O portovelhês nosso de cada dia

Porto Velho completou ontem (2), 106 anos de fundação e hoje ao acordar meu segundo pensamento foi: queria tomar café lá no Mercado Central. Iria pedir mingau de banana com tapioca e uma tapioca com manteiga e castanha. Café para acompanhar. Taí uma saudade.

Uma coisa levou à outra e eu me lembrei de um texto que fiz para um caderno especial do Diário da Amazônia em homenagem ao aniversário de Porto Velho. Isso foi em 2007. Treze anos correram desde então. E esse texto foi o que me aproximou do Zé Carlos, o homem do Banzeiros – ou teria sido o contrário? Bom, isso é outra história.

Reproduzo abaixo o texto que também foi publicado no Overmundo e no Verdes Trigos em outubro de 2007.

“As influências recebidas no falar de Porto Velho podem ser explicadas através dos vários ciclos de ocupação que Rondônia passou e a origem dos migrantes que ajudaram na formação e ocupação das cidades e municípios nos respectivos ciclos e através da observação lingüística”. “A variação nos falares de Porto Velho” – Nair Ferreira Gurgel do Amaral

Falar de Porto Velho sem lembrar da fala cantada do porto-velhense é deixar uma lacuna. O falar do povo do rio Madeira é marcado por um sotaque melodioso e alegre, cheio de palavras herdadas do Nordeste brasileiro que, claro, passaram por transformações em seu significado, como provocar (= desafiar, Dicionário Aurélio), que em “portovelhês” significa vomitar.

Expressões genuinamente porto-velhenses ganharam simpatia e, até mesmo, maior carga de sentido do que o termo do qual seria sinônimo. Um exemplo emblemático é: “Hoje está quente ‘quissó’”. Para quem ainda não conhece, ‘que só’ significa algo muito mais que demais. Coisa de Porto Velho. Ou seja, não está quente demais, está muito mais do que quente.

“O ‘quissó’ é uma marca do falar porto-velhense”, afirma a doutora em Lingüística, professora Nair Ferreira Gurgel do Amaral, do Departamento de Línguas Vernáculas da Universidade Federal de Rondônia (Unir). Em 1999 ela começou uma pesquisa sobre ‘a variação nos falares de Porto Velho’, que ainda não foi concluída. O motivo não foi outro além da impossibilidade de se fazer um levantamento diante de tanta diversidade. Uma verdadeira colcha de retalhos.

Para se ter idéia da trabalheira, um grupo de lingüistas da Universidade de Campinas (Unicamp) está há cinco anos debruçado sobre palavras, sotaques, expressões…e nada! Os estudiosos querem fazer o mapa lingüístico não apenas de Porto Velho, o objetivo é traçar o de Rondônia. “Isso é impossível”, decreta Nair. Toda dificuldade está centrada na grande misturada de falares no Estado. Tem gente do Sul, do Centro-Oeste, do Nordeste, do Sudeste e do Norte.

Especificamente na Capital, as colaborações lingüísticas vieram dos Estados nortistas, principalmente do Pará e Amazonas, e do Nordeste. O sotaque local é, sem dúvida, herança dos nordestinos, especialmente os cearenses. Uma expressão coloquial com som característico do Ceará: “Ramupubanhu (= vamos para um banho). A palavra banho é um caso do vocabulário porto-velhense (ver box). Para quem não conhece, tem o mesmo significado de balneário. “Não há dúvida que a maior contribuição na linguagem de Porto Velho é dos nordestinos”, confirma a lingüista Nair Gurgel.

Beiradão sem cantigas de roda

A professora Nair Gurgel é orientadora do projeto Alfabetização de Ribeirinhos, da Unir, e diz ter ficado decepcionada com o que encontrou. “As crianças do beiradão falam exatamente como as crianças da cidade. Não há diferença”, lamenta. Ela conta que esperava encontrar crianças apaixonadas por nadar, pescar, subir em árvores e, claro, por cantigas de rodas.

“Não encontramos nem uma criança que conheça uma única cantiga!”, relembra. A tradição corre o risco de se perder. As musiquinhas de brincadeiras infantis não foram passadas a cada geração e a criançada do beiradão de São Sebastião só conheceu os versos de “fui no tororó beber água e não voltei” por meio das estudantes de Letras da Unir. E lá se vai uma página da Porto Velho bucólica.

Um pouco do peculiar vocabulário porto-velhense

Baladeira – estilingue
Banho – balneário
Benjamin – dispositivo que serve para ligar vários aparelhos elétricos em uma só tomada
Bregueço – coisa qualquer
Caba – maribondo
Capitão – bolinho de comida amassado com a mão
Esculhambar – destruir/quebrar/falar mal
Nome – palavrão
Papagaio – pipa
Pipocar – aparecer
Pisero – festa
Provocar – vomitar

Expressões usuais

Tu é leso é?
Iche, tá demorando que só!
Toma! Não disse que tu ia te lascar?
Maninho do céu!

As crianças e adolescentes porto-velhenses também têm um vocabulário próprio. A brincadeira mais rica em palavras é a peteca, que em Porto Velho é o jogo de bolas de gude.

Abirobado – doido
Abofitar – pegar (roubar) as petecas e sair correndo
Aluguel – mentira
Bolô – peteca de maior tamanho
Catar – movimentar a linha do papagaio, fazendo-o ganhar altura
Escalado – sujeito intrometido, que se oferece para ser convidado
Fona – último a jogar (no jogo da peteca)
Imbiocar – inclinar o papagaio para baixo
Marcando – vacilando
Morcegar – pegar carona nas traseiras de automóveis, principalmente ônibus
Queidar – derrubar papagaio

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