Passei vergonha à toa

Quem é que não tem uma vergonha de estimação que sua mãe ou pai fez passar quando criança ou adolescente? Eu mesma tenho várias. Mas vou falar apenas de uma dessa coleção. Minha mãe gosta muito de plantas. Sabe muito? A casa dela não tem um jardim, mas uma floresta com espécies variadas. O local funciona também como um hospital, plantinhas dadas como mortas renascem para dar alegria a quem aprecia a vida vegetal.

Essa paixão da minha mãe era o que provocava a atitude que me matava de vergonha. Se ela se engraçasse com uma planta no canteiro de uma casa, era certo que iria pedir “uma mudinha”. Tocava a campainha da casa ou batia palmas e mandava o pedido. E eu fazia cara de paisagem sem folhagens.

Por qual motivo eu não gostava de participar desse momento pedinte? Afinal, ela pedia, não afanava. Pedia somente exemplares de plantinhas que estavam em grande número, sem prejuízo ao conjunto e ao jardineiro.

Quantas mudinhas doadas têm naquele imenso jardim eu não sei. Também desconheço quantos jardins estão mais bonitos com as plantas gentilmente dadas por ela a quem pediu.

Eu sei que, por enquanto, tenho sete plantas trazidas da rua por mim, sendo que três eu pedi, as demais eram nativas de trilhas e estradas. Há também os capins e a macela trazidos da serra.

Entre a “coleção rua”, há um exemplar que trouxe de uma caminhada perto de casa. Coloquei no quintal num vaso improvisado e por meses não se desenvolveu. Então transferi a planta para o chão. Em poucas semanas sua folhagem estava brilhosa e a vida seguiu. Hoje ela floresceu e pelo aplicativo [Lens, do Google] soube seu nome: Canna indica.

Agora sei que passei vergonha à toa.

Canna indica – da rua para o quintal de casa

 

Aquele junho de 98

Junho era época de friagem em Porto Velho. Dias frios, dois ou três. Frio do Norte, uns 14ºC, portanto, muito frio para quem vive mais de 360 dias por ano com a brisa de 30ºC. Passava do meio-dia. Fui chamada ao portão de casa. Uma moça com quem pouco havia conversado veio trazer a notícia que mudou todo o roteiro que eu traçava para a minha vida.

– Marcela, lembra da criança que comentei contigo no começo do ano? À minha confirmação, continuou: “É um menino, ele nasceu ainda há pouco. Você vai querer?”

Pausa. Nos segundos que se passaram entre eu processar o que ouvia e responder, pensei, desesperada: “Querer? Querer um filho eu sempre quis, mas, assim, repentinamente? Já nem pensava mais nessa criança, pois me disseram para deixar para ‘depois’. E agora, meu Deus?”

– Fulana, e a mãe dele? Ela realmente não o quer? Tem certeza? Posso conversar com ela?

– Não, ela não o quer e também não quer falar com ninguém. Não aceitou nem mesmo dar o peito para ele, coitadinho.

– Ele então nem recebeu o colostro? Coitado, está com fome e hoje a noite vai ser fria. Quando posso pegá-lo?

– Amanhã de manhã eles terão alta e eu trarei o neném para você.

O que se instalou na casa de minha mãe naquele 15 de junho foi um misto de incredulidade pelo que estava acontecendo, ansiedade para ver realizado, medo do que poderia desenrolar nesse ato aparentemente impensado.

Compraríamos berço, acessórios, roupinhas, leite? Como faríamos? Chegamos à conclusão que era melhor não. A mãe do neném poderia mudar de ideia, o que seria bom para ela e o filhinho recém-nascido. Então aguardamos o dia seguinte. Passei a  noite em claro, entre pensamentos de “O que eu fiz?” e “Como será o neném? Vou saber ser mãe?”

A terça-feira amanheceu com todos os encantos de um dia de junho. Céu imensamente azul e sem nuvens, brisa cariciosa e clima de gratidão no ar. Mas as horas se arrastaram até às 11h, quando uma mulher desconhecida desceu do carro com um bebê nos braços. Veio até mim e me entregou a criancinha e eu recebi o sorriso inesquecível. Um neném branco, tão branco que nem tinha sobrancelhas, o cabelinho muito ralo, o corpinho enrugado e no rosto aquele sorriso que marcou nosso reencontro.

– “Ele está sorrindo pra ti, Marcela”, disse, quase gritando, uma irmã minha. Sim, ele estava. Eu sorria e tremia.

A mulher entregou uma sacola com umas três roupinhas e um lençol, falou um pouco sobre a mãe do neném, despediu-se e foi embora, e eu nunca mais a vi.

Correria geral. Irmãs havia para ajudar. Uma foi ao supermercado comprar leite, outra trazer roupinhas, mais tarde buscar o berço emprestado por uma amiga. E assim, ele chegou. Eu não tive o preparo dos meses que antecedem o nascimento de um filho, mas certamente apenas a logística teria sido diferente, pois já estaria tudo pronto aguardando o bebê.

O primeiro banho quem deu foi a avó e os seguintes as tias, até o dia em que eu senti segurança para apoiar o neném com uma mão e com a outra banhá-lo. Ainda consigo sentir a água morna e perfumada na minha mão tocando a pele delicada daquele serzinho. Fraldas, mamadeiras, vacinas, roupinhas, remédios, noites em claro, choros – dele e meu, insegurança – dele e minha. O que há de diferente entre uma mãe que pariu e a que adotou?

O Universo não existe para nos agradar, realizar nossos desejos, criar roteiros de novela para que vivamos neles. Mas é significativo demais ter recebido meu único filho em junho, que desde então ganhou ainda mais importância para mim.

Ele, o João Pedro

Porque eu amo junho

O céu azul com poucas nuvens e a lua aparente, o ar mais leve. À noite, as estrelas brincam para ver quem é a mais brilhante. Daqui, sinto o coração acariciado por sentimento de alegria e gratidão. Junho é assim para mim desde sempre.

No início havia mais: brincar perto da fogueira, fazer promessas de amizades, dançar quadrilha, comer paçoca e bolo de milho, ah, claro! e muita pipoca. Depois as visitas aos arraiais, o passeio pela cidade para ver as fogueiras de São João. Mais recentemente, organizávamos uma festa em casa, em Porto Velho, onde tínhamos delícias da culinária junina e o melhor que há na vida: amigos. O Arraiá Duzamigo era, principalmente, a minha expressão sobre junho.

Neste ano, o sentimento íntimo não é diferente, o que muda é o ambiente em comum. Não há os festejos como eu conheço, a tradição de arraiais e quadrilhas não faz parte da cultura de São José e Florianópolis. Após muita pesquisa, nada consegui saber sobre eventos juninos. Mas, por acaso, ouvi um carro de som anunciando um arraial. E lá fomos nós. Desnecessário dizer o quanto estava ansiosa para conhecer o hábito festivo do Sul.

Um dos muitos arraiais

A primeira diferença é o horário: aqui as festas começam à tarde para acabar à noitinha. Pelo menos nesse arraial de uma creche comunitária não havia mingau de milho, curau ou arroz doce. O bolo de milho devia ser fantasia. E mesmo assim eu adorei! Tinha pinhão e amendoim na casca, cachorro-quente e paçoca. Que maravilha! Toda a festa tinha como objetivo um bingo de mil reais. Toda comunidade ansiosa para levar a dinheirama para casa. Enquanto não começava a disputa pelas notas, fizeram rifas de bolos, doces e bebidas.

No próximo junho, a festa será em nossa casa. Um arraial com sabores do Sul temperados com recordações do Norte. Anarriê!

Prestígio?

Um dia na redação do Diário da Amazônia, uma colega atendeu ao telefone. Era uma colunista do interior do estado convidando-a para escrever uns artigos para uma revista. -“Ah, que beleza”, respondeu a minha colega. -“E quanto é o cachê?”, perguntou. -“Você terá o prestígio de ter seu nome na minha revista”, respondeu a colunista.

A repórter desligou o telefone indignada, claro. Nos contou a história, que virou piada “interna” de todos que ali estavam. Hoje “prestígio” é uma expressão conhecida por muitas pessoas que souberam desse fato tão pitoresco.

Lembro-me sempre desse episódio ao ler as inúmeras ofertas de vagas de emprego em que o candidato precisa lavar, passar, cozinhar e construir um foguete em quatro horas pela honra de ter o prestígio de servir a determinada empresa.

Como diz um amigo fotógrafo: -“Meu senhor, prestígio não enche o tanque de gasolina!”.

Falta amor no call center

Você provavelmente já deve ter sido vítima de algum serviço ou atendimento ruim. Precisou resolver algo simples e não conseguiu porque quem poderia ajudar nada fez. Isso sem contar os empecilhos oficiais, como  a detestável burocracia nacional. Para o primeiro caso eu acredito que é a falta de amor.  Pouco vemos dessa forma, mas a gentileza é a manifestação do amor que há em nós. Percebe?

Há muitos anos vivi a experiência mais marcante em atendimento por telefone. Talvez não tenha sido a primeira, mas, certamente, a mais traumática e também a mais positiva. Meu pai faleceu em Barretos, interior de São Paulo, e precisávamos fazer o translado do corpo para Porto Velho, Rondônia. Coube a mim, irmã mais velha, tratar de assunto tão delicado. Liguei para a companhia aérea e expliquei a situação. A atendente criou todas as dificuldades possíveis para disponibilizar o serviço. Lembro-me de ter dito antes de encerrar a conversa: Moça, é meu pai, ele está voltando para casa em um caixão. Desliguei, respirei, orei. Voltei a ligar na certeza de que alguém gentil e mais propenso a ajudar atenderia. E atendeu. Um rapaz, cujo nome infelizmente não lembro, ofereceu todo o serviço que a colega dele disse não estar disponível.

Com isso criei um protocolo para atendimento, virtual ou presencial, quando percebo que a conversa não vai ser positiva, deixo de lado e tento outra pessoa. É do ser humano a instabilidade de humor. Um dia você acorda bem,  noutro nem tanto. Prefiro pensar que todas as pessoas que atendem mal é porque não estão bem e não que são más simplesmente.

A impressão que tenho é que essas pessoas que agem assim simplesmente esquecem quem são. Por algum motivo se desplugam do seu eu humano e não conseguem perceber que, no caso da atendente da companhia área, também é filha, tem pai e mãe que irão morrer um dia. Falta amor e percepção da vida. Hoje sou eu, mas amanhã pode ser você. Como quer ser atendido?

Severino quer mudar

Tenho uma família relativamente grande, se considerar tios e primos com os quais não tenho ou nunca tive contato algum. Mas se contar apenas os próximos é bem pequena, mãe, irmãos e sobrinhos – e agora minha tia, que está bem próxima. Mudei-me para Santa Catarina e ela mora ali, na Ilha, e eu aqui, no Continente. Coisas da vida.

Nessa madrugada sonhei com o pai dela, meu avô, também pai do meu pai. É o único avô que conheci, seo José Severino Duarte. Como dizia papai, “sorte sua não ser ‘Severina'”, ele Alcides Severino da Silva. Severino, vô? Poderia ter batizado papai de Duarte. Já pensei nisso:  Marcela Ximenes Duarte e não ‘da Silva’. Mas, hoje, estou bem com o sobrenome do meu pai – tanto que o mantive ao casar e adotar o Sá do Zé Carlos.

No sonho vovô sorria, do jeito que eu o conheci quando estivemos todos em Campo Grande no início dos anos 80. Não era uma viagem de férias, estávamos lá para consultas médicas, mas era como se fosse, afinal, éramos crianças conhecendo a família do papai.

Meu avô era mineiro, meu pai também. Não sei a história, o porque de a família ter se mudado para Mato Grosso e depois Mato Grosso do Sul. Meu pai serviu ao Exército em Cuiabá. Depois foi para o Amazonas e por fim, Rondônia, onde continuou trabalhando nas Forças Armadas por um tempo até conhecer minha mãe, casarem, ele sofrer um acidente e ser dispensado.

Vovô e papai, no sonho, tratavam de mudança. Queriam ir para outra terra e eu não lembro qual. Pará, Rio Grande do Sul, Ceará? Não importa. Os dois homens planejavam viajar em breve. Desse sonho, ficou na minha lembrança nitidamente a voz do papai e o sorriso do vovô. Sem dúvida, um jeito alegre de começar o dia, a semana, o mês, de recomeçar. Obrigada pela visita, meus queridos.

Três mil 450 km de mudança

Fim da missão. Bagageiro pronto.

Saímos no domingo, dia 30/12, bem cedinho. No sábado, passamos o dia cuidando de colocar tudo no bageiro do carro. Para isso contamos com a família. Cada um foi fundamental para que tudo desse certo. Última noite em Porto Velho passamos na casa da Kárita, João Pedro dormiu na casa do Fábio, Azula e Argus ficaram na agora ex-casa.

Quando voltamos à 4634 para buscar os cães e dar aquela última conferida – se nada estava ficando para trás – passeei pelos cômodos da casa, acariciei suas paredes como havia feito há 10 anos quando tomamos posse de seu espaço. Fui ao jardim e me despedi das plantas que ficaram, agradeci a todas por ter convivido conosco todo esse tempo, aos passarinhos pela companhia diária. Pronto. Acabou ali a história com a casa da rua Bandeirantes.

Embarcados por cinco dias

Todos embarcados e parecia que estávamos indo ali num passeio. Muita expectativa no ar. Como será que reagiríamos ao deixarmos a Terra de Rondon dali a 700 quilômetros? Gratidão foi o que sentimos a passarmos na segunda-feira, após pernoite em Vilhena, na divisa Rondônia/Mato Grosso. Zé Carlos deu umas buzinadas e gritamos: Obrigada, Rondônia! Gratidão por esse estado maravilhoso onde nasci, cresci e vivi por 45 anos.

Nesses 5 dias de viagem, o terceiro pernoite foi em Campo Grande na casa de amigos queridos que acolheram a todos nós com carinho e a quem somos gratos. Maristela, Bibo, Flaviane, Fábio, Fabielli, Dinho, crianças, Roxy – muito obrigada!

Amigos Maristela e Bibo, que nos acolheram em Campo Grande

Passamos por Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná até entrarmos em Santa Catarina. Nesses quase 3,5 mil quilômetros de estrada, de convivência praticamente ininterrupta – só não íamos juntos ao banheiro, a maioria dos dias foi leve e agradável. Houve momentos de tensão, cansaço e mau humor – os cães às vezes se agitavam, o trânsito parava, a chuva não dava trégua.

Tudo superado. Chegamos a Florianópolis, onde ficamos hospedados enquanto resolvíamos a compra da nova morada, numa manhã alegre para todos, principalmente para os cães que puderam correr e brincar como há dias não faziam. Para ficar anotado: chegamos dia 4 de janeiro, aniversário de 37 anos de instalação de Rondônia.

Uma nova etapa estava se concretizando.

Como nasceu a jornalista

Desde criança tenho grande admiração pelos professores, por essa profissão que transforma vidas, que traz luz à ignorância. Minhas irmãs e eu montávamos o cenário de escolinha: papéis, lápis, canetas coloridas e tocos de giz. Lembro-me do dia que nossa mãe puxou uma lona preta no corredor entre o muro e a casa e fez uma sede para nossa escola. Ali foi fermentada a minha vontade por “ensinar”.  Eu sempre gostei muito de ler. Ficava ansiosa todo início de ano para receber os livros didáticos. Era um ritual: colocava um ao lado do outro em cima da cama e, claro, começava pelo livro de Português.

Abria-o, encostava o nariz em suas páginas e sentia o cheirinho de tinta nova como se fosse o perfume secreto de alguma floresta mágica. Virava as páginas e passava a mão, como se o toque fosse antecipar todo o conhecimento que estava ali para ser descoberto durante o semestre. Depois de folhear todo o livro, começa a ler as crônica, poemas, tirinhas – o que tivesse de “historinha”. Ah, preciso dizer que o livro de matemática não ganhava essa atenção, era apenas folheado muito por cima.

Ainda criança gostava de ler também reportagens, histórias reais contadas como se fosse uma vizinha, cheia de detalhes. Revistas sempre me atraíram. Não demorou muito para eu começar a escrever as minhas histórias. Escrevia no caderno procurando imitar a forma da narrativa do repórter. E assim foi crescendo minha vontade por trabalhar em uma revista e contar histórias de pessoas. Aproximar leitores de personagens. Eu já sabia o que queria, muito mais do que ser professora, queria ser jornalista – quem sabe uma escritora? – não, não. Aí já era demais, pensava.

E o tempo voou, tornei-me adulta e logo que pude virei assinante de Círculo de Livro e de revistas semanais. Assistia a todos os telejornais possíveis. Apaixonada por reportagens, colecionava histórias.

Sem acreditar que um dia poderia tornar-me jornalista, nunca me preparei para realizar este desejo. (E fica para eu contar depois essa parte da minha vida).

Um dia assistindo ao telejornal local do SBT, no intervalo um chamado: “se você tem boa redação, gosta de escrever, venha fazer parte da equipe de redatores da TV Allamanda”.  Claro que o anúncio não era exatamente assim, mas a finalidade era a mesma: contratar redatores. Senti um frio na espinha. E minhas irmãs começaram: “Marcela, você não quer ser jornalista? Vai lá, irmã!” E eu fui! Morrendo de medo, de vergonha, mas fui.

Flagrada não sei por quem sentada na mesa da chefa na TV Allamanda

Fiz o teste de vídeo. Péssima. Minha vontade era escrever, não queria estar a frente de câmeras, e sim por trás delas. Na prova de redação eu me soltei, montei uma matéria a partir de uma notícia que tinha lido em uma das revistas que assinava. Como eu imaginava, não fui chamada para trabalhar.

E a vida seguiu por três meses até o dia que recebi uma ligação da pessoa que seria minha primeira e mais importante professora de jornalismo e entraria para a lista de amigas-irmãs queridas. Fui para a entrevista com a jornalista Nara Vargas. Ela me mostrou minha redação, a melhor entre todas da seleção de meses antes. Soube que não fiquei com a vaga porque fui muito mal no teste de vídeo (Oh, quem diria?!), mas estavam precisando de alguém que soubesse escrever bem para fazer o jornal mais importante da emissora.

Meses depois já não era mais redatora, era apresentadora de um programa de notícias populares. Ao vivo! Imagina? Eu ao vivo. Seguiram-se então a bancada do telejornal da TV Meridional, a Band local, e depois, finalmente, consegui o que me interessava: a rua! Fui para a reportagem escrever e contar histórias. Não era revista impressa, mas bem melhor do que ser “âncora”. Para mim, claro. Sei de gente que daria muita coisa para estar numa bancada.

Quatro anos de TV, de escola, de preparo, me levaram para o impresso. Repórter, editora, editora-executiva, editora-chefe, coordenadora de conteúdo… professora de jornalismo!

Noite que me tornei jornalista profissional oficial

Volta lá para meu primeiro sonho profissional de infância. Quando concluí o curso de jornalismo – sim, muito tempo depois de prática, fiz o curso, pois não havia em Porto Velho -, fui convidada para dar aulas. E eu fui fazer o que acredito que seja a principal função de um professor: compartilhar conhecimento, colaborar com o crescimento do outro, formar. Gostei demais da experiência. Acredito ter colaborado com os alunos, hoje colegas de profissão.

Essa linha do tempo sobre minha vida profissional me fez refletir sobre eu nunca ter me preparado, pelo menos conscientemente, para nada disso. Deixei a escola muito cedo (depois eu conto), não pensei que conseguiria cursar uma faculdade (cursei duas), nunca ambicionei nada além de trabalhar “direitinho” e fazer o melhor, independente do local onde estivesse empregada.

Hoje continuo apaixonada pela minha profissão, mas – muito diferente do que pensava – estou aberta a mudanças. Minha crença em fazer o melhor é inabalável e serei  feliz onde quer que eu possa trabalhar.

Infância compartilhada

Se tem alguma criança que não sonhe em ter uma bicicleta, eu desconheço. Quando pequena era tudo o que eu queria, mesmo morrendo de medo de cair. Eu fui uma criança muito medrosa. Tinha medo de absolutamente tudo. Mas sonhava em ter uma bicicleta para andar na rua, no nosso pedaço da rua José Bonifácio.

Quando minha amiga (e vizinha) ganhou uma Monark eu fiquei tão feliz! Primeiro porque ela queria muito, segundo porque ela deixaria eu andar o quanto quisesse e terceiro porque em pouco tempo não serviria mais para ela e seria minha.

E assim foi, a minha amiga tinhas pernas muito compridas e no ano seguinte a bicicleta não servia mais e a ganhei como presente de aniversário. Somos de fevereiro, ela do comecinho e eu do dia 12. Isso me fez lembrar do bolo de frutas que a mãe dela encomendou para o aniversário e que ganhei a metade. Lembro até hoje do sabor, nunca mais comi nada parecido. O ingrediente inesquecível é a amizade infantil.

Há muitos anos não há vejo, mantemos contato graças à internet. A marca daquela amizade ficou como um passeio de bicicleta num dia de chuva.

Além do salão de beleza

Assisti ao ‘Felicidade por um fio’, da Netflix, após indicação da querida Êrica no Blog Ré Menor. Meu objetivo era apenas distração, queria algo leve e só. Mas nos primeiros minutos do filme eu percebi que não seria apenas diversão.

A protagonista – uma publicitária bem sucedida – desde criança tinha como objetivo ser perfeita em tudo. Desde a aparência física até o comportamento na fila do pão. A mãe dela a fez pensar que ser assim a livraria de sofrimentos e a levaria ao sucesso, que nesse caso se traduz em um “bom casamento”. Para garantir isso, a moça estava sempre impecável, inclusive antes de se levantar pela manhã. A principal obsessão dela era o cabelo que, crespo, mantinha sempre lisinho.

Deixar o cabelo extremamente liso roubava horas do dia dela, dias da vida. E ela achava que tinha que ser assim porque a mãe disse que ao contrário não está certo.

Pensei no quanto o que me foi dito na infância e na adolescência me bloqueou. “Seus lábios são enormes. Não use batom”. “E esse nariz? Faça ‘simpatia’ para diminuir”. “Coxas grossas não podem usar short” e uma equivalente: “Quem tem bunda grande não combina saia”. Difícil né? Acho que seria mais fácil ficar dentro da toca e não sair nunca mais.

Sempre gostei de mudar o cabelo, nem sempre pude. Meu pai, nos primeiros anos de pai de meninas – éramos cinco, entendia que devíamos ter cabelos longos. Certo dia, aos 11 anos, arrisquei e passei a tesoura. Queria ficar parecida com a Fernanda Abreu, da Blitz. Não deu certo, o cabelo ficou bem diferente do que eu queria e ganhei um castigo pela ousadia.

Meu primeiro emprego foi aos 16 anos. Fui vestida como adulta, com roupas da minha mãe. Por que como usar jeans e camiseta no escritório? Parece que tinha uma proibição. Pálida sempre fui. Passei um batom “cor de boca” e o resultado foi que continuei pálida. Mas como usar um rosinha que fosse, com essa bocarra? Poderia até perder o emprego.

No filme, uma criança dá o start para a publicitária sair da bolha que a aprisionava. Na minha vida real, foi uma tia três anos mais velha que eu. Do seu jeito ela disse que sim, eu podia usar batom da cor que eu quisesse, que não, minha boca não era feia – e melhor: que muitas mulheres gostariam de ter lábios como os meus. Eu, que usava bandana, tênis trocados e jamais batom, levei um tempo para me sentir confortável com os lábios pintados de rosa.

Muitas mulheres, e homens também, não têm quem os incentive a ser quem querem ser. Que os diga para não temer, para que acreditem em si, em sua liberdade. Em várias etapas da minha vida pessoal e profissional eu tive pessoas que me ajudaram a desatar os nós emaranhados da insegurança e baixa autoestima. Sou muitíssimo grata a todas elas. E todos os dias eu procuro não destruir os sonhos de ninguém, não diminuir seus planos, não relativizar seus problemas e suas dores. Nem sempre consigo, é verdade. Mas tenho tentado, pois sei o quanto pode significar a opinião e o apoio de alguém na jornada da vida. Sejamos pontes e não abismos.