A samaúma

Ela é como uma folha que se desprende da árvore e sai rodopiando, levada por uma brisa. Gira, gira e depois se esconde perto de um arbusto onde bate sol e a terra é fértil. A folhinha não estava destinada a ser adubo. Não esse adubo e não agora. Nem ela sabia que tinha essa força. Anos sendo balançada de um lado para o outro à vontade do vento ou de alguém que balançava a árvore. Ela já estava meio madura quando um vento mais forte a arrancou ali do tronco que a segurava. Leia mais

Somos todas Manana

Para cada estado da alma, um filme, um livro ou o silêncio. Hoje, tranquila, acompanhei a vida de Manana, uma professora solitária e melancólica que mora na Geórgia, mas pode ser a vizinha da frente, uma conhecida ou você mesma.  “Mulher de 52 anos sai de casa e choca família tradicional georgiana” – é basicamente a sinopse do filme My happy family produzido pela Netflix.

Manana mora na casa dos pais com o marido, o filho de 20 anos, a filha de 23 que é casada com outro jovem. Três gerações numa casa. Seis pessoas convivendo sob o mesmo teto não é fácil, menos ainda quando não se tem privacidade e aos 50 e poucos anos ouve a mãe dizer: faça isso, não faça aquilo. Sente-se só rodeada por pessoas que a ama e é triste, apesar de parecer que não há motivos.

A “festa” de 52 anos de Manana é um grande quadro das convenções aos quais muitas vezes somos forçadas. “Venha aqui, sorria”. “Vamos, o que vão pensar de nós, se você agir assim?”.  Por algum tempo, antes de tomar consciência de mim, fui Manana. Posso afirmar que todas as mulheres já passaram por isso. É como se houvesse uma forma para nós e todas tivéssemos que entrar nela.

Você deve fazer isso porque é menina, porque é moça, porque é mulher, porque é casada, solteira, divorciada, viúva, porque é mãe, porque será avó. Porque sim.

Manana e sua melancolia (foto: Tudor Panduru)

O machismo é silencioso em quem acha que não é machista. Quando você menos espera, lá está ele se revelando. E então você acaba criticando a mulher que resolve sair de casa, ou que opta por não ser mãe, ou então a mãe que quer ter o oitavo filho.

Minha mãe teve oito filhos porque quis. Como não foi possível pelo método natural, ela e meu pai adotaram a número oito. E aí está a minha irmã mais nova com quase 19 anos. Minhas irmãs não quiserem ter mais de um filho e assim foi feito. Para minha mãe os dedos apontavam: olha só, os filhos nascem doentes e continua parindo. Para minhas irmãs: mas só um? E se ele morrer?  E se não tem nenhum? Ah, nesse caso é uma inútil, afinal, mulher é máquina de procriação.

Há mais mulheres que conseguem se libertar dos grilhões das convenções atualmente do que décadas atrás. Outras estão confortáveis nessa situação  e isso não é problema. Agora o que não pode é uma pessoa viver presa numa vida que mais parece um caminho lento para o fim.

Algo tão simples e deliciosamente libertador é poder sentar num canto da casa e se sentir livre, dona do momento e então sorrir. Há uma cena assim. O bolo que ela gostava de comer “fora de hora” e a mãe brigava, como se a filha tivesse 5 anos de idade, é servido tranquilamente e saboreado como se fosse um pedaço de céu.

Ah, como é maravilhosa a liberdade. Torço para que um dia todas as mulheres possam decidir sobre suas próprias vidas e se alguém questionar suas decisões ela tenha como resposta aquele sorriso que vem da alma e diz: porque eu quero.

p.s.: Se assistir ao filme, me conta depois qual foi a sua reflexão, tá?

Juntas é mais fácil

Espancada, xingada, estuprada, assassinada. Faca, murros, tiros, atropelamento, chutes. Marido, namorado, caso, ex, conhecido, desconhecido. São inúmeras as notícias diárias de mulheres vítimas de violência, são incontáveis os BOs registrados Brasil afora sem nenhuma resposta, são intermináveis as histórias de dor, descaso e preconceito vividas por mulheres de todas as idades e classes sociais.

Somos alvo desde cedo de preconceito apenas por sermos do sexo feminino. Deboches, piadas, assédio moral por usarmos batom, por não usarmos maquiagem, por gostarmos de jeans, por não usarmos jeans. Por sermos magras, gordas, negras, brancas, baixas, altas. Não importa. Ser mulher é ser ridicularizada em algum momento da vida.

Atravessei quatro décadas e posso dizer com toda certeza que quase nada mudou em relação ao volume de casos de violência e preconceito – não estou falando estatisticamente. O que tem mudado nos últimos anos é a visibilidade do absurdo vivido por nós, mulheres. Estamos mais conscientes, conseguimos reagir, erguer a voz por aquelas que, independente do motivo que têm, ainda não conseguem reagir. Mas ainda temos muito chão para percorrermos rumo ao respeito que todas nós merecemos, assim como todo ser humano independente do sexo, da identidade.

Nós, mulheres, temos muita responsabilidade nessa mudança. Já pensou no quanto poder detemos em casa, na criação de filhos – para quem é mãe, na conversa com sobrinhos, criança, jovens de todos os sexos? Sim, porque o machismo tem que acabar também entre as mulheres. Ah, claro, isso não é fácil, eu bem sei, minha cara. Mas se não começarmos isso agora, quando iremos ter resultado e um mundo menos ameaçador para quem está nesse mundo cheio de Marias oprimidas por Josés? Vamos juntas, assim fica mais fácil para todas nós.