Passei vergonha à toa

Quem é que não tem uma vergonha de estimação que sua mãe ou pai fez passar quando criança ou adolescente? Eu mesma tenho várias. Mas vou falar apenas de uma dessa coleção. Minha mãe gosta muito de plantas. Sabe muito? A casa dela não tem um jardim, mas uma floresta com espécies variadas. O local funciona também como um hospital, plantinhas dadas como mortas renascem para dar alegria a quem aprecia a vida vegetal.

Essa paixão da minha mãe era o que provocava a atitude que me matava de vergonha. Se ela se engraçasse com uma planta no canteiro de uma casa, era certo que iria pedir “uma mudinha”. Tocava a campainha da casa ou batia palmas e mandava o pedido. E eu fazia cara de paisagem sem folhagens.

Por qual motivo eu não gostava de participar desse momento pedinte? Afinal, ela pedia, não afanava. Pedia somente exemplares de plantinhas que estavam em grande número, sem prejuízo ao conjunto e ao jardineiro.

Quantas mudinhas doadas têm naquele imenso jardim eu não sei. Também desconheço quantos jardins estão mais bonitos com as plantas gentilmente dadas por ela a quem pediu.

Eu sei que, por enquanto, tenho sete plantas trazidas da rua por mim, sendo que três eu pedi, as demais eram nativas de trilhas e estradas. Há também os capins e a macela trazidos da serra.

Entre a “coleção rua”, há um exemplar que trouxe de uma caminhada perto de casa. Coloquei no quintal num vaso improvisado e por meses não se desenvolveu. Então transferi a planta para o chão. Em poucas semanas sua folhagem estava brilhosa e a vida seguiu. Hoje ela floresceu e pelo aplicativo [Lens, do Google] soube seu nome: Canna indica.

Agora sei que passei vergonha à toa.

Canna indica – da rua para o quintal de casa

 

Doce de importância

Na mala eu trouxe farinha de tapioca, única lembrança física que poderia resistir aos dias de mudança de cidade, aqueles mais de 3.400 quilômetros.  Numa tarde na casa nova, enchi uma xícara de café, coloquei um pouquinho de leite e um tanto de tapioca e saboreei como se esses grãos tão simples fossem o que há de melhor para se comer.

Num domingo comprei banana da terra e separei duas para fazer o inigualável mingau de banana com tapioca, mas acabei fritando todas as bananas. Com isso parece que ficou claro que o mingau não é tão inigualável como eu supunha.

Mas ontem a tapioca ganhou o destaque que merece. Usei boa parte dela para fazer uma sobremesa para amigos que vieram nos visitar. Eles moraram durante seis anos em Porto Velho, gostam do que o Norte oferece e a tapioca aflorou as boas lembranças à mesa, como o tambaqui assado.

 

Bolo gelado de tapioca temperado com significados

 

As coisas simples do dia a dia tornam a vida especial. Uma simples farinha é capaz de fazer você refletir sobre o que realmente importa.  Valorizar o que  somos hoje é dar importância a nós mesmos. Somente nós sabemos de nossas conquistas , as batalhas que vencemos contra nós mesmos, as guerras que ainda temos que enfrentar para nos tornarmos pessoas melhores. Para tudo isso a simplicidade está a nosso favor. Enquanto refletia sobre os passos que devo dar,  preparei o bolo de tapioca, acho que o melhor de todos os tempos.

Amores de outubro

Porto Velho, onde nasci e vivo desde sempre, completa nesse 2 de outubro 104 anos de criação. Há 11 anos eu produzi e escrevi um especial para o jornal Diário da Amazônia sobre essa efeméride. Na época era repórter e pedi ao meu editor que me autorizasse a fazer o suplemento comemorativo. A pauta: queria falar sobre o que é ser porto-velhense, fazer com que o leitor se identificasse. Não contar apenas a história da cidade, mas das pessoas – os hábitos, as tradições, o seu jeito de falar.

Dias após a publicação, ao chegar à redação e abrir o ‘MSN’ (sim, isso foi há mais de 10 anos!) uma mensagem de um amigo:” Você está com tudo hein? “. Não entendi, e precisei esperar muito tempo para que ele respondesse o meu “Por quê? O que houve?” Horas depois recebi o link da coluna Banzeiros. Era a resposta. O colunista político José Carlos Sá havia comentado o “meu” caderninho sobre Porto Velho (!!!). Eu fiquei eufórica, como se tivesse sido citada na revista Imprensa.

Acompanhava a coluna do JCSá, gostava do que ele escrevia, de suas observações, seu humor e ironia. Mas não o conhecia e ele estava elogiando meu trabalho. Enviei um e-mail em agradecimento à gentileza. Ele respondeu dizendo que acompanhava o meu trabalho há algum tempo. Mais e-mails.

Quase um mês depois nos encontramos pessoalmente. Seis meses depois ficamos noivos.  Mês passado fizemos 10 anos de casados.

Tudo começou porque escrevi sobre Porto Velho. Escrevi com minha alma porto-velhense, com meu sotaque cantado, com meu vocabulário meio nordestino com sabor de açaí.

O de 2 outubro desde aquele 2007 passou a ter mais significado para mim. A cidade que eu nasci se juntou à minha paixão por escrever e trouxeram para mim o amor da minha vida.

Nosso passeio por Porto Velho, no dia dos 104 anos de criação

Minha primeira e difícil mudança

Eu nasci e vivi até os 13 anos na rua José Bonifácio, bairro Pedrinhas, em Porto Velho. No centro do mundo, do meu mundo. No dia que papai colocou a casa à venda minhas irmãs e eu ficamos bem descontentes. Mas ninguém ficou mais desesperada do que eu.

No dia da mudança, lembro-me bem, me agarrei ao telefone e não queria largar, falando com uma grande amiga – da qual não tenho notícias há uns 30 anos, pelo menos -, seria o fim da minha vida viver longe dela, oh Deus! Eu chorava, esperneava em cima do caminhão da mudança. Que cena!

Mudamos para o fim do mundo, a rua Tancredo Neves, no recém-nascido Jardim Eldorado. “Socorro, cadê o jardim daqui? Só tem poeira, nesse lugar horroroso!”. O Pedrinhas era o bairro mais lindo do mundo para mim, só perdia para o bairro da minha avó em Campo Grande/MS. Era só o que eu conhecia.

Durante não sei quanto tempo, minhas irmãs e eu íamos passar os domingos no lindo Pedrinhas. Não lembro como essa rotina de matar a saudade cessou.

Quero viver livre de preconceitos

Talvez tenha sido quando resolvemos viver a realidade e aproveitar a companhia dos novos amigos da vizinhança. Nos adaptar a um bairro totalmente diferente do nosso querido Pedrinhas. Era tudo diferente. As ruas, as casas, os comércios, as pessoas.

A diferença entre as ruas José Bonifácio e Tancredo Neves continua até hoje. A rua do Pedrinhas, lá onde nasci, continua na mesma. A do Eldorado é uma grande via de acesso aos demais bairros que surgiram logo depois. Não lembra nada daquela rua de faroeste.

Em mim também ocorreram mudanças. Hoje resta muito pouco daquela menina cheia de medos e preconceitos e eu tenho apenas a agradecer.

O cheiro da toalha azul

Alguns sabores e cheiros trazem lembranças para você? Sim, né? Acho que todo mundo tem esse baú de recordação. Cheiro de pão com manteiga molhado no nescau me remete à lancheira do pré-escolar. Nossa! O cheiro é muito específico. Ficava impregnado na toalha que eu usava para cobrir a mesa e então merendar no Jardim de Infância Branca de Neve – que está de pé até hoje recebendo “o futuro do Brasil”.

Eu ainda guardo a toalhinha azul do pré. Ela passou anos na casa da minha avó, em Campo Grande. Um dia voltou para mim e comigo está até hoje. Tem o meu nome bordado e tudo.

É a prova ao apego que tenho à infância tão distante e inesquecível.