Com sabor e afeto

Quando eu estava no jardim de infância, levava na lancheira pão com manteiga e nescau. Às vezes quando sinto um aroma parecido o tempo para e eu volto àqueles dias. Eu não lembro nada de quando tinha quatro anos de idade e estudava no Branca de Neve. Minha única recordação é do cheiro de manteiga misturado com o doce do achocolatado.

Certa vez, eu estava na quarta série, peguei um toró no caminho na volta para casa. Ao chegar, após tomar banho e trocar de roupas, recebi uma xícara de nescau. Naquele dia eu lembrei da lancheira infantil onde às vezes eu derramava o achocolatado e secava com a toalhinha. Há muitos anos eu não gosto mais de nescau, inclusive me faz mal. Mas aquele cheiro jamais esqueci e pretendo tê-lo comigo até o fim da vida. Ele me conforta.

Minhas lembranças afetivas estão cheias de cheiros e sabores. Lembro do sabor do biscoito de polvilho feito pela minha avó, mãe do meu pai. Nossa, senti o cheiro agora! A panela cheia de óleo quente e ela fritando os biscoitos para levarmos na marmita da longa viagem de Campo Grande a Porto Velho. Ela preparou também linguiça (feita por ela!) com farofa. Tenho um flash de estarmos, meu pai, duas irmãs e eu, na rodoviária de Cuiabá comendo a marmita da vovó.

Um clássico do final de semana era o frango assado, macarrão e farofa. Chegávamos do banho (balneário, em portovelhês) cansados após um dia de brincadeiras na água do rio ou de algum igarapé. Antes de irmos dormir, misturávamos o almoço do passeio, comíamos e íamos felizes para o quarto. Já tentei fazer essa mistura, mas não ficou igual porque eu não aprendi a fazer a “farofa do papai”. Acho que mesmo que eu soubesse fazer uma farofa como aquela resultaria em nada a tentativa de recuperar essa lembrança feliz. O virado do final do passeio só era gostoso porque representava o encerramento de um dia agradável, alegre, ensolarado.

No final das contas, somos nós que damos o valor para o que vivemos. A lancheira com pão e nescau é meus pais cuidando de mim. O nescau após a chuva é a atenção que sempre recebi deles. O biscoito de polvilho e a linguiça com farofa é a representação da avó que eu gostaria de ter tido mais perto, mas que não pude e então guardei tudo sobre ela nessas lembranças. O almoço no banho é o retrato de uma infância feliz, com meus pais e meus irmãos, todos juntos. É a minha família num potinho de amor com gosto de esperança.

Bolo de cenoura com cobertura de chocolate feito pelo João Pedro. Já está no cardápio de recordações.

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