Aquele junho de 98

Junho era época de friagem em Porto Velho. Dias frios, dois ou três. Frio do Norte, uns 14ºC, portanto, muito frio para quem vive mais de 360 dias por ano com a brisa de 30ºC. Passava do meio-dia. Fui chamada ao portão de casa. Uma moça com quem pouco havia conversado veio trazer a notícia que mudou todo o roteiro que eu traçava para a minha vida.

– Marcela, lembra da criança que comentei contigo no começo do ano? À minha confirmação, continuou: “É um menino, ele nasceu ainda há pouco. Você vai querer?”

Pausa. Nos segundos que se passaram entre eu processar o que ouvia e responder, pensei, desesperada: “Querer? Querer um filho eu sempre quis, mas, assim, repentinamente? Já nem pensava mais nessa criança, pois me disseram para deixar para ‘depois’. E agora, meu Deus?”

– Fulana, e a mãe dele? Ela realmente não o quer? Tem certeza? Posso conversar com ela?

– Não, ela não o quer e também não quer falar com ninguém. Não aceitou nem mesmo dar o peito para ele, coitadinho.

– Ele então nem recebeu o colostro? Coitado, está com fome e hoje a noite vai ser fria. Quando posso pegá-lo?

– Amanhã de manhã eles terão alta e eu trarei o neném para você.

O que se instalou na casa de minha mãe naquele 15 de junho foi um misto de incredulidade pelo que estava acontecendo, ansiedade para ver realizado, medo do que poderia desenrolar nesse ato aparentemente impensado.

Compraríamos berço, acessórios, roupinhas, leite? Como faríamos? Chegamos à conclusão que era melhor não. A mãe do neném poderia mudar de ideia, o que seria bom para ela e o filhinho recém-nascido. Então aguardamos o dia seguinte. Passei a  noite em claro, entre pensamentos de “O que eu fiz?” e “Como será o neném? Vou saber ser mãe?”

A terça-feira amanheceu com todos os encantos de um dia de junho. Céu imensamente azul e sem nuvens, brisa cariciosa e clima de gratidão no ar. Mas as horas se arrastaram até às 11h, quando uma mulher desconhecida desceu do carro com um bebê nos braços. Veio até mim e me entregou a criancinha e eu recebi o sorriso inesquecível. Um neném branco, tão branco que nem tinha sobrancelhas, o cabelinho muito ralo, o corpinho enrugado e no rosto aquele sorriso que marcou nosso reencontro.

– “Ele está sorrindo pra ti, Marcela”, disse, quase gritando, uma irmã minha. Sim, ele estava. Eu sorria e tremia.

A mulher entregou uma sacola com umas três roupinhas e um lençol, falou um pouco sobre a mãe do neném, despediu-se e foi embora, e eu nunca mais a vi.

Correria geral. Irmãs havia para ajudar. Uma foi ao supermercado comprar leite, outra trazer roupinhas, mais tarde buscar o berço emprestado por uma amiga. E assim, ele chegou. Eu não tive o preparo dos meses que antecedem o nascimento de um filho, mas certamente apenas a logística teria sido diferente, pois já estaria tudo pronto aguardando o bebê.

O primeiro banho quem deu foi a avó e os seguintes as tias, até o dia em que eu senti segurança para apoiar o neném com uma mão e com a outra banhá-lo. Ainda consigo sentir a água morna e perfumada na minha mão tocando a pele delicada daquele serzinho. Fraldas, mamadeiras, vacinas, roupinhas, remédios, noites em claro, choros – dele e meu, insegurança – dele e minha. O que há de diferente entre uma mãe que pariu e a que adotou?

O Universo não existe para nos agradar, realizar nossos desejos, criar roteiros de novela para que vivamos neles. Mas é significativo demais ter recebido meu único filho em junho, que desde então ganhou ainda mais importância para mim.

Ele, o João Pedro

Porque eu amo junho

O céu azul com poucas nuvens e a lua aparente, o ar mais leve. À noite, as estrelas brincam para ver quem é a mais brilhante. Daqui, sinto o coração acariciado por sentimento de alegria e gratidão. Junho é assim para mim desde sempre.

No início havia mais: brincar perto da fogueira, fazer promessas de amizades, dançar quadrilha, comer paçoca e bolo de milho, ah, claro! e muita pipoca. Depois as visitas aos arraiais, o passeio pela cidade para ver as fogueiras de São João. Mais recentemente, organizávamos uma festa em casa, em Porto Velho, onde tínhamos delícias da culinária junina e o melhor que há na vida: amigos. O Arraiá Duzamigo era, principalmente, a minha expressão sobre junho.

Neste ano, o sentimento íntimo não é diferente, o que muda é o ambiente em comum. Não há os festejos como eu conheço, a tradição de arraiais e quadrilhas não faz parte da cultura de São José e Florianópolis. Após muita pesquisa, nada consegui saber sobre eventos juninos. Mas, por acaso, ouvi um carro de som anunciando um arraial. E lá fomos nós. Desnecessário dizer o quanto estava ansiosa para conhecer o hábito festivo do Sul.

Um dos muitos arraiais

A primeira diferença é o horário: aqui as festas começam à tarde para acabar à noitinha. Pelo menos nesse arraial de uma creche comunitária não havia mingau de milho, curau ou arroz doce. O bolo de milho devia ser fantasia. E mesmo assim eu adorei! Tinha pinhão e amendoim na casca, cachorro-quente e paçoca. Que maravilha! Toda a festa tinha como objetivo um bingo de mil reais. Toda comunidade ansiosa para levar a dinheirama para casa. Enquanto não começava a disputa pelas notas, fizeram rifas de bolos, doces e bebidas.

No próximo junho, a festa será em nossa casa. Um arraial com sabores do Sul temperados com recordações do Norte. Anarriê!

Significado e significante

Na mesa do almoço uma aula rápida de significado e significante. Falávamos sobre influência de terceiros em temas gerais, para dar um ajuda, por exemplo, em algum processo.

– O famoso pistolão, comentei.

Não entenderam. Então perguntei o que significava ‘pistolão’ para cada uma das três pessoas.

– Pênis, disse um.

– Uma arma grande, respondeu o segundo.

– Alguém com muita raiva, pistolão da vida, explicou o terceiro.

Como é rica a Língua. Uma palavra e quatro entendimentos. Por isso é tão importante sermos claros em nossas mensagens. Algumas não serão compreendidas porque o receptor/destinatário não tem condições contextuais para tal; ou pode acontecer, como no caso do ‘pistolão’, de os ouvintes desconhecerem o sinônimo dado por mim à palavra naquela frase.

Comunicar é muito mais do que juntar palavras e soltar por aí.

Para não esquecer

Petit Gateau iria hoje ao petshop para um dia de beleza e saúde. Tosar a cabeleireira, tomar vacinas, ficar saudável e lindo. Nas duas últimas semanas ele tem sido um menino teimoso, recusa a presença de humanos e foge como se estivesse diante do próprio coisa ruim. E talvez estivesse mesmo. A espécie que é a racional da Criação e que descarta um ser vivo indefeso como se lixo fosse realmente não merece consideração.

Como o peludinho saberia que eu queria apenas salvá-lo das intempéries da vida? Que se aceitasse meu convite estaria em uma casa junto com dois outros iguais, Argus e Azula? Dia após dia eu tentava conquistá-lo mas ele não me dava ouvidos. Corria feito o Papa-Léguas do Coiote.  Finalmente tive a ideia para o plano infalível de resgate. Adicionaria gotas de calmante, aquelas que dei aos cães durante a mudança, na água e ração. O cãozinho dormiria e então eu o levaria para sua nova casa.

Não houve tempo. O atropelamento tirou do bichinho a chance de uma vida feliz. Petit Gateau partiu sem nem mesmo ouvir seu novo nome. Não pode ouvir a minha promessa de que teria uma vida segura, como seus novos irmãos Argus e Azula e de que nunca mais seria abandonado à infeliz sorte.

Numa manhã ensolarada de outono eu senti a dor da impotência diante do destino. Eu tentei mudá-lo, mas fracassei.

Capim e poesia na estrada

Um passeio pode nos fazer relembrar poesia e perceber que há beleza em nossa volta. Mas é preciso estar de alma leve. Foi assim que percebi os capins do caminho para a serra, em São Joaquim (SC). Havia uma variedade deles, brancos, dourados, roxos. Junto a eles, muitas florzinhas com diversidade de cores. Colhi alguns, plantei os enraizados e com os demais fiz um arranjo.

Durante esse processo, um poema não me saía do pensamento, “Capim”, do Djavan.

“Capim do Vale, vara de goiabeira na beira do rio
paro para me benzer
Mãe d’Água sai um pouquinho desse seu leito ninho
que eu tenho um carinho para lhe fazer
Pinheiros do Paraná
Que bom tê-los como areia no mar
Mangas do Pará, pitombeiras da Borborema
A Ema gemeu no tronco do Juremá
Cacique perdeu mas lutou que eu vi
Jari não é Deus mas acham que sim
Que fim levou o amor
Plantei um pé de fuló deu capim…”

Capins e macelas colhidos na estrada

Eu quero a leveza do capim e da poesia nos meus dias. Todos os dias. 

Mudei de estado e de vocabulário

Pernilongo, muriçoca, carapanã, mosquito. Como você chama esse bichinho azucrinante? Antes que você responda: “eu não chamo, ele vem sozinho”, vou tentar “adivinhar”. Se você mora no sul, sudeste e centro-oeste do país, possivelmente, esse insetinho seja o pernilongo. Caso more no nordeste, o dito cujo é batizado de muriçoca. No entanto, quem mora na região Amazônica, no norte do Brasil, o bicho é chamado de carapanã.

Ontem percebi que tenho chamado de mosquito a todas essas pestinhas minúsculas. Meses atrás eles eram carapanãs. Parei para refletir sobre essa mudança e acho que alterei o sinônimo irrefletidamente para me adequar à região onde hoje eu moro, na Grande Florianópolis.

Assim como precisei renovar o guarda-roupas com peças invernais, adotei palavras conhecidas mas que não eram utilizadas por mim, como aipim, chuleta, mexerica – para ficar só na feira. Eu não vou me aferrar a um vocabulário que não colabora com minhas atividades cotidianas. Portanto, dicionário portovelhês, ou nortista, só quando estiver conversando com falantes – ou entendidos – dessa variação de falares brasileiro. Ou seja, em casa.

A língua não é produto pronto e acabado e, por isso, se renova o tempo todo e quem faz isso somos nós, os falantes. Como a posição social ou a raça, a língua também separa. Ou melhor, os falantes a usam como régua para medir o que importa dentro de suas suposições preconceituosas. Ninguém é mais ou menos por falar macaxeira ou mandioca; nóis vai ou nóis veio; vendimo ou vendemos. Mas isso é assunto para outra conversa, visse nêgo?

Na feira, deixei escapar: “Nossa! que maracujá maceta*!”

*maceta= muito grande, em portovelhês.

Currículo fake

Na entrevista de emprego:

– Como foi sua experiência na CNN?, questiona o executivo da vaga.

– Onde? Não entendi a pergunta.

– Na CNN onde você foi repórter. Está aqui no seu currículo.

– Ah, a CNN! Pois é, eu não fui selecionada.

– Mas está aqui no seu currículo!, rebate, quase gritando o meu ex-quase- futuro-chefe.

– Eu coloquei porque tinha a intenção de trabalhar lá…

E assim termina a história: eu sem emprego e queimada no mercado de trabalho.

Mas para o governador do Rio de Janeiro a história não acaba agora.  Wilson Witzel incluiu Harvard no Currículo Lattes sem nunca ter estudado na instituição norte-americana. Depois do descuido ter sido descoberto e publicado, o governador, claro, disse que a notícia é mentirosa e pôs, adivinha?, culpa na imprensa.

Witzel continuará governador e logo a história sobre essa fraude será esquecida e substituída por outra até o final do mandato.

E eu continuarei sem a CNN no currículo e com a consciência tranquila.

Adoção na passarela e onde for possível

Ao ler no Twitter que crianças participaram de um desfile para serem vistas por prováveis (e esperados) adotantes senti repulsa imediata ao evento realizado em Cuiabá. Expor quem está à espera de um família em um show num shopping não me pareceu muito adequado e até mesmo desumano com os pequenos.

Mas será? Então fui ler a reportagem. Meninos e meninas entre 4 e 17 anos desfilaram sorrisos e olhos brilhantes na esperança de que pousassem em um pai ou mãe que se encantasse. E há quanto tempo aguardam por isso? Essa foi a chance que eles tiveram de serem vistos por famílias do cadastro de adoção e pelas que passeavam no shopping alheias que há abrigos (casas, orfanatos) com crianças e adolescentes sem ninguém por eles, além de funcionários dedicados.

“Ah, mas isso é como se exibiam escravos”, disse um, “Criança não é mercadoria”, comentou outro.  Criticar o evento é fácil. Difícil é levantar a voz a favor da adoção. O desfile foi uma forma de expor que há crianças sob a tutela do Estado, adolescentes que em breve completarão 18 anos e terão que deixar o abrigo. Isso sim é cruel.

A adoção ainda é tabu no Brasil e, mesmo com todas as mudanças ocorridas na sociedade nas últimas décadas, ainda há quem deseje adotar uma criança dentro de critérios conservadores: bebê de até dois anos, pele alva, cabelos lisos, dentes tipo colgate e que não tenha irmãos.

Se cada um que reclamou e subiu hastag contra o evento agisse na divulgação de informações sobre a adoção, quem sabe, teria mais utilidade do que atrapalhar quem está fazendo alguma coisa de verdade.

Três minutos

O tempo,  já sabemos, é relativo. Por causa de três minutos eu fui descartada. Três minutos. Eu não estava em frente ao notebook para responder imediatamente a uma mensagem, havia ido ao portão atender alguém que chamava. Quando voltei à mesa, vi a mensagem e respondi. Silêncio. Momentos depois insisti e nada.

Ilustração: Revista Super Interessante

Soube, dias depois, que “demorei demais a responder”. Não se tratava de teste ou entrevista, era o primeiro contato após a pessoa ter recebido meu currículo. Eu, que geralmente respondo e-mail e whatsapp rapidamente, fui considerada lerda e, por isso, ignorada.

Quanto tempo temos?

A minha frase de mãe

“Me chamou, mãe?”, pergunta João Pedro após meia hora do meu chamado. “Você está com delay? Se fosse vida ou morte, eu já estaria morta”. A resposta foi automática. Eu que sempre critiquei (em pensamento) os exageros da minha mãe estava ali reproduzindo uma versão do clássico “quando eu morrer vocês vão chorar”.

Deve haver algum dispositivo no corpo feminino que é ativado após o nascimento do primeiro filho e logo que a criança cresce são disparadas as primeiras frases maternais, como “fecha a boca e come tudo que está no prato”. Um grande mistério. Como comer se a boca deveria estar fechada? Ouvi muito isso durante minha infância. Ah, quem me dera ter mantido meu desinteresse por comida. Poxa, mãe!

Ontem, dia das mães, tentei lembrar quais frases “de mãe” eu repito para o meu filho. Não lembrei de nada, então perguntei a ele e a resposta aqueceu o meu coração: “‘Sabe que eu te amo?’, é o que a senhora mais fala [para mim]”. Eu que pensava que ele não prestava atenção, nem mesmo ouvia.

Vou continuar falando que o amo e demonstrando com atitudes. Afinal, ele “não é todo mundo”.