Cidade Invisível e o meu baú de memórias mágicas

Ontem assisti Cidade Invisível, da Netflix, e me lembrei do medo danado que eu tinha do boto me puxar para as profundezas do rio Madeira. Um dia, minhas amigas e eu saímos da Barão do Solimões para irmos ver o pôr-do-sol. No caminho até a Praça do Trem, conversamos sobre o risco que eu poderia correr ao me aproximar da beira do rio. Eu estava menstruada e isso era um grande atrativo para o boto. Ele podia dar um bote e me arrastar para o Madeirão desconhecido. Como boa filha de indígena que sou, respeitei e mantive distância do barranco.

Já repórter, entrevistei algumas filhas de boto, homens que lutaram com a cobra grande outros que correram do Curupira no meio da floresta. Lá pelos idos de 2006, estive na Reserva Extrativista do Lago do Cuniã para fazer uma série de reportagens sobre a superpopulação de jacarés. Conheci a dona Pequenina, anciã da vila, que contou sobre a promessa da cobra grande de secar o lago, caso os ribeirinhos fossem expulsos do local pela ganância dos poderosos. (Link do vídeo)

Minha mãe contava que a Iara a salvou algumas vezes de se afogar no igarapé do seringal onde ela morava no interior do interior de Humaitá, município do Amazonas, vizinho de Porto Velho. Ela se agarrava nos cabelos da Iara para poder sair da água. Entre os guardados da mamãe havia uma foto do barranco do rio Madeira, em Humaitá, que foi derrubado pela cobra grande, que estava chateada com a mortandade de botos. Para alertar os ribeirinhos, a anaconda deu uma rabada no barranco para o povo ficar esperto e respeitar a natureza. Nunca duvidei.

Um dia cheguei da escola e minha mãe estava chorando na cozinha. Ela tinha caderno de desenho e lápis na mão. Tremia muito. Peguei o caderno e lá estava um casal indígena lindamente representado. Mamãe contou que eles estavam dizendo para ela voltar para a floresta.

O único rabisco que mamãe fazia minimamente inteligível era de uma galinha (ou algo parecido). Como ela desenhou aquele casal? O que eles queriam mesmo? Mamãe estava assustada. As paredes da cozinha estavam molhadas porque ela jogou água para afastar os índios. Inexplicável (?).

Fato é que o Cidade Invisível abriu o baú da minha memória de vivências mágicas, para usar um termo equivalente a esses episódios. Na época dos índios desenhados, morávamos no bairro Pedrinhas, onde fui criada e vivi até os 13 anos. Nos mudamos de lá porque disseram que havia indígenas enterrados no nosso terreno e por isso nunca teríamos paz.

Boto, Iara, Saci, Cuca, Curupira, Negrinho do Pastoreio, Uirapuru e todos os personagens do nosso folclore estão entre nós. É só prestar atenção.

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