O menino da foto

Antes de desligar o celular para ir dormir, conferi uma mensagem enviada por minha irmã número 2, a Aerllen. Era uma foto do João Pedro com três anos de idade. Foi como se eu tivesse sido empurrada para uma espiral que abriu uma porta cheia de lembranças sensoriais.

A primeira sensação foi a das mãozinhas daquele menino franzino acariciando meu rosto. Às vezes ele fazia das mãos uma moldura e dizia: “Ri, mamãe!”. Com as pequeninas mãos, ele também sacolejava minha cabeça para eu não dormir durante uma brincadeira.

O sorriso daquele menino era tão honesto e a risada tão contagiante, como os são de toda criança saudável e feliz.

Aquele menino da foto era o meu filho, o mesmo que estava no quarto ao lado numa aula online. Mas não são exatamente a mesma pessoa.

João Pedro aos três anos

O João Pedro de hoje sorri menos, é tímido e não parece feliz. Meu filho menino ficou lá atrás e pouco conservou daquela criança cativante. Eu me perdi como mãe no processo entre a segunda infância e a adolescência.

A foto de quase 20 anos atrás me fez ver que ainda não me perdoei por isso.

Brincar de dormir

Hoje eu lembrei de uma das tantas noites que, cansada e com muito sono após um longo dia de tripla jornada, tentava distrair e esvaziar as pilhas do João Pedro.

Ele gostava que eu lesse o Soldadinho de Chumbo (Hans Christian Andersen/1838) e isso era quase que diário. Às vezes eu pulava algumas partes e ele reclamava, segurava a minha mão e dizia: – Não, mamãe, não é assim.

Uma brincadeira recorrente pré-sono era a de quem dormiria primeiro. Mas teve um dia que ele cansou e não quis mais brincar de dormir.

– Vamos brincar de quem dorme primeiro, filho?

– Não, a senhora sempre ganha.

Pais ou servos?

Você provavelmente já presenciou uma cena semelhante. No restaurante entra um casal com uma criança, que vai de um lado a outro escolhendo uma mesa para o jantar. “Não, não. Aqui não, é melhor ali”, determina o menino (ou menina), para logo mudar de ideia. O garçom morde os lábios, revira os olhos – mesmo que disfarçadamente, mas você percebe, porque está fazendo o mesmo.

E situações assim se repetem no transporte, seja no avião durante a viagem de férias ou o ônibus escolar, no supermercado (eu queeeero!!) e por onde quer que eles estejam. Eles, os pais sem autoridade e os filhos “dominadores”.

As crianças se aproveitam da permissividade dos pais para agir como bem entendem e assim satisfazer suas vontades, que podem ser apenas mostrar quem manda.

Para esses pais, a criança é alguém com gênio forte, cheio de personalidade. Para os filhos deles, o pai e a mãe são seus realizadores de vontades.

No final de semana presenciei um menino de uns cinco anos fazer os avós de bestas indo de um canto a outro do restaurante escolher a mesa. Isso me fez lembrar de quando meu filho, então bem pequeno, após uma ordem minha (isso mesmo, ordem), perguntou entre os dentes:

– Quando vou mandar na senhora?

– Nunca, porque sou sua mãe e isso nunca vai mudar nessa vida.

Não é por acaso que somos pais. Estivemos na posição de filhos crianças e adolescentes e tivemos bons pais – e não amigos – para sermos educados. Que tal repetir a fórmula com os que estão sob nossa tutela?

Ah, sim. É claro que em alguns casos é preciso algumas adaptações e correções no roteiro. O tempo da vara de goiabeira ficou no passado e deve morrer por lá.