O Natal de 1984

Numa noite de Natal de 1984 eu e minhas irmãs Aerllen e Kárita tivemos um encontro inesperado. Fomos com nossos pais para a ceia na casa de uns amigos num bairro distante do nosso. Dona Ester e seu Zé, gente boa toda a vida, foram nossos vizinhos por muitos anos, nem sei quantos. Mudaram-se e continuamos chamando de vizinha e vizinho. E eles pelos nossos apelidos infantis.

Lembro-me que brincamos muito, corremos pelo pátio enorme da casa, onde hoje é o consultório de um dos filhos do casal querido. Na hora de voltar para casa, tanto queríamos ficar para brincarmos mais quanto queríamos ir para casa encontrar os presentes sob a árvore.

Como se fosse agora, sinto minha roupa suada no corpo, meu cabelo liso colado na testa. Recordo de minhas irmãs falantes, tentando adivinhar o que ganhariam. Meus pais sorriam com nossa ansiedade. Quem visse aquele fusca cinza cruzando Porto Velho não imaginaria o que estava para acontecer em alguns minutos.

Quando o papai estacionou o fusquinha em frente de nossa casa, corremos pelo jardim para chegarmos logo à sala. Mas não conseguimos avançar e paralisamos diante da porta. Pelo vidro vimos ele do jeito que imaginávamos que fosse. Forte, alto, vestido de vermelho dos pés à cabeça. Foi um alvoroço. “Papai Noel! O Papai Noel está lá dentro! Abre logo a porta, mamãe!”, gritamos. Entre gritos e choro, ele se foi.

Enquanto escrevo, tento lembrar quais presentes ganhamos. Inútil. Aerllen lembra de uma boneca grande de plástico e só. Kárita não tem muita certeza sobre aquela noite. Minha mãe é categórica: “Lembro como se fosse hoje. Eu também vi o Papai Noel”. Ela não sabe quem era aquela figura. A certeza que ela tem é que um espírito amigo nos presenteou com um momento especial.

Quando soube que o Papai Noel como conhecemos não vive no mundo dos adultos, passei a pensar que, por algum bom motivo desconhecido por nós, fomos presenteadas com um encontro com o personagem que representa bondade, carinho e presentes.

Até hoje não havia conversado com minha mãe sobre aquela noite. Gostei de saber que temos essa mesma impressão sobre o Natal de 36 anos atrás. O Bem existe e está por aí. Naquela noite ele se vestiu de Papai Noel.

(A foto é ilustrativa. Tirada, possivelmente, em 1980)

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