Entrevistas e latidos

Minha primeira experiência com home office foi há muitos anos, quando atuei como freelancer. Recebia a demanda e me organizava para entregar dentro do prazo.  Muitas vezes trabalhei até tarde da noite, atendia a vários clientes ao mesmo tempo.

Meu atual contrato de trabalho é home office, mas com algumas diferenças. Tenho horas a cumprir e ponto a registrar. Dois domingos ao mês trabalho na redação, em Florianópolis.

Ocupo um canto da sala com notebook, telefone, cadernos, blocos e canetas.  E vez ou outra meu espaço de trabalho é invadido por uma Azula carente que deita no meu colo ou coloca a cabeça no meu ombro. Faço um carinho rápido e a despeço.

Azula me observa enquanto trabalho

Dias atrás, meu telefone tocou e a Azula ficou em alerta. Aguardou eu atender a ligação, falar alguma coisa com o interlocutor para então se espreguiçar e soltar um bocejo demorado e barulhento.

“Oi? Não entendi”, disse a pessoa do outro lado da linha.

Noutro dia, estava no meio de uma entrevista Azula e Argus resolveram latir como se o mundo estivesse em chamas. A pessoa riu e eu pedi desculpas. A resposta me tranquilizou: “Tudo bem, eu tenho três”.

Empatia é tudo.

De volta às ruas

Hoje foi meu primeiro plantão de final semana. A pauta é um assunto conhecido por mim, uso proibido de cerol, mas o local da cobertura totalmente novo: a beira mar de Florianópolis. Por enquanto quem ganhou no quesito “quem diria” foi a pauta que eu fiz sobre a estiagem rigorosa nos rios de Santa Catarina. Eu, do Norte, falando sobre estiagem do (e no) Sul. Parece nada, não é?

Durante a semana também conversei com famílias de refugiados da Venezuela, escrevi sobre estacionamento rotativo, lixo nas ruas, serviço de correios. Nada novo, além da empresa, o local e as expectativas.

Primeira pauta na rua. Assunto: lixo na Via Expressa

 

Amores de outubro

Porto Velho, onde nasci e vivo desde sempre, completa nesse 2 de outubro 104 anos de criação. Há 11 anos eu produzi e escrevi um especial para o jornal Diário da Amazônia sobre essa efeméride. Na época era repórter e pedi ao meu editor que me autorizasse a fazer o suplemento comemorativo. A pauta: queria falar sobre o que é ser porto-velhense, fazer com que o leitor se identificasse. Não contar apenas a história da cidade, mas das pessoas – os hábitos, as tradições, o seu jeito de falar.

Dias após a publicação, ao chegar à redação e abrir o ‘MSN’ (sim, isso foi há mais de 10 anos!) uma mensagem de um amigo:” Você está com tudo hein? “. Não entendi, e precisei esperar muito tempo para que ele respondesse o meu “Por quê? O que houve?” Horas depois recebi o link da coluna Banzeiros. Era a resposta. O colunista político José Carlos Sá havia comentado o “meu” caderninho sobre Porto Velho (!!!). Eu fiquei eufórica, como se tivesse sido citada na revista Imprensa.

Acompanhava a coluna do JCSá, gostava do que ele escrevia, de suas observações, seu humor e ironia. Mas não o conhecia e ele estava elogiando meu trabalho. Enviei um e-mail em agradecimento à gentileza. Ele respondeu dizendo que acompanhava o meu trabalho há algum tempo. Mais e-mails.

Quase um mês depois nos encontramos pessoalmente. Seis meses depois ficamos noivos.  Mês passado fizemos 10 anos de casados.

Tudo começou porque escrevi sobre Porto Velho. Escrevi com minha alma porto-velhense, com meu sotaque cantado, com meu vocabulário meio nordestino com sabor de açaí.

O de 2 outubro desde aquele 2007 passou a ter mais significado para mim. A cidade que eu nasci se juntou à minha paixão por escrever e trouxeram para mim o amor da minha vida.

Nosso passeio por Porto Velho, no dia dos 104 anos de criação