Infância compartilhada

Se tem alguma criança que não sonhe em ter uma bicicleta, eu desconheço. Quando pequena era tudo o que eu queria, mesmo morrendo de medo de cair. Eu fui uma criança muito medrosa. Tinha medo de absolutamente tudo. Mas sonhava em ter uma bicicleta para andar na rua, no nosso pedaço da rua José Bonifácio.

Quando minha amiga (e vizinha) ganhou uma Monark eu fiquei tão feliz! Primeiro porque ela queria muito, segundo porque ela deixaria eu andar o quanto quisesse e terceiro porque em pouco tempo não serviria mais para ela e seria minha.

E assim foi, a minha amiga tinhas pernas muito compridas e no ano seguinte a bicicleta não servia mais e a ganhei como presente de aniversário. Somos de fevereiro, ela do comecinho e eu do dia 12. Isso me fez lembrar do bolo de frutas que a mãe dela encomendou para o aniversário e que ganhei a metade. Lembro até hoje do sabor, nunca mais comi nada parecido. O ingrediente inesquecível é a amizade infantil.

Há muitos anos não há vejo, mantemos contato graças à internet. A marca daquela amizade ficou como um passeio de bicicleta num dia de chuva.

Além do salão de beleza

Assisti ao ‘Felicidade por um fio’, da Netflix, após indicação da querida Êrica no Blog Ré Menor. Meu objetivo era apenas distração, queria algo leve e só. Mas nos primeiros minutos do filme eu percebi que não seria apenas diversão.

A protagonista – uma publicitária bem sucedida – desde criança tinha como objetivo ser perfeita em tudo. Desde a aparência física até o comportamento na fila do pão. A mãe dela a fez pensar que ser assim a livraria de sofrimentos e a levaria ao sucesso, que nesse caso se traduz em um “bom casamento”. Para garantir isso, a moça estava sempre impecável, inclusive antes de se levantar pela manhã. A principal obsessão dela era o cabelo que, crespo, mantinha sempre lisinho.

Deixar o cabelo extremamente liso roubava horas do dia dela, dias da vida. E ela achava que tinha que ser assim porque a mãe disse que ao contrário não está certo.

Pensei no quanto o que me foi dito na infância e na adolescência me bloqueou. “Seus lábios são enormes. Não use batom”. “E esse nariz? Faça ‘simpatia’ para diminuir”. “Coxas grossas não podem usar short” e uma equivalente: “Quem tem bunda grande não combina saia”. Difícil né? Acho que seria mais fácil ficar dentro da toca e não sair nunca mais.

Sempre gostei de mudar o cabelo, nem sempre pude. Meu pai, nos primeiros anos de pai de meninas – éramos cinco, entendia que devíamos ter cabelos longos. Certo dia, aos 11 anos, arrisquei e passei a tesoura. Queria ficar parecida com a Fernanda Abreu, da Blitz. Não deu certo, o cabelo ficou bem diferente do que eu queria e ganhei um castigo pela ousadia.

Meu primeiro emprego foi aos 16 anos. Fui vestida como adulta, com roupas da minha mãe. Por que como usar jeans e camiseta no escritório? Parece que tinha uma proibição. Pálida sempre fui. Passei um batom “cor de boca” e o resultado foi que continuei pálida. Mas como usar um rosinha que fosse, com essa bocarra? Poderia até perder o emprego.

No filme, uma criança dá o start para a publicitária sair da bolha que a aprisionava. Na minha vida real, foi uma tia três anos mais velha que eu. Do seu jeito ela disse que sim, eu podia usar batom da cor que eu quisesse, que não, minha boca não era feia – e melhor: que muitas mulheres gostariam de ter lábios como os meus. Eu, que usava bandana, tênis trocados e jamais batom, levei um tempo para me sentir confortável com os lábios pintados de rosa.

Muitas mulheres, e homens também, não têm quem os incentive a ser quem querem ser. Que os diga para não temer, para que acreditem em si, em sua liberdade. Em várias etapas da minha vida pessoal e profissional eu tive pessoas que me ajudaram a desatar os nós emaranhados da insegurança e baixa autoestima. Sou muitíssimo grata a todas elas. E todos os dias eu procuro não destruir os sonhos de ninguém, não diminuir seus planos, não relativizar seus problemas e suas dores. Nem sempre consigo, é verdade. Mas tenho tentado, pois sei o quanto pode significar a opinião e o apoio de alguém na jornada da vida. Sejamos pontes e não abismos.

Medo útil

Ir para o banho* sempre foi um acontecimento. Quando meu pai avisava que domingo iríamos para o Periquitos – oh, quanta expectativa! “Vamos dormir para amanhecer logo” – dizíamos.

Descer de boia no rio, correr pela beirada, subir o barranco, saltar na água. Que delícia de vida. Minha relação com rios, igarapés e seus parentes é de encanto, sou atraída por eles, mas até certo ponto. Meu sonho é vencê-los a nado. Aqui uma pausa para muitos risos.  Não sei nadar!

Há algumas décadas quase desapareço em um açude numa pequena cidade de Mato Grosso. A cena inesquecível lembra filme de terror. Eu me debatendo na água via as pessoas conversando na margem, ouvia suas risadas e ninguém percebia o que estava acontecendo comigo. Depois que voltei para casa me inscrevi num curso de natação. Tinha mais criança do que água na piscina, não desisti. Pelo menos aprendi a mergulhar sem precisar apertar o nariz com a mão.

Balneário Taboca em Porto Velho

Esse medo é útil. Força-me a ser cautelosa, no entanto, não me impede de entrar na água, de me cobrir de paz e de me sentir em harmonia comigo mesma.

*Balneário, em portovelhês

Minha primeira e difícil mudança

Eu nasci e vivi até os 13 anos na rua José Bonifácio, bairro Pedrinhas, em Porto Velho. No centro do mundo, do meu mundo. No dia que papai colocou a casa à venda minhas irmãs e eu ficamos bem descontentes. Mas ninguém ficou mais desesperada do que eu.

No dia da mudança, lembro-me bem, me agarrei ao telefone e não queria largar, falando com uma grande amiga – da qual não tenho notícias há uns 30 anos, pelo menos -, seria o fim da minha vida viver longe dela, oh Deus! Eu chorava, esperneava em cima do caminhão da mudança. Que cena!

Mudamos para o fim do mundo, a rua Tancredo Neves, no recém-nascido Jardim Eldorado. “Socorro, cadê o jardim daqui? Só tem poeira, nesse lugar horroroso!”. O Pedrinhas era o bairro mais lindo do mundo para mim, só perdia para o bairro da minha avó em Campo Grande/MS. Era só o que eu conhecia.

Durante não sei quanto tempo, minhas irmãs e eu íamos passar os domingos no lindo Pedrinhas. Não lembro como essa rotina de matar a saudade cessou.

Quero viver livre de preconceitos

Talvez tenha sido quando resolvemos viver a realidade e aproveitar a companhia dos novos amigos da vizinhança. Nos adaptar a um bairro totalmente diferente do nosso querido Pedrinhas. Era tudo diferente. As ruas, as casas, os comércios, as pessoas.

A diferença entre as ruas José Bonifácio e Tancredo Neves continua até hoje. A rua do Pedrinhas, lá onde nasci, continua na mesma. A do Eldorado é uma grande via de acesso aos demais bairros que surgiram logo depois. Não lembra nada daquela rua de faroeste.

Em mim também ocorreram mudanças. Hoje resta muito pouco daquela menina cheia de medos e preconceitos e eu tenho apenas a agradecer.

O cheiro da toalha azul

Alguns sabores e cheiros trazem lembranças para você? Sim, né? Acho que todo mundo tem esse baú de recordação. Cheiro de pão com manteiga molhado no nescau me remete à lancheira do pré-escolar. Nossa! O cheiro é muito específico. Ficava impregnado na toalha que eu usava para cobrir a mesa e então merendar no Jardim de Infância Branca de Neve – que está de pé até hoje recebendo “o futuro do Brasil”.

Eu ainda guardo a toalhinha azul do pré. Ela passou anos na casa da minha avó, em Campo Grande. Um dia voltou para mim e comigo está até hoje. Tem o meu nome bordado e tudo.

É a prova ao apego que tenho à infância tão distante e inesquecível.