Significado e significante

Na mesa do almoço uma aula rápida de significado e significante. Falávamos sobre influência de terceiros em temas gerais, para dar um ajuda, por exemplo, em algum processo.

– O famoso pistolão, comentei.

Não entenderam. Então perguntei o que significava ‘pistolão’ para cada uma das três pessoas.

– Pênis, disse um.

– Uma arma grande, respondeu o segundo.

– Alguém com muita raiva, pistolão da vida, explicou o terceiro.

Como é rica a Língua. Uma palavra e quatro entendimentos. Por isso é tão importante sermos claros em nossas mensagens. Algumas não serão compreendidas porque o receptor/destinatário não tem condições contextuais para tal; ou pode acontecer, como no caso do ‘pistolão’, de os ouvintes desconhecerem o sinônimo dado por mim à palavra naquela frase.

Comunicar é muito mais do que juntar palavras e soltar por aí.

Mudei de estado e de vocabulário

Pernilongo, muriçoca, carapanã, mosquito. Como você chama esse bichinho azucrinante? Antes que você responda: “eu não chamo, ele vem sozinho”, vou tentar “adivinhar”. Se você mora no sul, sudeste e centro-oeste do país, possivelmente, esse insetinho seja o pernilongo. Caso more no nordeste, o dito cujo é batizado de muriçoca. No entanto, quem mora na região Amazônica, no norte do Brasil, o bicho é chamado de carapanã.

Ontem percebi que tenho chamado de mosquito a todas essas pestinhas minúsculas. Meses atrás eles eram carapanãs. Parei para refletir sobre essa mudança e acho que alterei o sinônimo irrefletidamente para me adequar à região onde hoje eu moro, na Grande Florianópolis.

Assim como precisei renovar o guarda-roupas com peças invernais, adotei palavras conhecidas mas que não eram utilizadas por mim, como aipim, chuleta, mexerica – para ficar só na feira. Eu não vou me aferrar a um vocabulário que não colabora com minhas atividades cotidianas. Portanto, dicionário portovelhês, ou nortista, só quando estiver conversando com falantes – ou entendidos – dessa variação de falares brasileiro. Ou seja, em casa.

A língua não é produto pronto e acabado e, por isso, se renova o tempo todo e quem faz isso somos nós, os falantes. Como a posição social ou a raça, a língua também separa. Ou melhor, os falantes a usam como régua para medir o que importa dentro de suas suposições preconceituosas. Ninguém é mais ou menos por falar macaxeira ou mandioca; nóis vai ou nóis veio; vendimo ou vendemos. Mas isso é assunto para outra conversa, visse nêgo?

Na feira, deixei escapar: “Nossa! que maracujá maceta*!”

*maceta= muito grande, em portovelhês.

Vírgulas, muitas

Entrei no portal para ler uma notícia que me interessava. Saí apressada. Tantas vírgulas, muitas delas, quase me sufoco. Ah, mas você não havia dito que não se importaria com o português alheio? Sim, disse, quase jurei. Mas, no meio de um mar de vírgulas, esqueci.

Outro dia li o post de um rapaz no Linkedin sobre a ascensão profissional dele. Uma saga. Nenhuma vírgula. Cinco parágrafos. Nenhuma vírgula. Senti falta de ar. Relevei. O redator não era jornalista.