O inferno sou eu mesma

Vem de longe um choro que é cortado por soluços e ‘ais’. Tento me aproximar para ver quem sofre e oferecer ajuda mas não consigo. Agora há gritos e xingamentos. Recuo com medo e percebo que estou num ambiente escuro que não reconheço.

“Cadê o meu quarto, onde está a minha casa?” – pergunto a mim mesma tentando entender o que se passava. Quero ordenar meus pensamentos mas o choro desconhecido está mais alto e o local mais escuro.

O pavor começa a invadir meu corpo. Resisto. Prendo a respiração por alguns segundos, inspiro e expiro na tentativa de trazer luz à razão que, eu sei, não me abandonou.

E assim, aos poucos, o meu medo diminui. Estou de volta ao meu quarto perfumado e iluminado pelo sol. Sinto-me confortável e segura no ambiente que reconheço como meu. Procuro atentamente ouvir o choro que havia me tirado dali. Ele não cessou, agora está tão baixo e não tenho certeza se realmente ouço algo.

Refaço meus passos para entender o que houve e me vejo num dia lamentando por algo que não tenho controle, e noutro momento dando razão à raiva de alguém. Teve uma ocasião em que uma opinião contrária à minha me abalou e numa tarde eu perdi a pose ao tentar convencer alguém sobre alguma coisa.

A última gota para o desequilíbrio foi esquecer de quem sou e me preocupar em ser o que queriam que eu fosse.

Percebo que o que me levou àquele quarto escuro foi eu mesma pelas escolhas que fiz. Por ter esquecido de mim e do que realmente importa. Isso aconteceu pela primeira vez há mais de 20 anos. Saí do quarto escuro e me senti cheia do poder de ser eu mesma.

Há algum tempo não tento mais abafar o choro baixinho que ouço. Ele é o lembrete das minhas imperfeições me dizendo: “melhore!”

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