Se caiu nelas, reveja o mapa e siga em frente.

Quanto antes nos livrarmos do remorso, da culpa e da mágoa mais leves ficaremos para a jornada.

Se errou, se desculpe. Se foi magoado, perdoe.

Compaixão salva vidas

Há alguns dias voltando para casa vimos de longe uma mulher andando apressada e aparentemente desnorteada.  Ao nos aproximarmos percebemos que ela chorava e apertava as mãos. Não deu tempo de pensar duas vezes, desci do carro e corri ao encontro dela. A passageira de um outro carro fez o mesmo.

Nos aproximamos da mulher oferecendo auxílio. Ela nos empurrou, disse que não aceitaria ajuda porque não nos conhecia. Insistimos e então ela começou a gritar. Instintivamente a abraçamos. Repetíamos sem parar que estávamos ali para ajudá-la, que ela não estava sozinha. A mulher desmaiou em nossos braços.

A moça que estava comigo sentou no asfalto das 13h e ajeitou a cabeça da desconhecida no colo. Eu massageava as mãos daquela mulher que sofria. Impossível não pensar no que teria acontecido.

Violência doméstica, desespero diante de uma doença, desesperança? O que interessava para quem parou e se dispôs a ajudar uma estranha foi pensar no outro, ter compaixão pelo sofrimento alheio.

Pensei no quanto essa mulher teve sorte de ter sido atendida por pessoas que se importaram com seu bem-estar. Quase uma hora depois a ambulância chegou e a levou para atendimento médico.

Torço para que ela esteja bem, que tenha resolvido os problemas que a angustiavam e que agora acredite que não está só.

Para todos nós eu desejo que tenhamos compaixão pelo outro e que na nossa caminhada possamos encontrar pessoas que nos auxiliem pelo simples motivo de se importarem.