A mudança e a ponte

No dia 30 de dezembro de 2018 saímos de Porto Velho rumo à São José. Não tínhamos casa, o plano era chegar, visitar imóveis previamente selecionados, escolher e então nos mudarmos. Tudo isso em uma semana. Os primeiros dias não foram fáceis, apesar da vista. Mas como sempre acontece, as coisas se ajeitaram.

Um ano após o início da mudança de cidade estávamos, Zé Carlos e eu, comemorando a volta da Ponte Hercílio Luz. Aquela beleza de estrutura pela qual somos apaixonados. Uma ponte que para nós, assim como para outras pessoas, é o carimbo mais querido no passaporte das férias.

Essa ponte representa um desejo que nasceu em janeiro de 2012 quando do nosso primeiro encontro nessa vida com Florianópolis. Quase oito anos depois, lá estávamos nós e umas 50 mil pessoas festejando a reinauguração do ícone.

A volta da ponte é uma significativa comemoração a esse primeiro ano de nossa corajosa resolução de termos saído do cômodo para o desconhecido.

Nós na Ponte Hercílio Luz

A ponte é do povo

População compareceu à reinauguração da ponte

Dia 30 de dezembro de 2019 entrou para a história de Florianópolis como o dia em que a Ponte Hercílio Luz voltou a ter vida após 28 anos de convulsões involuntárias. Descaso, corrupção, má vontade e outros males consumiram quase três décadas do maior ícone catarinense.

Ontem o esforço de alguns homens e mulheres somado ao incentivo e ao desejo de milhares de pessoas foi compensado pelo sentimento de pertencimento. A ponte é novamente do povo. Ela é dos catarinenses, dos brasileiros e de todo o mundo.  Pertence a todos que respeitam e honram a memória, a história.

Foram R$ 1 bilhão escoados de alguma forma sendo a ponte o motivo, mas não a destinatária. A culpa não é dela, não é da cidade. É de quem não respeitou o dinheiro público. Que os culpados pelos golpes ao erário sejam punidos e que nós, cidadãos, aprendamos a nos mobilizar de verdade, na vida real, para que casos absurdos como esse não tornem a acontecer.

A majestosa Ponte Hercílio Luz

Viva a ponte!

Primeiros dias no Sul

As pessoas me perguntam: e aí, já se acostumou? Está sentindo muito a mudança? E nesses primeiros 30 dias a resposta tem sido a mesma: Estou tranquila, como se não houvesse saído do Norte para o Sul do país. Não sei se é porque não houve ainda tempo para pensar, ponderar sobre isso. Agora meu foco é organizar a casa nova e isso demanda dedicação e muita energia.

Nesses dias observei as diferenças em relação a produtos nas prateleiras dos supermercados e nas vitrines do açougue, por exemplo. A oferta de manteiga é insignificante, o que há em quantidade e variedade é marcas de margarina e nata. Parece que na Grande Florianópolis manteiga não faz sucesso e aqui em casa é o que consumimos. E no açougue? O patinho tem preço de picanha. Considere que sou rondoniense e em Porto Velho a oferta de carne bovina de qualidade é grande. Mas, como sempre digo, questão de adaptação. Por outro lado, tenho fácil frutas, legumes e hortaliças. Afinal, muita coisa sai do Sul para o Norte.

E isso é para colocar em balança? Na minha não. São coisas tão pequenas diante do que realmente importa para mim. Estou onde gostaria de estar, vivendo o que foi planejado – com uns atropelos aqui e outros acolá, como acontece na vida real – com quem eu amo. No mais, o futuro está bem aí e precisa ser construído sem barreiras de costumes e hábitos que só nos aprisionam.

Três mil 450 km de mudança

Fim da missão. Bagageiro pronto.

Saímos no domingo, dia 30/12, bem cedinho. No sábado, passamos o dia cuidando de colocar tudo no bageiro do carro. Para isso contamos com a família. Cada um foi fundamental para que tudo desse certo. Última noite em Porto Velho passamos na casa da Kárita, João Pedro dormiu na casa do Fábio, Azula e Argus ficaram na agora ex-casa.

Quando voltamos à 4634 para buscar os cães e dar aquela última conferida – se nada estava ficando para trás – passeei pelos cômodos da casa, acariciei suas paredes como havia feito há 10 anos quando tomamos posse de seu espaço. Fui ao jardim e me despedi das plantas que ficaram, agradeci a todas por ter convivido conosco todo esse tempo, aos passarinhos pela companhia diária. Pronto. Acabou ali a história com a casa da rua Bandeirantes.

Embarcados por cinco dias

Todos embarcados e parecia que estávamos indo ali num passeio. Muita expectativa no ar. Como será que reagiríamos ao deixarmos a Terra de Rondon dali a 700 quilômetros? Gratidão foi o que sentimos a passarmos na segunda-feira, após pernoite em Vilhena, na divisa Rondônia/Mato Grosso. Zé Carlos deu umas buzinadas e gritamos: Obrigada, Rondônia! Gratidão por esse estado maravilhoso onde nasci, cresci e vivi por 45 anos.

Nesses 5 dias de viagem, o terceiro pernoite foi em Campo Grande na casa de amigos queridos que acolheram a todos nós com carinho e a quem somos gratos. Maristela, Bibo, Flaviane, Fábio, Fabielli, Dinho, crianças, Roxy – muito obrigada!

Amigos Maristela e Bibo, que nos acolheram em Campo Grande

Passamos por Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná até entrarmos em Santa Catarina. Nesses quase 3,5 mil quilômetros de estrada, de convivência praticamente ininterrupta – só não íamos juntos ao banheiro, a maioria dos dias foi leve e agradável. Houve momentos de tensão, cansaço e mau humor – os cães às vezes se agitavam, o trânsito parava, a chuva não dava trégua.

Tudo superado. Chegamos a Florianópolis, onde ficamos hospedados enquanto resolvíamos a compra da nova morada, numa manhã alegre para todos, principalmente para os cães que puderam correr e brincar como há dias não faziam. Para ficar anotado: chegamos dia 4 de janeiro, aniversário de 37 anos de instalação de Rondônia.

Uma nova etapa estava se concretizando.

Do Norte para o Sul

2018 chegando ao fim com grandes mudanças. Quase 3,5 mil quilômetros de mudança. Sair do Norte e ir para o Sul nunca foi minha intenção até conhecer Florianópolis em janeiro de 2012. A paixão surgiu assim, instantaneamente, o amor fixou morada em pouco tempo e o desejo de morar nesse lugar encantador foi se firmando com o passar dos anos.

Cinco anos depois, voltamos a Santa Catarina, desta vez por Curitiba. Eu intimamente pensava: “Meu Deus, e se eu sentir que é lá que quero estar, o que vou fazer com essa vontade?”. Quando chegamos à Floripa e o coração disparou tive certeza. A partir de janeiro de 2017 começaram os tijolinhos do pensamento se fixarem com o cimento da positividade. Planos foram feitos e desfeitos até a decisão tomada em junho deste ano quando voltamos à Floripa e conhecemos Angelina, Santo Amaro da Imperatriz, Rancho Queimado e Urubici.

Ao retornarmos para casa, pusemos mãos à obra porque um sonho não se concretiza só com brisa. Casa à venda, bazar no jardim, pensamento 100% na mudança até o começo de 2019 para SC.

Hoje, último domingo na casa que nos acolheu por 10 anos, penso no quanto é possível mudar na nossa vida. Enquanto há vida deve haver sonhos, planos, desejos. O aprendizado de 2018 é: sonhe o possível, acredite, trabalhe para que ele se realize. Mas dê prazo para tudo. Não adianta sonhar com algo para o resto da vida, gastar sua energia em um sonho impraticável. A meta é sua, estabeleça suas regras usando de bom senso. Haverá quem critique e te desestimule. Essas pessoas servem para aprumarmos o rumo dos planos. Ajustes feitos, siga em frente.

Nós seguiremos de Porto Velho a Florianópolis, três humanos e dois cães – uma família. Parece Sessão da Tarde, mas é a vida em movimento.

Josy ajudou muito na alimentação do ‘já deu certo’