Sem remorso e adiante

Na estrada da vida não devemos perder tempo na rotatória do remorso e nem nas encruzilhadas da mágoa.

O tempo perdido em remordimentos nos aprisiona no passado e o caminho para o futuro não tem retorno. É sempre adiante. O trajeto é construído durante a caminhada e os atalhos são armadilhas. Se caiu nelas, reveja o mapa e siga em frente.

Quanto antes nos livrarmos do remorso, da culpa e da mágoa mais leves ficaremos para a jornada.

Se errou, se desculpe. Se foi magoado, perdoe.

 

Dinâmica da felicidade

“O que te fez feliz hoje?”, essa pergunta e as dezenas de respostas que se seguiram a ela me fizeram ter certeza de que a vida é feita de momentos muitos singelos aos quais damos alguma importância. Mas não é sempre que estamos conscientes de que algo como tomar café da manhã sem pressa pode ser prazeroso. A pergunta fazia parte de uma dinâmica de grupo da qual participei.

A minha resposta foi: “Ter dirigido de casa até aqui. Moro em São José e é a primeira vez que dirijo na Ilha na hora do rush!”.

E os momentos de felicidade foram os mais variados: ter dado conta de cumprir todas as tarefas que se propôs para aquele dia; ter conseguido chegar a tempo à reunião mesmo saindo com pouca antecedência; ter entregue a dissertação; ter finalizado o TCC; ter reencontrado um amigo de infância que não via há anos; ter conversado um tempão com uma irmã ao telefone…

E foram quase 50 motivos de alegria, felicidade, bom ânimo. E há milhares deles.

A vida é simples e a dinâmica da felicidade – essa “mais fácil”, não aquela que ficará mais para adiante, está em observarmos e estarmos presentes em cada momento.

A nossa presença em nossa própria vida faz diferença.

Livre-arbítrio é melhor que destino

É como um gás paralisante. A pessoa não consegue avançar porque aguarda uma solução do céu: o que tiver que ser, será. “Deus no Comando!”, diz alguém que crê que o resultado de sua atitude será aquele que o Universo determinar. É a mesma lógica de quem reza para passar numa prova sem estudar. Como se Deus fosse uma super babá e nós não tivéssemos o livre-arbítrio.

A vida nos pertence e temos a liberdade de agirmos de acordo com nossa vontade. São os caminhos que tomamos, as escolhas que fazemos, as atitudes que temos, as histórias que criamos para nós que nos colocam diante dos mais diversos desfechos.

Vai dizer que foi Deus ou o destino que provocou uma bagunça na sua vida após uma escolha impensada – apesar dos vários alertas recebidos por meio de amigos ou familiares? Difícil retirar do forno um bolo de laranja após ter colocado para assar uma forma de biscoitos.

O destino é uma espécie de bicho-papão criado para explicar algo que não se conseguiu vencer. É a desculpa para erros, fracassos, desilusões.  Mas pode ser o encorajador da mudança. Pense que o que depende apenas de você não é impossível. O destino é seu e ninguém mexe!

Condutor da mudança

Zé Carlos ao volante da vida

Dias atrás, após ouvir um homem comentar que as coisas não eram fáceis para ele porque já havia passado dos 60 anos de idade, parei para pensar e me dei conta que em nenhum momento, até ali, eu havia perguntado ao Zé Carlos se a mudança de Rondônia para Santa Catarina não o intimidava. Afinal, ele estava próximo dos 63. Não vejo problema algum em estar envelhecendo, ao contrário!  Sessenta anos são o novo 40tinha com alguns bônus.

Três décadas atrás ele saiu de Belo Horizonte para Porto Velho porque foi contratado para um freelance de 15 dias e acabou ficando (ainda bem!) todo esse tempo.  Em dezembro passado iniciou nova fase. Tudo novo, desafiador. O frio na barriga e o medo de algo sair fora do planejado, claro, existem. E isso é muito positivo. A sensação gostosa de viver nos move adiante . E o receio nos direciona a ficarmos atentos à luz amarela. Se você passou dos 40 e prestou atenção, aprendeu que cautela não faz mal.

Um sexagenário (eita!) pegar sua família, colocar no carro, atravessar o país e chegar onde gostaria de estar é ou não inspirador? Ver alguém se movendo para fora da sua quentinha, fofinha e perfumada área de conforto é transformador ou, no mínimo, pode fazer você refletir se os tênis são confortáveis ou se se ajustaram aos seus calos. Ou você talvez ainda esteja descalço.

Viver é uma dádiva

João Pedro costuma reclamar de algum incômodo, seja qual for, e ao final do lamento diz: Mãe, acho que estou morrendo aos poucos. Minha resposta é sempre parecida: Morremos a cada dia, por isso precisamos viver mais. Com a quantidade de notícias de morte que chega todo dia é fácil perceber que a vida é muito mais passageira do que costumamos pensar.

Enquanto escrevo aqui e você lê aí, quantas pessoas morreram e quantas outras nasceram? A vida, lá e cá, não para. Estive de luto por esses dias, me agarrei numa tristeza e me encolhi como medo da vida. Meu luto era o mesmo de tantas outras pessoas entristecidas com as mortes que viraram manchetes nos últimos dias.

A certeza de que nossos dias podem acabar a qualquer instante não deve nos paralisar, porém, ao saber que nosso tempo é limitado e que desconhecemos quando chegará ao fim, devemos aproveitar o dia que nos apresenta cheio de possibilidades. Por que guardar o sorriso para depois quando estiver de batom? Sorria sem restrições. Não deixe no guarda-roupa aquela blusa linda que comprou para usar numa ocasião especial que nunca chega do jeito que planeja, mas que está aí todo dia e você nem percebe.

Não tenha medo de viver, não há tempo para isso. Estamos aqui, somos vencedores. Viver é uma dádiva, acredite. Viva!

Bandana da liberdade

Tenho um lenço multi-função que levo sempre no porta-luvas do carro. Ele já secou suor, limpou pingos de sorvete que escorreu na roupa, retirou poeira do sapato e até serviu como babador para Azula no seu primeiro passeio de carro. Hoje eu o lavei após ter sido utilizado como curativo de urgência pelo Zé Carlos que machucou o braço no banco do carro.

Enquanto lavava o bat-lenço, viajei no tempo. Estava no Cohab indo para a Escola Barão do Solimões, no Centro de Porto Velho. Usava minissaia, All Star cano alto e uma bandana na cabeça. Conversava com os meninos do Senai. Troquei de tênis com um deles. Um lado apenas. Fiquei com meu tênis preto manchado de Q-Boa (arte minha) num pé e no outro um meio chumbo do meu colega.

Antes de chegar à escola, tirei a bandana da cabeça e amarrei na coxa. Nos dias seguintes, algumas meninas apareceram na escola de minissaia e bandana. Fui chamada na direção. Ouvi “sermão”. Estava dando mau exemplo. Um escândalo.  Usar bandana na coxa era uma espécie de contravenção do regulamento moral da escola. Eu ameacei a ordem e os bons costumes das colegas do colegial. Olha que perigo!

O lenço multi-tarefa é roxo com desenho meio indiano. Lembra palidamente a minha bandana da adolescência. Algumas lembranças estão sempre presentes e às vezes ficam visíveis para que não esqueçamos quem fomos, quem somos, quem queremos ser.

A bandana para mim representa a liberdade que quero ter em ser quem sou.

O vento da faxina

Minha vó dizia que quando retiramos a poeira, limpamos  e organizamos a casa, o vento entra pela porta. Lembro-me da vovó dizendo isso um dia quando eu terminei de varrer a cozinha da casa dela, em Campo Grande, há mais de 30 anos.

Todas as vezes que faço faxina em casa, daquelas cheia de energia e vontade de ter a casa limpa e agradável, como fiz hoje, espero o vento entrar. Ele sempre chega de mansinho espalhando o cheiro de limpeza e a sensação de conforto. Isso me faz tão bem.

Tenho experimentado o vento da limpeza também dentro de mim. Uns hábitos pouco saudáveis que se foram deram uma aliviada na confusão que estava o meu corpo. Algumas atitudes menos felizes das quais me desfaço aos poucos já me fazem sentir que o ventinho da faxina se aproxima.

É um trabalho diário e vagaroso ir retirando as poerinhas de cada prateleira do me ser. Muitas bem incrustadas e relutantes em deixar os cantos onde estão há tempos. Eu tenho tentado um produto que desfaz a resistência dessas poeiras, ele não e fácil de ser aplicado, mas é o melhor: paciência.

Eu quero uma brisa infinita na minha alma e para isso não posso me demorar nas fuligens da reclamação e do conformismo.