Mudei de estado e de vocabulário

Pernilongo, muriçoca, carapanã, mosquito. Como você chama esse bichinho azucrinante? Antes que você responda: “eu não chamo, ele vem sozinho”, vou tentar “adivinhar”. Se você mora no sul, sudeste e centro-oeste do país, possivelmente, esse insetinho seja o pernilongo. Caso more no nordeste, o dito cujo é batizado de muriçoca. No entanto, quem mora na região Amazônica, no norte do Brasil, o bicho é chamado de carapanã.

Ontem percebi que tenho chamado de mosquito a todas essas pestinhas minúsculas. Meses atrás eles eram carapanãs. Parei para refletir sobre essa mudança e acho que alterei o sinônimo irrefletidamente para me adequar à região onde hoje eu moro, na Grande Florianópolis.

Assim como precisei renovar o guarda-roupas com peças invernais, adotei palavras conhecidas mas que não eram utilizadas por mim, como aipim, chuleta, mexerica – para ficar só na feira. Eu não vou me aferrar a um vocabulário que não colabora com minhas atividades cotidianas. Portanto, dicionário portovelhês, ou nortista, só quando estiver conversando com falantes – ou entendidos – dessa variação de falares brasileiro. Ou seja, em casa.

A língua não é produto pronto e acabado e, por isso, se renova o tempo todo e quem faz isso somos nós, os falantes. Como a posição social ou a raça, a língua também separa. Ou melhor, os falantes a usam como régua para medir o que importa dentro de suas suposições preconceituosas. Ninguém é mais ou menos por falar macaxeira ou mandioca; nóis vai ou nóis veio; vendimo ou vendemos. Mas isso é assunto para outra conversa, visse nêgo?

Na feira, deixei escapar: “Nossa! que maracujá maceta*!”

*maceta= muito grande, em portovelhês.

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