Nove meses de home office

Desde julho passado, quando comecei no Jornal Notícias do Dia, faço teletrabalho. A apuração é feita por telefone, aplicativo e e-mail. Claro que em muitas pautas preciso sair e então vou e volto de Uber. Tenho minha própria redação, mas cumpro as cinco horas contratuais, que são registradas no aplicativo da empresa. O contato com a redação – localizada no Morro da Cruz, em Florianópolis – é, basicamente, pelo WhatsApp.

Os primeiros três meses foram de adaptação ao home office. Muito barulho, entra e sai, distrações, cães latindo e por aí vai. Agora os demais ocupantes da casa entenderam como funciona, que eu estou trabalhando e preciso estar concentrada.  Os cães nem sempre conseguem resistir ao caminhão da coleta de lixo ou a um colega cachorro que passa na rua, por isso, sempre antes de começar uma entrevista por telefone deixo eles presos.

Também aprendi a parar de verdade para fazer o intervalo de 15 minutos.  Aproveito para passar um café e dar atenção aos carentes Argus, Azula e Atena.

Eu moro e trabalho no mesmo lugar, sendo que faço dupla jornada – sou dona de casa e jornalista, portanto, respeitar horários é fundamental. Meu tempo máximo na cozinha é até as 13h para que eu possa começar meu turno jornalístico às 14h.

Nesses dias de quarentena, quanto ao home office, para mim está tudo certo, pois esse é meu modo de trabalho há nove meses. Não precisei comprar álcool em gel para minha bancada porque há água e sabão por perto.

Quanto a não sair de casa, aí é outra história.

Mais que trilhas

Na quinta-feira (30) encarei uma trilha íngreme, uma hora e meia subindo rumo ao pico da Pedra Branca, um monumento natural da Grande Florianópolis, localizado em São José no limite com Palhoça. Não fui a passeio, mas a trabalho.

Sugeri ao editor uma pauta sobre o Morro da Pedra Branca que é visto de vários pontos da região. A sugestão foi minha, então eu que lutasse para fazer a reportagem. E assim foi.

O sol estava entre nuvens e isso amenizou o calor na trilha, que ocorreu sem problemas. A vista lá do alto é espetacular e todo o esforço foi recompensado.

Subindo rumo à Pedra Branca

No sábado seguinte (1), fui para outra trilha. Dessa vez a passeio, sem compromisso com conteúdo. Os parceiros não eram mais o colega fotógrafo e o guia personagem. A Trilha do Gravatá, no Sul da Ilha de Santa Catarina, era novidade para mim, o Zé Carlos e a Josy.

Pensa num lugar fantástico, não a trilha, o final dela. Lindo, lindo, lindo.

Chegar à Praia do Gravatá, tomar banho no mar azul de águas frescas valeu cada pisada durante um pouco mais de uma hora.

Josy encarando a Trilha do Gravatá

Quis as circunstâncias que a lembrança dessa primeira ida ao Gravatá fosse além da paisagem. Anotamos no livro aberto para 2020 o dia em que o Zé Carlos passou mal e foi resgatado pelo helicóptero da Polícia Militar.

Foi como um filme: Uma trilha no meio do mato dentro de uma metrópole, com uma praia paradisíaca, um salvamento de helicóptero com atendimento digno de todos os elogios.

Agora quando eu passar perto do Gravatá vou me lembrar do Águia chegando para salvar o Zé Carlos, assim como desde o dia 30 penso “já estive ali em cima” quando meus olhos alcançam o Morro da Pedra Branca.

A primeira vista da Praia do Gravatá

Pais ou servos?

Você provavelmente já presenciou uma cena semelhante. No restaurante entra um casal com uma criança, que vai de um lado a outro escolhendo uma mesa para o jantar. “Não, não. Aqui não, é melhor ali”, determina o menino (ou menina), para logo mudar de ideia. O garçom morde os lábios, revira os olhos – mesmo que disfarçadamente, mas você percebe, porque está fazendo o mesmo.

E situações assim se repetem no transporte, seja no avião durante a viagem de férias ou o ônibus escolar, no supermercado (eu queeeero!!) e por onde quer que eles estejam. Eles, os pais sem autoridade e os filhos “dominadores”.

As crianças se aproveitam da permissividade dos pais para agir como bem entendem e assim satisfazer suas vontades, que podem ser apenas mostrar quem manda.

Para esses pais, a criança é alguém com gênio forte, cheio de personalidade. Para os filhos deles, o pai e a mãe são seus realizadores de vontades.

No final de semana presenciei um menino de uns cinco anos fazer os avós de bestas indo de um canto a outro do restaurante escolher a mesa. Isso me fez lembrar de quando meu filho, então bem pequeno, após uma ordem minha (isso mesmo, ordem), perguntou entre os dentes:

– Quando vou mandar na senhora?

– Nunca, porque sou sua mãe e isso nunca vai mudar nessa vida.

Não é por acaso que somos pais. Estivemos na posição de filhos crianças e adolescentes e tivemos bons pais – e não amigos – para sermos educados. Que tal repetir a fórmula com os que estão sob nossa tutela?

Ah, sim. É claro que em alguns casos é preciso algumas adaptações e correções no roteiro. O tempo da vara de goiabeira ficou no passado e deve morrer por lá.

Breve história da Atena

Ao abrir as cortinas do quarto na manhã de sexta-feira (17) vi na calçada do vizinho um cachorro desconhecido. Corri para saber quem era e logo percebi que ele estava com uma patinha machucada. Fui conversar com ele, que fugiu mancando. Após muita insistência voltou desconfiado e então soube que era ela.  Dei ração, água, atenção e recebi muitos sorrisos.

O dia seguiu cheio de afazeres e Charlote não saia de meus pensamentos. No início da tarde consegui sair para procurá-la e a encontrei sendo alimentada por um casal de jovens, que recém-mudou para a outra rua.  Ficou combinado que no sábado cedo eu iria levá-la ao veterinário e que o nome dela seria Atena e não Charlote. Aceitei a “sugestão” do João Pedro, padrinho da resgatada.

A noite foi insone. O medo da experiência que tive com o Petit Gateau se repetir parecia um fantasma me perseguindo pelas portas do sono. No sábado, o sol chegou aquecendo meus planos.

Quando a conheci na sexta-feira. Patinha machucada foi a isca do amor

Foi no consultório veterinário que percebi o quanto Atena estava suja, com o corpo machucado e infestado de pulgas e carrapatos, as orelhas e os olhos aparentemente lesionados pelo sol ou por parasitas (ou as duas coisas). Primeira suspeita foi de anemia e doença do carrapato.

Não tinha pretensão alguma de adotar mais um animal. Argus e Azula são nossos queridos mascotes e ocupam um bom espaço da casa e de nossas vidas. Mas como ignorar a Atena tão indefesa, machucada, assustada e com dores? Não pude.

Atena vai continuar tomando uns comprimidos por duas boas semanas. Logo que estiver recuperada da anemia e da infecção, será vacinada e castrada.

Desconheço a vida pregressa dela. Pode ter sido abandonada ou mesmo ter fugido de casa, como saber? O que importa é que ela está bem. Se tem alguém procurando por ela que a encontre logo, antes que o laço fique mais apertado e eu tenha que desatá-lo em lágrimas.

Na terça-feira, segundo dia no novo lar, a aparência está saudável

Primeira tattoo de 2020

Foi num intervalo de almoço em 2015 que eu decidi fazer uma tatuagem. Decidi e fiz. Liguei para o tatuador indicado por um amigo, que estava – que sorte a minha – com horário vago por desistência de um cliente. Tatuei o perfil de um dachshund em homenagem ao Argus Maximus e desde então não parei mais.

Em três viagens consegui ser atendida por tatuadoras super-talentosas. Em Taubaté marquei minha paixão por viajar. Em Salvador, guardei o carinho pelo Nordeste num potinho e também tatuei a loba da liberdade. O São Francisco com o Argus no colo foi tatuado em Curitiba.

Em 2018 devo ter feito umas quatro tatuagens.  Ano passado, na cidade nova, fiz apenas uma. Marquei na pele a Ponte Hercílio Luz e as Caixas d’Água, homenagem a Florianópolis e Porto Velho. Obra do meu primo Muriel, o Curumex – que retratou a minha ideia com criatividade.

Há uns três meses estava com outra ideia fixa, mas não sabia a quem recorrer. Surgia na minha mente uma girafinha fofa comendo pipoca. Eu gosto muito de girafas e sou dependente de pipoca e então imaginei juntar essas duas queridas. A espera foi recompensada no sábado (18).

Girafinha pipoqueira

Ainda não sei se o porquê das tatuagens vai além do simples gostar. Enquanto não for proibido ou me fizer mal, continuarei rabiscando a minha pele.

Sem remorso e adiante

Na estrada da vida não devemos perder tempo na rotatória do remorso e nem nas encruzilhadas da mágoa.

O tempo perdido em remordimentos nos aprisiona no passado e o caminho para o futuro não tem retorno. É sempre adiante. O trajeto é construído durante a caminhada e os atalhos são armadilhas. Se caiu nelas, reveja o mapa e siga em frente.

Quanto antes nos livrarmos do remorso, da culpa e da mágoa mais leves ficaremos para a jornada.

Se errou, se desculpe. Se foi magoado, perdoe.

Compaixão salva vidas

Há alguns dias voltando para casa vimos de longe uma mulher andando apressada e aparentemente desnorteada.  Ao nos aproximarmos percebemos que ela chorava e apertava as mãos. Não deu tempo de pensar duas vezes, desci do carro e corri ao encontro dela. A passageira de um outro carro fez o mesmo.

Nos aproximamos da mulher oferecendo auxílio. Ela nos empurrou, disse que não aceitaria ajuda porque não nos conhecia. Insistimos e então ela começou a gritar. Instintivamente a abraçamos. Repetíamos sem parar que estávamos ali para ajudá-la, que ela não estava sozinha. A mulher desmaiou em nossos braços.

A moça que estava comigo sentou no asfalto das 13h e ajeitou a cabeça da desconhecida no colo. Eu massageava as mãos daquela mulher que sofria. Impossível não pensar no que teria acontecido.

Violência doméstica, desespero diante de uma doença, desesperança? O que interessava para quem parou e se dispôs a ajudar uma estranha foi pensar no outro, ter compaixão pelo sofrimento alheio.

Pensei no quanto essa mulher teve sorte de ter sido atendida por pessoas que se importaram com seu bem-estar. Quase uma hora depois a ambulância chegou e a levou para atendimento médico.

Torço para que ela esteja bem, que tenha resolvido os problemas que a angustiavam e que agora acredite que não está só.

Para todos nós eu desejo que tenhamos compaixão pelo outro e que na nossa caminhada possamos encontrar pessoas que nos auxiliem pelo simples motivo de se importarem.

Entrevistas e latidos

Minha primeira experiência com home office foi há muitos anos, quando atuei como freelancer. Recebia a demanda e me organizava para entregar dentro do prazo.  Muitas vezes trabalhei até tarde da noite, atendia a vários clientes ao mesmo tempo.

Meu atual contrato de trabalho é home office, mas com algumas diferenças. Tenho horas a cumprir e ponto a registrar. Dois domingos ao mês trabalho na redação, em Florianópolis.

Ocupo um canto da sala com notebook, telefone, cadernos, blocos e canetas.  E vez ou outra meu espaço de trabalho é invadido por uma Azula carente que deita no meu colo ou coloca a cabeça no meu ombro. Faço um carinho rápido e a despeço.

Azula me observa enquanto trabalho

Dias atrás, meu telefone tocou e a Azula ficou em alerta. Aguardou eu atender a ligação, falar alguma coisa com o interlocutor para então se espreguiçar e soltar um bocejo demorado e barulhento.

“Oi? Não entendi”, disse a pessoa do outro lado da linha.

Noutro dia, estava no meio de uma entrevista Azula e Argus resolveram latir como se o mundo estivesse em chamas. A pessoa riu e eu pedi desculpas. A resposta me tranquilizou: “Tudo bem, eu tenho três”.

Empatia é tudo.

De volta às ruas

Hoje foi meu primeiro plantão de final semana. A pauta é um assunto conhecido por mim, uso proibido de cerol, mas o local da cobertura totalmente novo: a beira mar de Florianópolis. Por enquanto quem ganhou no quesito “quem diria” foi a pauta que eu fiz sobre a estiagem rigorosa nos rios de Santa Catarina. Eu, do Norte, falando sobre estiagem do (e no) Sul. Parece nada, não é?

Durante a semana também conversei com famílias de refugiados da Venezuela, escrevi sobre estacionamento rotativo, lixo nas ruas, serviço de correios. Nada novo, além da empresa, o local e as expectativas.

Primeira pauta na rua. Assunto: lixo na Via Expressa

 

Dinâmica da felicidade

“O que te fez feliz hoje?”, essa pergunta e as dezenas de respostas que se seguiram a ela me fizeram ter certeza de que a vida é feita de momentos muitos singelos aos quais damos alguma importância. Mas não é sempre que estamos conscientes de que algo como tomar café da manhã sem pressa pode ser prazeroso. A pergunta fazia parte de uma dinâmica de grupo da qual participei.

A minha resposta foi: “Ter dirigido de casa até aqui. Moro em São José e é a primeira vez que dirijo na Ilha na hora do rush!”.

E os momentos de felicidade foram os mais variados: ter dado conta de cumprir todas as tarefas que se propôs para aquele dia; ter conseguido chegar a tempo à reunião mesmo saindo com pouca antecedência; ter entregue a dissertação; ter finalizado o TCC; ter reencontrado um amigo de infância que não via há anos; ter conversado um tempão com uma irmã ao telefone…

E foram quase 50 motivos de alegria, felicidade, bom ânimo. E há milhares deles.

A vida é simples e a dinâmica da felicidade – essa “mais fácil”, não aquela que ficará mais para adiante, está em observarmos e estarmos presentes em cada momento.

A nossa presença em nossa própria vida faz diferença.