Preconceito dói

Meu avô materno era indígena do Amazonas, minha avó materna era negra filha de escravos da Bahia. Meus avós paternos eram brancos do interior de Minas Gerais. Minha mãe tem traços indígenas e meu pai tinha cara de europeu. Eu nasci parda, cabelos negros e espetados. Minha irmã depois de mim tem a pele e os cabelos claros e a depois dela é morena. E foi nessa escadinha entre um de cabelos pretos e outro de cabelos loiros que meus pais formaram uma vitrine da miscigenação brasileira.

No Norte do Brasil, onde nasci, é muito difícil encontrar uma família que não seja formada por todas as raças dessa imensa nação. Porto Velho é um grande recorte da nossa mistura de nacionalidades, raças, crenças e origens. Assim como são outras cidades que nasceram a partir de um grande empreendimento estrangeiro. Essas diferenças que nos tornam parecidos – afinal, somos um pouco de cada um – poderiam unir, mas afastam. Eu vivi isso.

Minha “cara de índia” não era o motivo das chacotas. O meu pai ser branco e eu morena sim. Minha mãe ser indígena e meu pai branco loiro sim. Eu não gostava (quem é que gosta?) de que falassem que ele não era meu pai ou que minha mãe não podia estar casada com ele. Isso me deixava triste, mas nunca me abalou da forma como me destroçava ver minhas amigas negras serem desrespeitadas.

Lá pelos 15 anos eu tive uma amiga na escola cuja família era do interior do Maranhão. A mãe dela, mulher gentil e valorosa, era negra e criava sozinha essa minha amiga. Fazia tudo o que era possível para que ela tivesse todos os livros, todas as oportunidades, para que a filha não precisasse se sujeitar a serviços pesados e pudesse sair do círculo “mulher negra, analfabeta e pobre”.

Lembro que chorávamos juntas quando ela, minha amiga, contou que uma menina da escola não a queria na “rodinha” porque ela era negra e gorda. Eu era descartada por ser pobre e não ter roupa para a festa. A sexta série foi um inferno para nós duas. Talvez por isso reprovamos, queríamos correr daquela escola de gente desumana.

Aos 18 anos abracei e chorei com uma amiga que queria morrer porque não conseguia deixar o “cabelo bonito”. Os cabelos negros e crespos sofriam com químicas e ferro quente e estavam caindo. Cabelo bonito para ela, há quase 30 anos, era como o meu, liso. Ela era xingada na escola. Minhas irmãs, eu e outros colegas a defendíamos das ofensas. A nossa amizade a tranquilizava, ela sabia que a amávamos.

Mas isso não basta para quem sofre preconceito, seja pela cor da pele, pelo credo (ou falta dele), pela orientação sexual ou situação social. Não importa. Todas as vezes que leio algo sobre preconceito lembro dessas minhas amigas. Especialmente elas porque eu as amava e a dor delas me atingia. Ter sido um dia xingada de cabelo de macarrão escorrido, de nariz de macaco ou de beiçola não é nada, absolutamente nada, diante do que essas duas mulheres enfrentam desde o dia que nasceram.

Não estou dizendo que indígenas, pobres, estrangeiros ou quem quer que seja possa ser xingado. Nada disso! Mas não dá para relativizar a opressão que as pessoas negras sofrem com o preconceito que, por exemplo, um pardo pobre sofre. Eu não sei como e quando deixaremos para trás o racismo, mas acredito que tudo começa pelo respeito ao outro. Isso poderá ser conquistado quando as famílias conseguirem educar pelo exemplo, mostrando com atitudes que a cor da pele é apenas uma questão de genética.

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