Entrevistas e latidos

Minha primeira experiência com home office foi há muitos anos, quando atuei como freelancer. Recebia a demanda e me organizava para entregar dentro do prazo.  Muitas vezes trabalhei até tarde da noite, atendia a vários clientes ao mesmo tempo.

Meu atual contrato de trabalho é home office, mas com algumas diferenças. Tenho horas a cumprir e ponto a registrar. Dois domingos ao mês trabalho na redação, em Florianópolis.

Ocupo um canto da sala com notebook, telefone, cadernos, blocos e canetas.  E vez ou outra meu espaço de trabalho é invadido por uma Azula carente que deita no meu colo ou coloca a cabeça no meu ombro. Faço um carinho rápido e a despeço.

Azula me observa enquanto trabalho

Dias atrás, meu telefone tocou e a Azula ficou em alerta. Aguardou eu atender a ligação, falar alguma coisa com o interlocutor para então se espreguiçar e soltar um bocejo demorado e barulhento.

“Oi? Não entendi”, disse a pessoa do outro lado da linha.

Noutro dia, estava no meio de uma entrevista Azula e Argus resolveram latir como se o mundo estivesse em chamas. A pessoa riu e eu pedi desculpas. A resposta me tranquilizou: “Tudo bem, eu tenho três”.

Empatia é tudo.

Para não esquecer

Petit Gateau iria hoje ao petshop para um dia de beleza e saúde. Tosar a cabeleireira, tomar vacinas, ficar saudável e lindo. Nas duas últimas semanas ele tem sido um menino teimoso, recusa a presença de humanos e foge como se estivesse diante do próprio coisa ruim. E talvez estivesse mesmo. A espécie que é a racional da Criação e que descarta um ser vivo indefeso como se lixo fosse realmente não merece consideração.

Como o peludinho saberia que eu queria apenas salvá-lo das intempéries da vida? Que se aceitasse meu convite estaria em uma casa junto com dois outros iguais, Argus e Azula? Dia após dia eu tentava conquistá-lo mas ele não me dava ouvidos. Corria feito o Papa-Léguas do Coiote.  Finalmente tive a ideia para o plano infalível de resgate. Adicionaria gotas de calmante, aquelas que dei aos cães durante a mudança, na água e ração. O cãozinho dormiria e então eu o levaria para sua nova casa.

Não houve tempo. O atropelamento tirou do bichinho a chance de uma vida feliz. Petit Gateau partiu sem nem mesmo ouvir seu novo nome. Não pode ouvir a minha promessa de que teria uma vida segura, como seus novos irmãos Argus e Azula e de que nunca mais seria abandonado à infeliz sorte.

Numa manhã ensolarada de outono eu senti a dor da impotência diante do destino. Eu tentei mudá-lo, mas fracassei.

Viagem de 120 horas com dois cachorros

Azula Dora Milaje, uma princesa com todas as raças <3
Argus Maximus, Dachshund ciumento e amoroso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nossa maior preocupação para a viagem de mudança era o Argus Maximus e a Azula Dora Milaje, nossos cãezinhos. Como eles reagiriam a 5 dias dentro de um carro sem passar mal, enjoar e nos incomodar, claro, com choro e birras? Pesquisamos sobre viagem de carro com cachorro e a maioria das experiências era de curta duração, nada perto das 120 horas que encararíamos.

Consultamos o veterinário deles, dr Pedro, que nos tranquilizou, receitou o remedinho abençoado (Acepran), atualizou o cartão de vacinação, deu os atestados para viagem e orientou para que fizéssemos paradas a cada 3h, se possível, de acordo com o comportamento deles. Pronto.

Inicialmente, cheguei a cogitar vir apenas com o Argus e Azula seguir de avião com o João Pedro. Ela é tranquila e o Argus é meio aperreado e muito apegado a nós. Mas não tive coragem. Pensei na possibilidade de ela passar mal, se soltar, morrer. Conversei com Zé Carlos e João Pedro e eles concordaram em virmos todos juntos no carro, 3.450 quilômetros de estrada. Esse número eu repito sempre. Tente falar em voz alta e você sentirá a força dos 3.450 km rs.

Argus nunca gostou de passear de carro. Nunca mesmo. Tem 5 anos e não se acostuma. Sempre que vê a nossa movimentação em preparar o carro para um passeio, fica agitado, aparentemente ansioso e, geralmente, pula para o banco traseiro e fica lá com carinha feliz (pelo menos é o que parece). Mas é só sairmos da garagem de casa que começa a gritaria, uivos, choro. Um escândalo até o pet shop. Na volta sempre volta tranquilo. Não entendo esse comportamento antagônico.

Azula, que dia 22/2 completará 1 ano, sempre fica tranquila no carro. Nos primeiros passeios à clínica veterinária babava muito, dr Pedro explicou que ela enjoava. Com o passar do tempo isso acabou, mas ela continua uma miss em comportamento.

 

No terceiro dia de viagem estavam mais amigos

 

Demos a dose de Acepran recomendada pelo veterinário e tudo seguiu bem. Saímos num domingo chuvoso de Porto Velho e em poucos quilômetros eles estavam dormindo. No carro estavam com peitoral preso ao cinto de segurança. Nada de caixas ou caminha. Forramos o banco do carro com mantas para que se sentissem confortáveis e seguros. Argus foi ao lado do João Pedro porque sente ciúmes da Azula.

A primeira parada foi em 100 quilômetros, no município de Itapuã do Oeste, para o café da manhã. Essa experiência não foi nada legal, pois a chuva continuava, mas nada que atrapalhasse. Não quiseram beber água e nem comer, acho que estavam meio sem entender o que estava acontecendo. Segue o baile.

Nosso pernoite naquele domingo, 30/12, foi em Vilhena. Ficamos no Hotel Colorado. Nessa acomodação eles podiam andar pelos corredores, sem necessidade de serem carregados no colo. Tudo tranquilo. Levamos as caminhas dele, bebedouros e preparamos um banheiro com jornais. Sonho de anjinhos até às 5h30, quando levantávamos e íamos passear com eles. Para comermos, um de nós ficava com eles enquanto 2 comiam, ou ao contrário.

 

Primeira noite da viagem. Dormiram tranquilos em suas caminhas

 

Nossas paradas não foram de 2 ou 3 horas. Era inviável isso e vimos também que não era necessário. Inviável porque não tinha onde parar e quando havia um bom acostamento, estava chovendo. Mas sempre que parávamos, o João Pedro caminhava e corria com eles. Até levou para passear num pasto, onde a Azula quis encarar uma vaquinha rs.

Quanto ao remédio,  demos as gotinhas para a Azula nos 2 primeiros dias. Percebemos que não era necessário, pois ela ficava quieta, dormia a maior parte do tempo. O tempo máximo que o Argus ficou sem o remédio foi 2h. Como disse, ele não gosta de carro.

 

Importante passear com os dogs em paradas programadas

 

Todos os hotéis foram reservados. Pesquisei na Booking os que aceitavam pets. Como as hospedagens eram na estrada foi mais fácil.  Os hotéis foram em Vilhena, Hotel Colorado; Várzea Grande, Marion Pantanal Hotel; Londrina, London Hotel; Joinville, Alpinus Hotel. Nesses dois últimos, eles deviam ser carregados no colo, mas isso não é demérito para as acomodações. Ainda bem que elas estavam na nossa rota!

Em Florianópolis ficamos hospedados na Casa do Sossego, em Cacupé, e ó, nota 10! Os dogs puderam correr, brincar, rolar na grama sem medo de serem enxotados. Muito boa a hospedagem para cachorrinhos e humanos.

Se você pretende viajar com seus dogs, vá sem medo. Apenas se organize, você conhece seus bichinhos, sabem como podem reagir, então esteja preparado. Importante dar água sempre, mesmo quando eles rejeitarem, insista – precisei fazer isso com Azula, a mais resistente. Leve brinquedos, mantas, objetos que eles gostam para que se sintam seguros. Quando parar, passei com eles, faça carinho, converse rs peça paciência porque “está quase chegando”. Ah, importante forrar bem o banco do carro. Acho que daqui a 10 anos ainda encontrarão pelos dessa viagem dentro do Sandero. E quem liga, né? Tudo valeu a pena e é o que importa.

Deixe o banco bem confortável para que se sintam seguros e à vontade no espaço