Quem chuta a dor do outro?

Para quem ainda acredita que a pandemia é uma conspiração e que a culpa pelas mortes é dos governadores e prefeitos que receberam um trilhão de dólares da União e que enfiaram nos bolsos;

Para quem se fia na certeza de que a Covid-19 hoje só pega pobre;

Para quem jura que é invenção isso tudo ai;

Para todas as pessoas que por um motivo ou outro entendem que o coronavírus é criação da mídia ou da Lua em aquário:

Não haja como o cidadão que não respeitou um protesto pacífico e arrancou as cruzes que simbolizavam os mortos pelo novo coronavírus no Rio de Janeiro. Ele xingava e um pai chorava sentindo o desprezo pela sua dor indescritível. Uma dor que pai nenhum quer sentir, inclusive o que chutava a dor daquele e de todos os pais e filhos.

Pais perderam filhos, filhos perderam pais, avós ficaram sem seus velhos queridos. Gente perdendo gente. Gente e não coisas. Gente. De cor diferente, idades diferentes, pensamentos diferentes dos seus.

A não ser que você não tenha mais um pingo de sangue quente correndo nas veias, não faça isso.

Protesto pelo descaso com a saúde pública ou uma homenagem aos que partiram vítimas do coronavírus não é palco para a indelicadeza com o sofrimento do outro, que é muito maior do que a sua lardeada indignação.

Vale mesmo vestir o manto da agressividade? Já pensou se você morrer nas condições que 40 mil brasileiros morreram e chegar do lado de lá e ser informado que ninguém chorou por você porque, afinal, era tudo uma farsa?

Compaixão salva vidas

Há alguns dias voltando para casa vimos de longe uma mulher andando apressada e aparentemente desnorteada.  Ao nos aproximarmos percebemos que ela chorava e apertava as mãos. Não deu tempo de pensar duas vezes, desci do carro e corri ao encontro dela. A passageira de um outro carro fez o mesmo.

Nos aproximamos da mulher oferecendo auxílio. Ela nos empurrou, disse que não aceitaria ajuda porque não nos conhecia. Insistimos e então ela começou a gritar. Instintivamente a abraçamos. Repetíamos sem parar que estávamos ali para ajudá-la, que ela não estava sozinha. A mulher desmaiou em nossos braços.

A moça que estava comigo sentou no asfalto das 13h e ajeitou a cabeça da desconhecida no colo. Eu massageava as mãos daquela mulher que sofria. Impossível não pensar no que teria acontecido.

Violência doméstica, desespero diante de uma doença, desesperança? O que interessava para quem parou e se dispôs a ajudar uma estranha foi pensar no outro, ter compaixão pelo sofrimento alheio.

Pensei no quanto essa mulher teve sorte de ter sido atendida por pessoas que se importaram com seu bem-estar. Quase uma hora depois a ambulância chegou e a levou para atendimento médico.

Torço para que ela esteja bem, que tenha resolvido os problemas que a angustiavam e que agora acredite que não está só.

Para todos nós eu desejo que tenhamos compaixão pelo outro e que na nossa caminhada possamos encontrar pessoas que nos auxiliem pelo simples motivo de se importarem.

Falta amor no call center

Você provavelmente já deve ter sido vítima de algum serviço ou atendimento ruim. Precisou resolver algo simples e não conseguiu porque quem poderia ajudar nada fez. Isso sem contar os empecilhos oficiais, como  a detestável burocracia nacional. Para o primeiro caso eu acredito que é a falta de amor.  Pouco vemos dessa forma, mas a gentileza é a manifestação do amor que há em nós. Percebe?

Há muitos anos vivi a experiência mais marcante em atendimento por telefone. Talvez não tenha sido a primeira, mas, certamente, a mais traumática e também a mais positiva. Meu pai faleceu em Barretos, interior de São Paulo, e precisávamos fazer o translado do corpo para Porto Velho, Rondônia. Coube a mim, irmã mais velha, tratar de assunto tão delicado. Liguei para a companhia aérea e expliquei a situação. A atendente criou todas as dificuldades possíveis para disponibilizar o serviço. Lembro-me de ter dito antes de encerrar a conversa: Moça, é meu pai, ele está voltando para casa em um caixão. Desliguei, respirei, orei. Voltei a ligar na certeza de que alguém gentil e mais propenso a ajudar atenderia. E atendeu. Um rapaz, cujo nome infelizmente não lembro, ofereceu todo o serviço que a colega dele disse não estar disponível.

Com isso criei um protocolo para atendimento, virtual ou presencial, quando percebo que a conversa não vai ser positiva, deixo de lado e tento outra pessoa. É do ser humano a instabilidade de humor. Um dia você acorda bem,  noutro nem tanto. Prefiro pensar que todas as pessoas que atendem mal é porque não estão bem e não que são más simplesmente.

A impressão que tenho é que essas pessoas que agem assim simplesmente esquecem quem são. Por algum motivo se desplugam do seu eu humano e não conseguem perceber que, no caso da atendente da companhia área, também é filha, tem pai e mãe que irão morrer um dia. Falta amor e percepção da vida. Hoje sou eu, mas amanhã pode ser você. Como quer ser atendido?

Juntas é mais fácil

Espancada, xingada, estuprada, assassinada. Faca, murros, tiros, atropelamento, chutes. Marido, namorado, caso, ex, conhecido, desconhecido. São inúmeras as notícias diárias de mulheres vítimas de violência, são incontáveis os BOs registrados Brasil afora sem nenhuma resposta, são intermináveis as histórias de dor, descaso e preconceito vividas por mulheres de todas as idades e classes sociais.

Somos alvo desde cedo de preconceito apenas por sermos do sexo feminino. Deboches, piadas, assédio moral por usarmos batom, por não usarmos maquiagem, por gostarmos de jeans, por não usarmos jeans. Por sermos magras, gordas, negras, brancas, baixas, altas. Não importa. Ser mulher é ser ridicularizada em algum momento da vida.

Atravessei quatro décadas e posso dizer com toda certeza que quase nada mudou em relação ao volume de casos de violência e preconceito – não estou falando estatisticamente. O que tem mudado nos últimos anos é a visibilidade do absurdo vivido por nós, mulheres. Estamos mais conscientes, conseguimos reagir, erguer a voz por aquelas que, independente do motivo que têm, ainda não conseguem reagir. Mas ainda temos muito chão para percorrermos rumo ao respeito que todas nós merecemos, assim como todo ser humano independente do sexo, da identidade.

Nós, mulheres, temos muita responsabilidade nessa mudança. Já pensou no quanto poder detemos em casa, na criação de filhos – para quem é mãe, na conversa com sobrinhos, criança, jovens de todos os sexos? Sim, porque o machismo tem que acabar também entre as mulheres. Ah, claro, isso não é fácil, eu bem sei, minha cara. Mas se não começarmos isso agora, quando iremos ter resultado e um mundo menos ameaçador para quem está nesse mundo cheio de Marias oprimidas por Josés? Vamos juntas, assim fica mais fácil para todas nós.