A mudança e a ponte

No dia 30 de dezembro de 2018 saímos de Porto Velho rumo à São José. Não tínhamos casa, o plano era chegar, visitar imóveis previamente selecionados, escolher e então nos mudarmos. Tudo isso em uma semana. Os primeiros dias não foram fáceis, apesar da vista. Mas como sempre acontece, as coisas se ajeitaram.

Um ano após o início da mudança de cidade estávamos, Zé Carlos e eu, comemorando a volta da Ponte Hercílio Luz. Aquela beleza de estrutura pela qual somos apaixonados. Uma ponte que para nós, assim como para outras pessoas, é o carimbo mais querido no passaporte das férias.

Essa ponte representa um desejo que nasceu em janeiro de 2012 quando do nosso primeiro encontro nessa vida com Florianópolis. Quase oito anos depois, lá estávamos nós e umas 50 mil pessoas festejando a reinauguração do ícone.

A volta da ponte é uma significativa comemoração a esse primeiro ano de nossa corajosa resolução de termos saído do cômodo para o desconhecido.

Nós na Ponte Hercílio Luz

Para quê relacionar males?

Vi há alguns dias vários tweets em que a pessoa cita o nome, a idade e lista os problemas de saúde. Não sei o que motivou a corrente de patologias pessoais.

Alguns tweets me deram a sensação de que o paciente tem até gosto em falar que tem uma doença pouco conhecida – pelo nome. Utilizam a nomenclatura médica para problemas comuns (que são ruins, mas comuns), como a bendita cólica menstrual e seus acessórios.

Essas publicações me fizeram lembrar como eram as conversas entre uma vizinha e a minha mãe. Dona Helena sempre tinha um rosário de lamentações após o convencional “tudo bem?”. E então começava a disputa de quem estava com o problema mais grave e de nome mais difícil. Já repararam que elas (as pessoas adoecidas) falam fluentemente o doentês?

As doenças estão aí, são bem democráticas. Eu tenho algumas mas não são de estimação.  Meses atrás fui à minha primeira consulta médica em São José. Ao final da conversa, precisei voltar e sentar novamente para contar ao médico um problema relativamente sério (e comum) que eu tenho – e não é o esquecimento.

Foi um problema de saúde que me fez reavaliar hábitos e atitudes. Não quero focar meus pensamentos em dores e suspeitas. Sou grata pelo despertar trazido por aqueles dias difíceis. E para por aí. Não vou ficar relacionando males, se posso contabilizar o que tem de bom na vida.

De volta às ruas

Hoje foi meu primeiro plantão de final semana. A pauta é um assunto conhecido por mim, uso proibido de cerol, mas o local da cobertura totalmente novo: a beira mar de Florianópolis. Por enquanto quem ganhou no quesito “quem diria” foi a pauta que eu fiz sobre a estiagem rigorosa nos rios de Santa Catarina. Eu, do Norte, falando sobre estiagem do (e no) Sul. Parece nada, não é?

Durante a semana também conversei com famílias de refugiados da Venezuela, escrevi sobre estacionamento rotativo, lixo nas ruas, serviço de correios. Nada novo, além da empresa, o local e as expectativas.

Primeira pauta na rua. Assunto: lixo na Via Expressa

 

Dinâmica da felicidade

“O que te fez feliz hoje?”, essa pergunta e as dezenas de respostas que se seguiram a ela me fizeram ter certeza de que a vida é feita de momentos muitos singelos aos quais damos alguma importância. Mas não é sempre que estamos conscientes de que algo como tomar café da manhã sem pressa pode ser prazeroso. A pergunta fazia parte de uma dinâmica de grupo da qual participei.

A minha resposta foi: “Ter dirigido de casa até aqui. Moro em São José e é a primeira vez que dirijo na Ilha na hora do rush!”.

E os momentos de felicidade foram os mais variados: ter dado conta de cumprir todas as tarefas que se propôs para aquele dia; ter conseguido chegar a tempo à reunião mesmo saindo com pouca antecedência; ter entregue a dissertação; ter finalizado o TCC; ter reencontrado um amigo de infância que não via há anos; ter conversado um tempão com uma irmã ao telefone…

E foram quase 50 motivos de alegria, felicidade, bom ânimo. E há milhares deles.

A vida é simples e a dinâmica da felicidade – essa “mais fácil”, não aquela que ficará mais para adiante, está em observarmos e estarmos presentes em cada momento.

A nossa presença em nossa própria vida faz diferença.

O lixo na TV

A TV do laboratório estava ligada e sem som (ainda bem) num programa que repetia a imagem do prefeito que ficou ferido ao acender uma fogueira. Antes de conseguir uma cadeira fora do alcance das imagens desnecessárias, vi legendas que chamavam atenção para uma diversidade de casos de violência, tragédia e infelicidade.

Eram 7h, a recepção estava lotada e a programação que, parece, anunciava o fim do mundo, era acompanhada por algumas pessoas. Talvez se houvesse som a audiência fosse maior. Primeiro impacto é o nome do programa. Nunca havia ouvido falar. Até pensei ser local, mas ao chegar em casa e pesquisar vi que se trata de um nacional do SBT.

O canal do Silvio Santos, que praticamente extinguiu o jornalismo de sua grade, mantém um programa matinal de péssima qualidade ancorado no sensacionalismo e na preferência do público que consome sorrindo a desgraça alheia.

Em uma hora é possível observar muitas coisas. As pessoas que assistiam àquilo não tinham um celular nas mãos. As que não acompanhavam a sanguinária matinal estavam ocupadas em distrair crianças ou se (des)informando pelo Whatsapp. E eu observava tudo fazendo meu julgamento travestido de análise social.

Receita de bolo de macaxeira feito com aipim

Hoje fui ao mercado comprar aipim para fazer um bolo de macaxeira. Mas eu nunca havia preparado um bolo de macaxeira, apesar de ser um dos meus prediletos. Sempre achei que dava trabalho demais e nunca prestei atenção em como irmãs e amigas preparavam. Após chegar em casa busquei no caderno de receitas do mundo um modo de fazer com o qual eu concordasse. O quê? Meia dúzia de ovos para fazer um bolo? Dançar ao redor do forno? Não, não dá.

Às vezes tenho a impressão que algumas pessoas gostam de dificultar algo simples para mostrar o quanto são abençoadas com o dom de cozinhar (ou qualquer outra habilidade). Eu não tenho a menor paciência com conteúdos assim.  Por isso, fiz o que uma pessoa com certa experiência em preparar bolos para o café da manhã faria: adaptei.

Minha receita: Primeiro ralei a raiz (1 kg) comprada como aipim – que após estar em minha posse passa a ser chamada de macaxeira. Após tudo ralado e meus bíceps bem malhados, juntei no liquidificador 3 ovos, uma xícara de óleo e outra de leite, uma xícara de açúcar. Bati tudo e depois aos poucos fui acrescentando a macaxeira ralada. Transferi a massa para uma bacia, provei, acrescentei um pouquinho mais de açúcar e uma colher (café) de sal. Adicionei 50 gramas de côco ralado. Mexi tudo. Liguei o forno, untei a fôrma (retangular grande, não me pergunte por diâmetros, por favor) e voltei à massa para acrescentar uma colher (sopa) de fermento. Transferi a massa linda, cheirosa e com cara de quem teria sucesso na vida para a forma e coloquei no forno a 180ºC. Após 50 minutos assando, tempo que utilizei para aplicar uma máscara nos cabelos, o bolo estava pronto para ser admirado e saboreado.

Meu bolo de macaxeira

O resultado:  Quando cortei o primeiro pedaço pensei: “Meu Deus! Tá com cara que deu certo!”. Ele estava fofinho e cremoso ao mesmo tempo. Uma emoção tão grande me invadiu ao experimentar aquele simples pedaço de bolo que eu estremeci. O sabor era perfeito, tipo um mingau em forma de bolo – exatamente do jeito que eu gosto. Uma vitória, sem dúvida.

Essa receita preparada no meio da tarde de forma desprentenciosa me trouxe algumas reflexões. Uma delas: como saber se não tentar?

Porque eu amo junho

O céu azul com poucas nuvens e a lua aparente, o ar mais leve. À noite, as estrelas brincam para ver quem é a mais brilhante. Daqui, sinto o coração acariciado por sentimento de alegria e gratidão. Junho é assim para mim desde sempre.

No início havia mais: brincar perto da fogueira, fazer promessas de amizades, dançar quadrilha, comer paçoca e bolo de milho, ah, claro! e muita pipoca. Depois as visitas aos arraiais, o passeio pela cidade para ver as fogueiras de São João. Mais recentemente, organizávamos uma festa em casa, em Porto Velho, onde tínhamos delícias da culinária junina e o melhor que há na vida: amigos. O Arraiá Duzamigo era, principalmente, a minha expressão sobre junho.

Neste ano, o sentimento íntimo não é diferente, o que muda é o ambiente em comum. Não há os festejos como eu conheço, a tradição de arraiais e quadrilhas não faz parte da cultura de São José e Florianópolis. Após muita pesquisa, nada consegui saber sobre eventos juninos. Mas, por acaso, ouvi um carro de som anunciando um arraial. E lá fomos nós. Desnecessário dizer o quanto estava ansiosa para conhecer o hábito festivo do Sul.

Um dos muitos arraiais

A primeira diferença é o horário: aqui as festas começam à tarde para acabar à noitinha. Pelo menos nesse arraial de uma creche comunitária não havia mingau de milho, curau ou arroz doce. O bolo de milho devia ser fantasia. E mesmo assim eu adorei! Tinha pinhão e amendoim na casca, cachorro-quente e paçoca. Que maravilha! Toda a festa tinha como objetivo um bingo de mil reais. Toda comunidade ansiosa para levar a dinheirama para casa. Enquanto não começava a disputa pelas notas, fizeram rifas de bolos, doces e bebidas.

No próximo junho, a festa será em nossa casa. Um arraial com sabores do Sul temperados com recordações do Norte. Anarriê!

Para não esquecer

Petit Gateau iria hoje ao petshop para um dia de beleza e saúde. Tosar a cabeleireira, tomar vacinas, ficar saudável e lindo. Nas duas últimas semanas ele tem sido um menino teimoso, recusa a presença de humanos e foge como se estivesse diante do próprio coisa ruim. E talvez estivesse mesmo. A espécie que é a racional da Criação e que descarta um ser vivo indefeso como se lixo fosse realmente não merece consideração.

Como o peludinho saberia que eu queria apenas salvá-lo das intempéries da vida? Que se aceitasse meu convite estaria em uma casa junto com dois outros iguais, Argus e Azula? Dia após dia eu tentava conquistá-lo mas ele não me dava ouvidos. Corria feito o Papa-Léguas do Coiote.

Finalmente tive a ideia para o plano infalível de resgate. Adicionaria gotas de calmante, aquelas que dei aos cães durante a mudança, na água e ração. O cãozinho dormiria e então eu o levaria para sua nova casa.

Não houve tempo. O atropelamento tirou do bichinho a chance de uma vida feliz. Petit Gateau partiu sem nem mesmo ouvir seu novo nome. Não pode ouvir a minha promessa de que teria uma vida segura, como seus novos irmãos Argus e Azula e de que nunca mais seria abandonado à infeliz sorte.

Numa manhã ensolarada de outono eu senti a dor da impotência diante do destino. Eu tentei mudá-lo, mas fracassei.

Mudei de estado e de vocabulário

Pernilongo, muriçoca, carapanã, mosquito. Como você chama esse bichinho azucrinante? Antes que você responda: “eu não chamo, ele vem sozinho”, vou tentar “adivinhar”. Se você mora no sul, sudeste e centro-oeste do país, possivelmente, esse insetinho seja o pernilongo. Caso more no nordeste, o dito cujo é batizado de muriçoca. No entanto, quem mora na região Amazônica, no norte do Brasil, o bicho é chamado de carapanã.

Ontem percebi que tenho chamado de mosquito a todas essas pestinhas minúsculas. Meses atrás eles eram carapanãs. Parei para refletir sobre essa mudança e acho que alterei o sinônimo irrefletidamente para me adequar à região onde hoje eu moro, na Grande Florianópolis.

Assim como precisei renovar o guarda-roupas com peças invernais, adotei palavras conhecidas mas que não eram utilizadas por mim, como aipim, chuleta, mexerica – para ficar só na feira. Eu não vou me aferrar a um vocabulário que não colabora com minhas atividades cotidianas. Portanto, dicionário portovelhês, ou nortista, só quando estiver conversando com falantes – ou entendidos – dessa variação de falares brasileiro. Ou seja, em casa.

A língua não é produto pronto e acabado e, por isso, se renova o tempo todo e quem faz isso somos nós, os falantes. Como a posição social ou a raça, a língua também separa. Ou melhor, os falantes a usam como régua para medir o que importa dentro de suas suposições preconceituosas. Ninguém é mais ou menos por falar macaxeira ou mandioca; nóis vai ou nóis veio; vendimo ou vendemos. Mas isso é assunto para outra conversa, visse nêgo?

Na feira, deixei escapar: “Nossa! que maracujá maceta*!”

*maceta= muito grande, em portovelhês.

Eles não foram com a minha cara

Fui à Unidade Básica de Saúde do bairro para me cadastrar e marcar consulta com um clínico geral. O primeiro atendente exigiu certidão de casamento para provar que eu moro no endereço apresentado. Voltei em casa e peguei o documento e, claro, nova senha. Fui atendida por outro que disse que eu teria que esperar a visita de agentes de saúde para então marcar a consulta. “Moço, meu marido foi atendido pelo médico no mesmo dia em que esteve aqui. Não foi nenhum agente em casa até hoje”. Ele me fuzilou com o olhar e voltou a mexer nos papéis que eu havia entregue. “Ah, aqui está a certidão de casamento”, disse, como se eu já não tivesse apresentado o documento a ele no início do atendimento.

Preencheu algumas fichas, fez meu cartão de paciente e então perguntou: “A senhora quer consulta para quê? É algum check up?”. Para não ser jogada em uma consulta somente em junho ou 2020, respondi: “Tenho um tumor na cabeça e preciso de acompanhamento”. Pronto. Consulta marcada para segunda-feira, às 10h.

Sinceramente, eu nem lembrava do tumor e que preciso refazer os exames para ver como está o bichinho. Queria apenas que o médico avaliasse uma “lombada” que apareceu na minha coxa. Mas, se eu respondo isso, ele poderia me mandar procurar um especialista particular.

Cheguei em casa e contei o acontecido. Esses dois funcionários foram os mesmos que atenderam ao Zé Carlos “muito bem” semanas atrás.

E teve mais. Na sala de vacina contra Influenza, dei o braço para ser picado, mas a vacinadora pediu o glúteo. “Ué? Mas não é o braço?”, perguntei. “O certo é o glúteo, fazem no braço, mas não é o correto”, respondeu, enfática.

Adivinha? Isso mesmo, o Zé Carlos foi vacinado, por essa mesma funcionária, no braço e recebeu até algodãozinho.

Eles não foram com a minha cara.