Quem chuta a dor do outro?

Para quem ainda acredita que a pandemia é uma conspiração e que a culpa pelas mortes é dos governadores e prefeitos que receberam um trilhão de dólares da União e que enfiaram nos bolsos;

Para quem se fia na certeza de que a Covid-19 hoje só pega pobre;

Para quem jura que é invenção isso tudo ai;

Para todas as pessoas que por um motivo ou outro entendem que o coronavírus é criação da mídia ou da Lua em aquário:

Não haja como o cidadão que não respeitou um protesto pacífico e arrancou as cruzes que simbolizavam os mortos pelo novo coronavírus no Rio de Janeiro. Ele xingava e um pai chorava sentindo o desprezo pela sua dor indescritível. Uma dor que pai nenhum quer sentir, inclusive o que chutava a dor daquele e de todos os pais e filhos.

Pais perderam filhos, filhos perderam pais, avós ficaram sem seus velhos queridos. Gente perdendo gente. Gente e não coisas. Gente. De cor diferente, idades diferentes, pensamentos diferentes dos seus.

A não ser que você não tenha mais um pingo de sangue quente correndo nas veias, não faça isso.

Protesto pelo descaso com a saúde pública ou uma homenagem aos que partiram vítimas do coronavírus não é palco para a indelicadeza com o sofrimento do outro, que é muito maior do que a sua lardeada indignação.

Vale mesmo vestir o manto da agressividade? Já pensou se você morrer nas condições que 40 mil brasileiros morreram e chegar do lado de lá e ser informado que ninguém chorou por você porque, afinal, era tudo uma farsa?

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