Tas boa, nêga?

Gosto um tanto de sotaques (uns mais outros menos). Alguns parecem ter musicalidade, um ritmo. Ficaria ouvindo um tempão. Nessa viagem a Minas encostei na sombra de uma árvore lá em São Gonçalo do Rio das Pedras (vê que nome mais bonito?!) para ouvir a prosa de quem passava.

“Tem base não”, “Ô aqui procê ver se isso é assim messs”, “Com Deus, viu?” – foram algumas das frases que pesquei da conversa entre duas amigas (suponho, porque uma perguntou pela mãe da outra) que se encontraram na rua uma indo e outra voltando da escola para fazer a rematrícula do filho ou filha.

Já falei para o Zé Carlos que estou parecendo uma fifi (para quem não pegou a referência, é a fofoqueira de uma novela nos anos 1980). No entanto, meu interesse não é no assunto e sim nas palavras, no som, no significado. Quando nos mudamos para São José, calibrei a minha antena para captar todas as expressões e palavras desconhecidas, decodificá-las e então incluir no meu vocabulário.

“Ô querida, está boazinha?” é uma das minhas preferidas. A pessoa não conhece você nunca nem viu e tasca essa saudação de primeira. É querida para cá, querida para lá. Em férias no ano passado por aqui, minha sobrinha comentou, meio contrariada: “Ah, não gosto dessa coisa de querida, muito falso”. Expliquei que não era nada disso e ela adotou o “meu querido”. O correto em manezês é “mô quirido”. Adoro ouvir o entregador de marmitas cumprimentar o Zé Carlos: “Bom dia, mô quirido, tas bonzinho?”.

Hoje, no consultório veterinário, a Azula estava rosnando para um cachorrinho e a recepcionista falou para ela: “Ahan, queres intisicar? Mas olha!”. Intisicar é provocar, atiçar – exatamente o que a dona Zuzu estava fazendo com o chiuaua.

E o “tás boa, nêga?” do título desse post – você deve estar se perguntando (provavelmente não). É um cumprimento comum entre amigos, mas que eu ouvi de um entrevistado nessa semana. Geralmente eu gravo as entrevistas, mas como essa era algo muito breve, para confirmar informações simples, não gravei e me arrependi. Costumo mostrar para o Zé Carlos as gravações. Uma delas virou hit. O entrevistado é um manezinho autêntico que nem faz ideia do sucesso que o “ô quirida” dele faz aqui em casa.

Você acha que eu estou com uma mania meio esquisita e invasiva? Tas tola? É para o meu TCC.

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