Nas últimas três semanas, tenho sonhado com o meu pai em situações cotidianas, aquelas que não damos importância.
Hoje entrei numa conversa sobre suculentas no grupo de whatsapp dos meus irmãos e disse:
– Por falar nisso, eu fiz hoje um brigadeiro com chocolate a 80%!
E depois completei: sonhei com o papai.
Isso é a cara do meu pai. Geralmente acontecia assim, estávamos na varanda de casa falando sobre o passeio no sítio. Uma irmã levantava e ele dizia:
– Por falar nisso, fulana, traz um copo com água para mim?
– Mas pai, eu não disse nada! – era a reação mais comum.
Podia acontecer também de alguém falar sobre o rio Caracol e ele aproveitar a deixa:
– Por falar em rio, pega o alicate de unha pra mim?
Outra fala ícone é o “aproveita o embalo”. Uma irmã perguntava:
– Pai, cadê fulana?
E ele respondia:
– Está lá atrás no quintal. Vai lá chamar ela? Então aproveita o embalo e lava as vasilhas da pia.
Era assim. E havia as piadas sem graça. Piadas que até podiam ser engraçadas e ele não sabia contar. Mas sabia rir.
Uma das lembranças mais vivas do riso do meu pai é de um domingo à tarde quando assistíamos ao filme ‘O auto da Compadecida’. Ele riu de chorar. E agora eu choro de saudade.
