Eu, ex-sedentária

Quando adolescente, fui convocada para participar do time de vôlei da escola. O professor me obrigou mesmo. Segundo ele, era um “desperdício” eu com todo aquele tamanho não fazer nenhuma atividade física. Depois ele viu que era perda de tempo me cooptar para o time dele. Que bom. Eu morria de tédio. Não via graça nenhuma no que as minhas colegas achavam o máximo.

Anos antes dessa experiência volística, vivi bons momentos em quadra na Escola Castelo Branco. Jogava handebol e gostava, contava os dias para as aulas de educação física. Eu tinha 11 anos e todo aquele tamanho, por isso me chamaram. Mas dessa vez o professor não perdeu tempo.

Tempo quem perdeu foi eu por não ter praticado esporte na juventude e nem na vida adulta.  Foram várias tentativas e abandonos de academias, aulas de luta, natação e hidroginástica.

Foi lá pelos final dos 30, quase na chegada dos 40 que eu descobri o que me satisfaz e me faz bem. Mas só cheguei até ele pelas dores. Dor nas costas, nas pernas, na alma. Acúmulo de trabalho que não tem corpo sedentário que suporte.

O pilates salvou minha vida. Eu sou uma devota de Joseph Pilates. Ele lá no céu e eu aqui no solo com todas as professoras maravilhosas que tive até agora, com destaque mais do que especial para minha maior incentivadora e modelo, a querida Neiry.

Em casa sem parar

A coisa é tão séria que eu (quem diria!) faço exercícios em casa. Nesses dias de quarentena a Bruna, a querida fisioterapeuta que nos atende (Zé Carlos também é um fiel rs), preparou aulas para quem não aguenta ficar sem atividade.

Eu gosto de me exercitar, queria fazer mais – quem sabe ainda faça?! Há menos de 15 anos eu jamais imaginaria que a Marcela de hoje, aos 47, estaria louca para correr, levantar pesos, fazer abdominais, subir montanhas e até remar.

A vida é dinâmica e é preciso avançar. Às vezes o que nos falta é um empurrãozinho, pena que, quase sempre, é a dona dor quem nos move. Um viva para a dor no ciático, sem ela eu não teria chegado ao primeiro estúdio de pilates.

O macacão da reflexão

O dia 9 de março passado foi muito esperado por todos nós (três!) aqui de casa. O João Pedro finalmente iria iniciar um curso técnico na área que inspira realizações. No final de semana anterior ao grande dia, fomos ao shopping comprar camisetas novas. Numa das lojas que entramos, fiquei encantada com um macacão que era do jeito que eu não estava precisando, lindo como eu imaginei que queria e com a etiqueta decisiva ‘Liquida’.

Hoje, ao abrir o armário para pegar uma camiseta, me deparei com ele, o macacão que eu comprei “porque sim” há um mês e nunca usei.

As camisetas novas do João Pedro não foram inauguradas. Não deu tempo de usar todas no curso, nos únicos seis dias de aula. A quarentena se estabeleceu e tudo mudou.

Um macacão no fundo do armário, um curso sem aulas, camisetas nas gavetas. O que é isso diante de tudo o que vem ocorrendo nas últimas semanas no Brasil? Isso mesmo! Não é nada!

É uma pequena reflexão sobre a nossa quase que total falta de controle sobre a vida. Digo quase porque podemos controlar algumas coisas sim! Podemos escolher ser pacientes e gentis, generosos e bem humorados. Podemos nos calar diante da vontade de criticar, podemos ser pessoas melhores.

Nossa, mais que clichê, hein?

E não é? O que estamos vivendo hoje no planeta é um lugar comum daquelas palestras de coaching 0800. “Perceba o que o universo quer de você, qual recado está enviando nesse momento?”

E vamos ouvir esse grande coaching que é o coronavírus: volte para casa, repense seus hábitos, reveja conceitos, recrie rotinas e perceba o que realmente tem valor.

No dia que eu aprender essa lição e poder sair de casa, vou de macacão novo.

Vida sem egoísmo

Cada vida vale.

A do idoso que vive com a saúde debilitada, a da criança que corre cheia de energia, a do garoto que disputa a atenção dos colegas, a do adulto que se divide entre a preocupação com a saúde e a manutenção financeira.

Não importa se negro, branco, feio ou belo. Estar vivo importa. Toda vida tem seu valor. Seja a do sacerdote que aconselha paciência para as horas de angústia, seja a do incauto que avança sobre o direito do outro.

Moradias simples, casas confortáveis, apartamentos luxuosos ou o banco da praça abrigam vidas em metrópoles ou no interior. Aqui ou na Europa, na Ásia ou na África. Não importa onde. Seja onde for toda vida vale.

O doente tem o direito (e o dever!) de querer a saúde assim como o são tem quase uma obrigação de se manter saudável. Relativizar mortes de acordo com idade e classe econômica tem tom de psicopatia no momento em que se pensa apenas em si em detrimento do outro.

Vivemos na matéria e precisamos nos manter vivos, mas que isso não represente a morte da solidariedade. Pela humanidade, devemos cuidar da vida de todos nós.