Dias estranhos

Essa semana está sendo bem estranha. Sem querer, soube que na minha Carteira de Trabalho Digital – da qual desconhecia a existência – estou registrada desde 2013 como ‘operadora de máquina pesada’ no Governo de Rondônia. O período entre 2015 e 2018 como coordenadora de conteúdo não aparece na tal carteira. Ainda não consegui resolver esse mistério.

Enquanto isso, estou há mais de um mês afastada do jornal e o INSS ainda não analisou meu pedido de auxílio-doença. Provavelmente ficarei algum tempo sem o salário referente aos dias parados, literalmente.

Na terça-feira, durante o almoço, o João Pedro perguntou como era Curitiba, se havíamos gostado de lá. Contamos, Zé Carlos e eu, como foi nossa viagem ao Paraná há dois anos e já nos animamos a passar um final de semana por lá quando “tudo isso passar”. Daqui até Curitiba são menos de 300 quilômetros e a viagem é bem agradável.

No dia seguinte a esse conversa, recebi um e-mail do hotel onde nos hospedamos em 2018 em Curitiba. “Voltamos! Estamos reabertos para recebê-lo com todos os cuidados necessários” – dizia a mensagem. Quando eu digo que as paredes têm ouvido é porque têm!

Exemplo que arrasta

Mais de 50 mil pessoas morreram de covid-19 até ontem (20). Cinquenta mil vidas se foram vítimas de um vírus que chamamos ‘novo’ mas que já está há muito tempo entre nós destroçando famílias. Muito tempo para tanta morte são quatro meses desde a primeira vítima no Brasil. Bebês, crianças, jovens e idosos de gêneros, idades e classes sociais distintas morreram nesse imenso País, que está há mais de um mês sem um ministro da Saúde.

Milhares de brasileiros morreram vítimas do novo coronavírus. Vírus que tem sua letalidade potencializada pelo descaso governamental que vê na pandemia uma histeria. O que uma “gripezinha” pode fazer com quem está acostumado, segundo o presidente, a nadar no esgoto? O que demonstra uma grande falta de conhecimento sobre os males que a falta de saneamento básico – de Norte a Sul – provocam nas populações mais vulneráveis do Brasil. E mais, trata como se fosse aceitável alguém mergulhar em águas pútridas.

Nós, brasileiros, estamos sem rumo seguro para fora dessa pandemia. Cinquenta mil pessoas é muito mais que a população de muitos municípios brasileiros, é como se Laguna, no Sul de Santa Catarina, tivesse desaparecido. Multiplica por três cada uma dessas vidas. Porque, você sabe, para cada morte outras vidas são afetadas. Parece que a única pessoa que não sente nada disso é o presidente da República, o brasileiro que representa a todos nós. Em nenhum momento ele foi solidário à dor de familiares, em nenhuma ocasião ele visitou um hospital, fez um pronunciamento. Tudo o que fez é ridicularizar o luto de milhares.

O presidente dá voz e incentiva os negacionistas como ele. Gente sem máscara na rua que acredita ser esse um direito inalienável – o de contrariar medidas sanitárias que protege desde o ignorante ao mais sensato cidadão. O presidente diz que o vírus é invenção da China, nada comprovado até hoje – e você ouve esse tipo de certeza no balcão da padaria. O presidente pede para que hospitais sejam invadidos e, claro, eles são assim como profissionais da saúde são hostilizados.

Agora imagina se o presidente da República, mesmo contra tudo o que ele acredita, agisse de outra forma? Fosse para as redes que o elegeram e para a TV e o rádio que ele usa para emitir ideias desconexas de sabotagem e perseguição pedir aos brasileiros que se mantenham em casa, os que podem, e que ao sair, quando houver necessidade, tome todas as precauções? E ao sair do Planalto ou do Alvorada ele próprio usasse máscara e mantivesse distância das demais pessoas, não as tocasse e nem tossisse como um bebê que desconhece a etiqueta?.

E daí? E daí que é pelo exemplo que se arrasta seguidores. Ele mesmo é um exemplo disso. Para o mal de mais de 50 mil brasileiros mortos pela covid-19 e por outros que devem perecer pelo vírus e pela inação do governo federal. Um exemplo de como não governar vidas é arrastá-las para a morte.

Ansiedade na vitrine

Ontem eu não quis descer para o café da manhã com o Zé Carlos. Preferi ficar no quarto e tomar café na cama. Estava me sentindo cansada. Cansada de não poder descer as escadas sozinhas como todas as manhãs anteriores à queda e entorse do meu pé direito. Desde então, o João Pedro me reboca escada abaixo e depois escada acima.

Não posso trabalhar, estou afastada por ordem médica. Não posso cozinhar, cuidar do jardim, fazer faxina e qualquer outra coisa que movimente corpo e mente e me leve para longe dos temas ‘pandemia’ e ‘INSS’. Devo ficar em repouso para me recuperar o mais breve possível. Certo. Então leio.

Estou com o livro ‘Relatos de um certo Oriente’, de Milton Hatoum, pela metade, o e-book ‘Brás Cubas’, de Machado de Assis, nos primeiros capítulos e no comecinho de ‘Escravidão’, de Laurentino Gomes. Esses são os que estão na vez. Tem outros tantos aguardando a chance de serem lidos por mim.

Nem sempre consigo manter o foco. Verdade seja dita, quase nunca. Mas ontem foi diferente. Concentrei minha atenção em uma única atividade. Passei toda a manhã entrando e saindo de inúmeras lojas online. Era como se eu estivesse batendo pernas nas lojas sem medo de vírus nenhum, apenas preocupada em fazer um bom negócio e levar para a casa o que procurava.

Foi quase um dia perdido no nada. A energia que dispensei em olhar detidamente cada página de blusa de tricô poderia ter sido empregada em algo útil. Eu simplesmente não me importei.

Hoje, após o café na cama – preferi permanecer no quarto, ponderei o por quê de tanto empenho para comprar umas peças de roupas. Só pode ser ansiedade! Mas isso eu já havia desconfiado após ter devorado uma pacotão de pipoca doce.

Quem chuta a dor do outro?

Para quem ainda acredita que a pandemia é uma conspiração e que a culpa pelas mortes é dos governadores e prefeitos que receberam um trilhão de dólares da União e que enfiaram nos bolsos;

Para quem se fia na certeza de que a Covid-19 hoje só pega pobre;

Para quem jura que é invenção isso tudo ai;

Para todas as pessoas que por um motivo ou outro entendem que o coronavírus é criação da mídia ou da Lua em aquário:

Não haja como o cidadão que não respeitou um protesto pacífico e arrancou as cruzes que simbolizavam os mortos pelo novo coronavírus no Rio de Janeiro. Ele xingava e um pai chorava sentindo o desprezo pela sua dor indescritível. Uma dor que pai nenhum quer sentir, inclusive o que chutava a dor daquele e de todos os pais e filhos.

Pais perderam filhos, filhos perderam pais, avós ficaram sem seus velhos queridos. Gente perdendo gente. Gente e não coisas. Gente. De cor diferente, idades diferentes, pensamentos diferentes dos seus.

A não ser que você não tenha mais um pingo de sangue quente correndo nas veias, não faça isso.

Protesto pelo descaso com a saúde pública ou uma homenagem aos que partiram vítimas do coronavírus não é palco para a indelicadeza com o sofrimento do outro, que é muito maior do que a sua lardeada indignação.

Vale mesmo vestir o manto da agressividade? Já pensou se você morrer nas condições que 40 mil brasileiros morreram e chegar do lado de lá e ser informado que ninguém chorou por você porque, afinal, era tudo uma farsa?

Máscaras que caem

As máscara são o assunto do momento. Seja de algodão, de tecido cirúrgico, de papel toalha ou que o for é preciso colocar uma para sair à rua.

Em um momento ou em outro de nossas vidas já vestimos duas ou 10 máscaras para encarar alguma situação ou até a nós mesmos. Quem nunca respondeu a um cumprimento com um sorriso bem agradável e palavras gentis quando tudo o que queria era reagir de forma contrária não entenderá o que estou dizendo e, provavelmente, não seja nem deste mundo.

A realidade é que as máscaras estão aí. Uns usam menos outros exageram.

E o fato que a pandemia de Covid-19 tem revelado é que as máscaras não vão se sustentar em meio a essa crise que se instalou no planeta.

Os egoístas não conseguem mais disfarçar o quanto se importam apenas com si e ninguém mais. Os tiranos não estão dando conta de segurar a crueldade e vão rasgar o véu, com que ainda tentavam esconder alguma sobriedade, para se apoderar de máscaras alheias, inclusive. Os inaptos, coitados, esses estão sendo expostos pateticamente em rede nacional.

Só não vê quem ainda prefere manter os olhos vendados. Em meio a uma tormenta não é um bom negócio ser cego. Há o risco de ser conduzido por outro sem visão e o caminho ao precipício pode ser inevitável.

O macacão da reflexão

O dia 9 de março passado foi muito esperado por todos nós (três!) aqui de casa. O João Pedro finalmente iria iniciar um curso técnico na área que inspira realizações. No final de semana anterior ao grande dia, fomos ao shopping comprar camisetas novas. Numa das lojas que entramos, fiquei encantada com um macacão que era do jeito que eu não estava precisando, lindo como eu imaginei que queria e com a etiqueta decisiva ‘Liquida’.

Hoje, ao abrir o armário para pegar uma camiseta, me deparei com ele, o macacão que eu comprei “porque sim” há um mês e nunca usei.

As camisetas novas do João Pedro não foram inauguradas. Não deu tempo de usar todas no curso, nos únicos seis dias de aula. A quarentena se estabeleceu e tudo mudou.

Um macacão no fundo do armário, um curso sem aulas, camisetas nas gavetas. O que é isso diante de tudo o que vem ocorrendo nas últimas semanas no Brasil? Isso mesmo! Não é nada!

É uma pequena reflexão sobre a nossa quase que total falta de controle sobre a vida. Digo quase porque podemos controlar algumas coisas sim! Podemos escolher ser pacientes e gentis, generosos e bem humorados. Podemos nos calar diante da vontade de criticar, podemos ser pessoas melhores.

Nossa, mais que clichê, hein?

E não é? O que estamos vivendo hoje no planeta é um lugar comum daquelas palestras de coaching 0800. “Perceba o que o universo quer de você, qual recado está enviando nesse momento?”

E vamos ouvir esse grande coaching que é o coronavírus: volte para casa, repense seus hábitos, reveja conceitos, recrie rotinas e perceba o que realmente tem valor.

No dia que eu aprender essa lição e poder sair de casa, vou de macacão novo.