Enquanto uns negam, milhares morrem

No começo da pandemia, com tudo tão mais incerto quanto agora, muito se falou na mudança que o isolamento social poderia influenciar no comportamento humano. As dificuldades de quem tem menos tocariam profundamente quem tem mais, geraria empatia em todos e em pouco tempo seríamos novas pessoas. Menos egoístas, com certeza. Empáticos sim, como não?

E então acordamos do sonho impossível de transformação a jato. O progresso não dá saltos, impossível que quem é duro de coração, e tem orgulho disso, passar a se importar com o outro assim, sem mais nem menos. “Que coronavírus o quê! Isso é uma gripezinha, basta ser macho e ter feito umas flexões 30 anos antes que, pronto, resolvido. Deixa de ser maricas!” – são algumas das falas dos que estão por aí, arrotando indiferença e se afundando no charco da estupidez.

Encontrei um desses exemplares de ser humano numa sapataria, aqui em São José, quando procurava uma sobrevida para um par de sandálias boa de guerra. Cheguei, chamei e apareceu o homem sem o acessório mais importante de 2020. Pedi a ele que, por gentileza, colocasse a máscara.

“Ué, mas para quê? Tu já não está usando?”, resmungou. “Estou, claro, mas o senhor também precisa usar. Além de ser lei, é o certo a fazer”, respondi com paciência e chocada por estar de cara e sozinha com um negacionista.

“Ah, mas não precisa disso, isso é besteira. Eu não tenho medo”, retrucou o homem visivelmente incomodado. “Pois o senhor deveria ter medo. Se precisar de uma UTI amanhã, talvez não tenha. Aqui na região só há 17 leitos disponíveis (eu tinha acabado de ouvir a atualização na CBN)”, falei. Enquanto isso, ele olhava o calçado. Eu agradeci e disse que não valia a pena o conserto e saí de lá feito uma chaleira fervendo.

Esse episódio ocorreu ontem (11) quando chegamos à triste e desalentadora marca de 180 mil mortos por coronavírus no Brasil. Número que o ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta alertou que alcançaríamos, caso o governo federal não tomasse uma atitude, como de fato não fez. Uma lamentável e criminosa tragédia anunciada.

O sapateiro, no mundo a parte em que vive, de certo não acredita que a covid-19 seja tudo isso aí que estão dizendo. “Esse ministro não é aquele do escândalo tal?” – foi o tipo de comentário que li por aí, nas publicações da entrevista do ex-ministro. Alguém deve ter dito também: “queriam os ladrões do PT?”.

Essa turma negacionista e estúpida (desculpa a redundância) devia estar reunida na segunda-feira (7) assistindo à transmissão vexatória de uma inauguração ridícula de trajes utilizados na posse presidencial há quase três anos.

Um grande deboche para as milhares de vítimas do coronavírus e suas famílias, um criminoso descaso com todo o País que está sem rumo e sem condutor que nos leve para fora dessa pandemia. Pela inépcia governamental estamos todos, inclusive eles, num barco à deriva.

Aos negacionistas o meu mais profundo desprezo.

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