Para quê relacionar males?

Vi há alguns dias vários tweets em que a pessoa cita o nome, a idade e lista os problemas de saúde. Não sei o que motivou a corrente de patologias pessoais.

Alguns tweets me deram a sensação de que o paciente tem até gosto em falar que tem uma doença pouco conhecida – pelo nome. Utilizam a nomenclatura médica para problemas comuns (que são ruins, mas comuns), como a bendita cólica menstrual e seus acessórios.

Essas publicações me fizeram lembrar como eram as conversas entre uma vizinha e a minha mãe. Dona Helena sempre tinha um rosário de lamentações após o convencional “tudo bem?”. E então começava a disputa de quem estava com o problema mais grave e de nome mais difícil. Já repararam que elas (as pessoas adoecidas) falam fluentemente o doentês?

As doenças estão aí, são bem democráticas. Eu tenho algumas mas não são de estimação.  Meses atrás fui à minha primeira consulta médica em São José. Ao final da conversa, precisei voltar e sentar novamente para contar ao médico um problema relativamente sério (e comum) que eu tenho – e não é o esquecimento.

Foi um problema de saúde que me fez reavaliar hábitos e atitudes. Não quero focar meus pensamentos em dores e suspeitas. Sou grata pelo despertar trazido por aqueles dias difíceis. E para por aí. Não vou ficar relacionando males, se posso contabilizar o que tem de bom na vida.

Sem remorso e adiante

Na estrada da vida não devemos perder tempo na rotatória do remorso e nem nas encruzilhadas da mágoa.

O tempo perdido em remordimentos nos aprisiona no passado e o caminho para o futuro não tem retorno. É sempre adiante. O trajeto é construído durante a caminhada e os atalhos são armadilhas. Se caiu nelas, reveja o mapa e siga em frente.

Quanto antes nos livrarmos do remorso, da culpa e da mágoa mais leves ficaremos para a jornada.

Se errou, se desculpe. Se foi magoado, perdoe.

 

Compaixão salva vidas

Há alguns dias voltando para casa vimos de longe uma mulher andando apressada e aparentemente desnorteada.  Ao nos aproximarmos percebemos que ela chorava e apertava as mãos. Não deu tempo de pensar duas vezes, desci do carro e corri ao encontro dela. A passageira de um outro carro fez o mesmo.

Nos aproximamos da mulher oferecendo auxílio. Ela nos empurrou, disse que não aceitaria ajuda porque não nos conhecia. Insistimos e então ela começou a gritar. Instintivamente a abraçamos. Repetíamos sem parar que estávamos ali para ajudá-la, que ela não estava sozinha. A mulher desmaiou em nossos braços.

A moça que estava comigo sentou no asfalto das 13h e ajeitou a cabeça da desconhecida no colo. Eu massageava as mãos daquela mulher que sofria. Impossível não pensar no que teria acontecido.

Violência doméstica, desespero diante de uma doença, desesperança? O que interessava para quem parou e se dispôs a ajudar uma estranha foi pensar no outro, ter compaixão pelo sofrimento alheio.

Pensei no quanto essa mulher teve sorte de ter sido atendida por pessoas que se importaram com seu bem-estar. Quase uma hora depois a ambulância chegou e a levou para atendimento médico.

Torço para que ela esteja bem, que tenha resolvido os problemas que a angustiavam e que agora acredite que não está só.

Para todos nós eu desejo que tenhamos compaixão pelo outro e que na nossa caminhada possamos encontrar pessoas que nos auxiliem pelo simples motivo de se importarem.

Entrevistas e latidos

Minha primeira experiência com home office foi há muitos anos, quando atuei como freelancer. Recebia a demanda e me organizava para entregar dentro do prazo.  Muitas vezes trabalhei até tarde da noite, atendia a vários clientes ao mesmo tempo.

Meu atual contrato de trabalho é home office, mas com algumas diferenças. Tenho horas a cumprir e ponto a registrar. Dois domingos ao mês trabalho na redação, em Florianópolis.

Ocupo um canto da sala com notebook, telefone, cadernos, blocos e canetas.  E vez ou outra meu espaço de trabalho é invadido por uma Azula carente que deita no meu colo ou coloca a cabeça no meu ombro. Faço um carinho rápido e a despeço.

Azula me observa enquanto trabalho

Dias atrás, meu telefone tocou e a Azula ficou em alerta. Aguardou eu atender a ligação, falar alguma coisa com o interlocutor para então se espreguiçar e soltar um bocejo demorado e barulhento.

“Oi? Não entendi”, disse a pessoa do outro lado da linha.

Noutro dia, estava no meio de uma entrevista Azula e Argus resolveram latir como se o mundo estivesse em chamas. A pessoa riu e eu pedi desculpas. A resposta me tranquilizou: “Tudo bem, eu tenho três”.

Empatia é tudo.

De volta às ruas

Hoje foi meu primeiro plantão de final semana. A pauta é um assunto conhecido por mim, uso proibido de cerol, mas o local da cobertura totalmente novo: a beira mar de Florianópolis. Por enquanto quem ganhou no quesito “quem diria” foi a pauta que eu fiz sobre a estiagem rigorosa nos rios de Santa Catarina. Eu, do Norte, falando sobre estiagem do (e no) Sul. Parece nada, não é?

Durante a semana também conversei com famílias de refugiados da Venezuela, escrevi sobre estacionamento rotativo, lixo nas ruas, serviço de correios. Nada novo, além da empresa, o local e as expectativas.

Primeira pauta na rua. Assunto: lixo na Via Expressa

 

Dinâmica da felicidade

“O que te fez feliz hoje?”, essa pergunta e as dezenas de respostas que se seguiram a ela me fizeram ter certeza de que a vida é feita de momentos muitos singelos aos quais damos alguma importância. Mas não é sempre que estamos conscientes de que algo como tomar café da manhã sem pressa pode ser prazeroso. A pergunta fazia parte de uma dinâmica de grupo da qual participei.

A minha resposta foi: “Ter dirigido de casa até aqui. Moro em São José e é a primeira vez que dirijo na Ilha na hora do rush!”.

E os momentos de felicidade foram os mais variados: ter dado conta de cumprir todas as tarefas que se propôs para aquele dia; ter conseguido chegar a tempo à reunião mesmo saindo com pouca antecedência; ter entregue a dissertação; ter finalizado o TCC; ter reencontrado um amigo de infância que não via há anos; ter conversado um tempão com uma irmã ao telefone…

E foram quase 50 motivos de alegria, felicidade, bom ânimo. E há milhares deles.

A vida é simples e a dinâmica da felicidade – essa “mais fácil”, não aquela que ficará mais para adiante, está em observarmos e estarmos presentes em cada momento.

A nossa presença em nossa própria vida faz diferença.

Livre-arbítrio é melhor que destino

É como um gás paralisante. A pessoa não consegue avançar porque aguarda uma solução do céu: o que tiver que ser, será. “Deus no Comando!”, diz alguém que crê que o resultado de sua atitude será aquele que o Universo determinar. É a mesma lógica de quem reza para passar numa prova sem estudar. Como se Deus fosse uma super babá e nós não tivéssemos o livre-arbítrio.

A vida nos pertence e temos a liberdade de agirmos de acordo com nossa vontade. São os caminhos que tomamos, as escolhas que fazemos, as atitudes que temos, as histórias que criamos para nós que nos colocam diante dos mais diversos desfechos.

Vai dizer que foi Deus ou o destino que provocou uma bagunça na sua vida após uma escolha impensada – apesar dos vários alertas recebidos por meio de amigos ou familiares? Difícil retirar do forno um bolo de laranja após ter colocado para assar uma forma de biscoitos.

O destino é uma espécie de bicho-papão criado para explicar algo que não se conseguiu vencer. É a desculpa para erros, fracassos, desilusões.  Mas pode ser o encorajador da mudança. Pense que o que depende apenas de você não é impossível. O destino é seu e ninguém mexe!

Passei vergonha à toa

Quem é que não tem uma vergonha de estimação que sua mãe ou pai fez passar quando criança ou adolescente? Eu mesma tenho várias. Mas vou falar apenas de uma dessa coleção. Minha mãe gosta muito de plantas. Sabe muito? A casa dela não tem um jardim, mas uma floresta com espécies variadas. O local funciona também como um hospital, plantinhas dadas como mortas renascem para dar alegria a quem aprecia a vida vegetal.

Essa paixão da minha mãe era o que provocava a atitude que me matava de vergonha. Se ela se engraçasse com uma planta no canteiro de uma casa, era certo que iria pedir “uma mudinha”. Tocava a campainha da casa ou batia palmas e mandava o pedido. E eu fazia cara de paisagem sem folhagens.

Por qual motivo eu não gostava de participar desse momento pedinte? Afinal, ela pedia, não afanava. Pedia somente exemplares de plantinhas que estavam em grande número, sem prejuízo ao conjunto e ao jardineiro.

Quantas mudinhas doadas têm naquele imenso jardim eu não sei. Também desconheço quantos jardins estão mais bonitos com as plantas gentilmente dadas por ela a quem pediu.

Eu sei que, por enquanto, tenho sete plantas trazidas da rua por mim, sendo que três eu pedi, as demais eram nativas de trilhas e estradas. Há também os capins e a macela trazidos da serra.

Entre a “coleção rua”, há um exemplar que trouxe de uma caminhada perto de casa. Coloquei no quintal num vaso improvisado e por meses não se desenvolveu. Então transferi a planta para o chão. Em poucas semanas sua folhagem estava brilhosa e a vida seguiu. Hoje ela floresceu e pelo aplicativo [Lens, do Google] soube seu nome: Canna indica.

Agora sei que passei vergonha à toa.

Canna indica – da rua para o quintal de casa

 

O lixo na TV

A TV do laboratório estava ligada e sem som (ainda bem) num programa que repetia a imagem do prefeito que ficou ferido ao acender uma fogueira. Antes de conseguir uma cadeira fora do alcance das imagens desnecessárias, vi legendas que chamavam atenção para uma diversidade de casos de violência, tragédia e infelicidade.

Eram 7h, a recepção estava lotada e a programação que, parece, anunciava o fim do mundo, era acompanhada por algumas pessoas. Talvez se houvesse som a audiência fosse maior. Primeiro impacto é o nome do programa. Nunca havia ouvido falar. Até pensei ser local, mas ao chegar em casa e pesquisar vi que se trata de um nacional do SBT.

O canal do Silvio Santos, que praticamente extinguiu o jornalismo de sua grade, mantém um programa matinal de péssima qualidade ancorado no sensacionalismo e na preferência do público que consome sorrindo a desgraça alheia.

Em uma hora é possível observar muitas coisas. As pessoas que assistiam àquilo não tinham um celular nas mãos. As que não acompanhavam a sanguinária matinal estavam ocupadas em distrair crianças ou se (des)informando pelo Whatsapp. E eu observava tudo fazendo meu julgamento travestido de análise social.

Receita de bolo de macaxeira feito com aipim

Hoje fui ao mercado comprar aipim para fazer um bolo de macaxeira. Mas eu nunca havia preparado um bolo de macaxeira, apesar de ser um dos meus prediletos. Sempre achei que dava trabalho demais e nunca prestei atenção em como irmãs e amigas preparavam. Após chegar em casa busquei no caderno de receitas do mundo um modo de fazer com o qual eu concordasse. O quê? Meia dúzia de ovos para fazer um bolo? Dançar ao redor do forno? Não, não dá.

Às vezes tenho a impressão que algumas pessoas gostam de dificultar algo simples para mostrar o quanto são abençoadas com o dom de cozinhar (ou qualquer outra habilidade). Eu não tenho a menor paciência com conteúdos assim.  Por isso, fiz o que uma pessoa com certa experiência em preparar bolos para o café da manhã faria: adaptei.

Minha receita: Primeiro ralei a raiz (1 kg) comprada como aipim – que após estar em minha posse passa a ser chamada de macaxeira. Após tudo ralado e meus bíceps bem malhados, juntei no liquidificador 3 ovos, uma xícara de óleo e outra de leite, uma xícara de açúcar. Bati tudo e depois aos poucos fui acrescentando a macaxeira ralada. Transferi a massa para uma bacia, provei, acrescentei um pouquinho mais de açúcar e uma colher (café) de sal. Adicionei 50 gramas de côco ralado. Mexi tudo. Liguei o forno, untei a fôrma (retangular grande, não me pergunte por diâmetros, por favor) e voltei à massa para acrescentar uma colher (sopa) de fermento. Transferi a massa linda, cheirosa e com cara de quem teria sucesso na vida para a forma e coloquei no forno a 180ºC. Após 50 minutos assando, tempo que utilizei para aplicar uma máscara nos cabelos, o bolo estava pronto para ser admirado e saboreado.

Meu bolo de macaxeira

O resultado:  Quando cortei o primeiro pedaço pensei: “Meu Deus! Tá com cara que deu certo!”. Ele estava fofinho e cremoso ao mesmo tempo. Uma emoção tão grande me invadiu ao experimentar aquele simples pedaço de bolo que eu estremeci. O sabor era perfeito, tipo um mingau em forma de bolo – exatamente do jeito que eu gosto. Uma vitória, sem dúvida.

Essa receita preparada no meio da tarde de forma desprentenciosa me trouxe algumas reflexões. Uma delas: como saber se não tentar?