Um quarto apertado

Quando menina, dividia um quarto com minhas três irmãs. Anos depois, adolescentes, mudamos de casa. Era uma casa grande, com quatro quartos – mas estava na fase de acabamento, que deve ter durado uns 10 anos, talvez  menos. Já não éramos quatro. Tinha nascido o primeiro (e único) menino e a última irmã estava a caminho. Por uns três meses ficamos nós, seis filhos, com nossos pais em um quarto. Desnecessário enumerar os problemas e dificuldades que enfrentamos com tanto aperto e desconforto.

Minha mãe era, na época, auxiliar de enfermagem no Hospital de Base Ary Pinheiro e para aumentar (um pouco) a renda prestava plantões no Pronto-Socorro João Paulo II. Foram anos de corre-corre até ser forçada a parar por não ter condições físicas e emocionais para carga de trabalho tão pesada. Junta-se a isso crianças com graves problemas de saúde. Quem suportaria?

Meu pai era taxista, depois comerciante, depois fretista (de frete).  Trabalhava sem parar, eu me condoía ao vê-lo alquebrado após um dia exaustivo de preocupação em manter a família alimentada.

Nos duros anos do governo Sarney, quando a carestia tomou conta da vida de todos brasileiros pobres, a situação piorou. Quando era possível, comíamos peru – carne que até hoje desagrada meu paladar. Sendo eu a mais velha, ia cedo para a fila do açougue comprar essa ave pálida e sem sabor. É deste período que tenho uma lembrança de meu pai indo vender a única joia que ele tinha, uma pulseira que ele mandou fazer com pedaços de ouro e prata que eram perdidos no táxi dele. Ele foi a pé, pois não tinha dinheiro para a condução, de casa – no Jardim Eldorado – até a 7 de Setembro, no Centro.

Situações como essa, tenho certeza, formaram meu caráter e minha disposição para o trabalho correto, independente de qual seja, contando que seja honrado.  Não passei, ainda, dificuldades na vida adulta como meus pais. As que enfrentei não são nada diante do que eles viveram com os sete filhos. É possível que elas surjam, claro. Com tudo o que vivi até os 19 anos espero ter aprendido a manter a confiança, perseverar no bem e acreditar que o dia de amanhã sempre pode nos surpreender com o sol da solução.

2 respostas para “Um quarto apertado”

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