Estresse pós-eleições – vai passar!

A sensação que tive foi de que o luto acumulado desde 2020 se abateu sobre mim no domingo, dia 2 de outubro. A tristeza, o desalento, a impotência e a revolta voltaram com tudo e meu corpo e minha mente não suportaram. Com muito esforço tentei me concentrar no trabalho, mas a vontade era de largar tudo e sair correndo. Cheguei em casa pouco antes das 4h de segunda-feira, fui para a cama e de lá só saí para voltar ao jornal, no fim da tarde.

Todo o meu corpo doía, minha cabeça rodava, meu coração saltitava e uma pergunta não me abandonava: como uma pessoa que desdenhou da morte de milhares de compatriotas e fez pouco caso da dor de famílias inteiras pôde ser avalizado nas urnas? Não foi por um pequeno grupo de eleitores, mas por 51.072.345. É muita gente deixando para trás a tragédia de quase 690 mil mortos pela covid-19 no país.

É claro que eu sabia que ele teria os votos das pessoas que o apoiam na condução do país – mesmo que desastrosa, pois acreditam ser o melhor. Essa avaliação está incorreta e pode ser contestada em fatos, no entanto, a maioria dos apoiadores de Bolsonaro não se interessa pela realidade. Para eles, a convicção pessoal – e de grupo – está acima de tudo, independentemente do que digam analistas, cientistas e pessoas muito mais capazes de compreender a situação do Brasil.

Somente agora, uma semana após o ocorrido, consigo falar sobre o transtorno do estresse pós-eleitoral por qual passei. Eu nem sabia que isso existia. Foi o Zé Carlos que enviou para mim uma reportagem que trata do assunto. Tensão física dos ombros, problemas gastrointestinais, medo, ansiedade, insônia e obsessão com atualizações e notícias foram alguns sintomas que tive. A tristeza e a sensação de perda foram os que mais me abalaram.

Assim como eu, ninguém sabe o que nos aguarda no final da apuração dos votos no dia 30 de outubro. É possível que nos afundemos de vez numa era de atrasos – iniciada em 2018 -, de ignorância, violência e desrespeito com a Constituição Federal. Isso é possível.

Porém também é provável que as urnas entreguem um resultado menos assustador, que mostre que a maioria de nós, eleitores brasileiros, dizemos não à barbárie. Que reafirmem que queremos a manutenção de nossa Democracia conquistada há tão pouco tempo e com o esforço de tantos. Que digam que não compactuamos com a depredação da educação, da ciência e da saúde. Que fé e costumes são assuntos particulares e não de governo. Que digam com todas as letras: Ditadura nunca mais!

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