Eu tinha uns 16 anos e procurava emprego com uma amiga, de 18. Naquela manhã a acompanhei até um comércio que existia na rua Brasília, em Porto Velho. O nome do lugar nunca esqueci, Paulista. Um homem branco, alto e estúpido falou, aos gritos, com a minha amiga que não contratava gente da cidade, porque eram pessoas preguiçosas e faltavam ao trabalho em dia de chuva.
Minha amiga Golby
Não lembro quando Golby e eu nos conhecemos. A única certeza que tenho é onde. O Twitter nos aproximou na época que a rede do passarinho azul ainda era amigável, acho que há uns 12 anos. Golby, assim como eu, é porto-velhense, mas mora em Rio Branco há décadas. Por motivos que não lembramos, nunca nos encontramos pessoalmente, mesmo morando a apenas 500 quilômetros de distância.
As multicores do Mercado Central
Em todas as nossas viagens – sejam no Brasil ou exterior – os mercados sempre estão no nosso roteiro. É neles que podemos conhecer um pouco melhor sobre a cidade que estamos visitando e os hábitos/costumes de seus habitantes. Em São José, onde moramos, não há um mercado público. O espaço de venda e consumo de itens regionais está localizado no Centro Histórico de Florianópolis. Sempre que vou ao Centro tento passar pelo mercado e a busca é sempre a mesma: pimenta de cheiro. Foi lá que encontrei uma vez e comprei a última bandeja com algumas pimentinhas.
Recortes de reencontros
Os dias em Porto Velho passaram ligeiros como a friagem de junho em Rondônia – rapidinho e quase nem dá para aproveitar o clima gostoso sem o calor sufocante. Mesmo assim, foram ótimos. Reencontramos muitos amigos e revimos a família. Todos queriam saber como é morar longe de todos os bem-amados, como é o frio, as pessoas do Sul do país, a comida e a saudade.
Uma cartinha e um mundo
Pensando em oferecer algo regional que ela sabe o quanto eu gosto, a Elaine preparou um surpreendente bolo de tucumã – que nem eu nem Zecarlos conhecíamos. Sabor delicado e marcante, como a boleira. O afeto estava ali naquela sala. Mas havia mais. A Eluane e a Eline (que nasceu quando já havíamos nos mudado) fizeram muita festa para nós. Surpresa pela recepção, perguntei à Eluane se ela ainda lembrava mesmo de mim. A resposta positiva veio seguida de um envelope. Aí eu já nem tinha mais pernas para me sustentar. No envelope, as letrinhas ainda inseguras diziam: “Café datardi cua Marsela”.
É farinha, moço
Se num quiz alguém perguntar o que um nortista traz na mala após uma viagem à terrinha, pode responder sem medo de errar: farinha! Foi o que eu trouxe na bagagem em setembro, quando estivemos em Porto Velho. Foi a nossa primeira viagem após a mudança, em dezembro de 2018.
Minha irmã Kárita fez a feira para mim, providenciou farinha seca e farinha de tapioca. Eu complementei com feijão de praia, charque e pimenta de cheiro. Até pensei em trazer goma para fazer tapioca, mas desisti com receio de ter a mala revirada no raio-x do aeroporto.
Os meus sabores de Porto Velho
Porto Velho entrou para a lista de cidades visitadas por mim e pelo Zécarlos e para a hashtag #viagensmarcelaezecarlos no instagram. Como turistas, passeamos pelas ruas já conhecidas, fomos a quase todos os restaurantes (outrora) preferidos, conferimos os pontos turísticos e outros nem tanto.
Da listinha que fiz de lugares que queria rever, o icônico pôr do sol na beira do rio Madeira ficou de fora. Pensa no toró! Nos dias em que não houve chuvarada, estávamos do outro lado da cidade, o que não nos impediu de apreciar aquele ceuzão alaranjado de fim de tarde. Um espetáculo!
O mar do caminho
Conheci o mar quando eu tinha uns 21 anos. Foi em Fortaleza. Fiquei ali na praia parada olhando para aquela imensidão azul, apaixonada pelo que via. Lembro que usava um anel com uma pedra verde enorme e após sair da água percebi que o anelzão tinha ficado. “Foi a Iemanjá”, disse uma amiga que me acompanhava.
Saudade temperada
Se você ainda utiliza o Facebook, vai concordar comigo: o álbum de lembranças é o que há de melhor naquela desgastada rede.

Ontem, essa foto de um domingo em 2018, me revirou a memória. Zé Carlos e eu sorríamos após um maravilhoso café na Bachan – à época o melhor café regional de Porto Velho (ainda é?).
Primeiro aninho
E também adotamos o diminutivo. “Moço, quero um caldinho [de cana]”. Eu gostei? Mas é claro! Ah, é. Aqui tem caldo de cana por todos os cantos – rural ou urbano. Gostei ainda mais. E churros? Senhor do céu! Praças, cemitério, praia – sempre tem. Ainda bem que tem Pilates também.
Ainda sobre comida: o almoço começa a ser servido às 11h (nos restaurantes). O café da tarde é às 15h. Muitos restaurantes, principalmente pizzarias, abrem a partir das 18h para o jantar. O lanche mais comum é cachorro-quente prensado.
Ainda não tive vontade e nem coragem de provar o açaí vendido aqui e estou há um ano sem consumir o que há de melhor no Norte. Arrisquei a fazer tapioca com uma goma (argh!) que comprei no supermercado para nunca mais repetir a experiência. Não vou macular as boas lembranças da tapioca do Norte e Nordeste.
Mas no lugar da tapioca tem cuca, tem rosca, tem bolos e biscoitos. Tem uma variedade de queijos e frutas frescas.
Oh, São José, tu és uma beleza, mô quirido!
