No dia 7 de setembro completei 25 anos de profissão, nessa data em 1998 fui pela primeira vez para a rua fazer uma matéria. Assunto fácil, pauta ideal para uma foca. Não tenho nenhuma foto daquele dia, muito menos uma VHS do material, mas lembro muito bem o pânico de fazer algo errado e começar mal ou talvez perder a grande chance. Coisa que havia ocorrido três meses antes quando fui reprovada no teste de vídeo, o que não foi nenhuma surpresa para mim, como contei aqui.
Adeus ao ND
Mais uma trajetória profissional encerrada com sucesso e gratidão.
No último dia útil de junho, encerrei quatro anos de trabalho no Grupo ND. Comecei em 2019 como repórter setorista da Grande Florianópolis do jornal ND e em 2021 passei à edição.
Foram quatro anos (com uma pandemia no meio) dedicados ao que eu realmente gosto (queria gostar menos ): jornalismo diário impresso.
Estratégia do foca
Contei um pouco sobre minha experiência na Secom, a Superintendência de Comunicação do Governo de Rondônia, onde trabalhei entre fevereiro de 2015 e dezembro de 2018. Os quatro anos naquela redação renderam muitas histórias que, eu espero, ficarão guardadas no meu álbum de memórias. Uma delas eu não presenciei e soube apenas hoje de seu acontecimento.
Aquela Secom
A Secom foi o meu último grande desafio profissional em Rondônia. Fui convidada pelo Domingues Junior e pela Edna Okabayashi para ser a coordenadora de conteúdo do governo e aceitei meio às cegas. Como “jornalista de redação” entendia que algo precisava ser feito para que o material produzido pela equipe da assessoria de comunicação fosse da mais alta palatabilidade. Tinha que ter relevância e ser atraente. Foi com a ideia de transformar a Secom numa agência de notícias que começamos o trabalho, sempre apoiados pela Edna e o Domingues.
Currículo fake
– Como foi sua experiência na CNN?, questiona o executivo da vaga.
– Onde? Não entendi a pergunta.
– Na CNN onde você foi repórter. Está aqui no seu currículo.
– Ah, a CNN! Pois é, eu não fui selecionada.
– Mas está aqui no seu currículo!, rebate, quase gritando o meu ex-quase- futuro-chefe.
– Eu coloquei porque tinha a intenção de trabalhar lá…
E assim termina a história: eu sem emprego e queimada no mercado de trabalho.
Mas para o governador do Rio de Janeiro a história não acaba agora. Wilson Witzel incluiu Harvard no Currículo Lattes sem nunca ter estudado na instituição norte-americana. Depois do descuido ter sido descoberto e publicado, o governador, claro, disse que a notícia é mentirosa e pôs, adivinha?, culpa na imprensa.
Witzel continuará governador e logo a história sobre essa fraude será esquecida e substituída por outra até o final do mandato.
E eu continuarei sem a CNN no currículo e com a consciência tranquila.
Três minutos

Soube, dias depois, que “demorei demais a responder”. Não se tratava de teste ou entrevista, era o primeiro contato após a pessoa ter recebido meu currículo. Eu, que geralmente respondo e-mail e whatsapp rapidamente, fui considerada lerda e, por isso, ignorada.
Quanto tempo temos?
Como nasceu a jornalista
Abria-o, encostava o nariz em suas páginas e sentia o cheirinho de tinta nova como se fosse o perfume secreto de alguma floresta mágica. Virava as páginas e passava a mão, como se o toque fosse antecipar todo o conhecimento que estava ali para ser descoberto durante o semestre. Depois de folhear todo o livro, começa a ler as crônica, poemas, tirinhas – o que tivesse de “historinha”. Ah, preciso dizer que o livro de matemática não ganhava essa atenção, era apenas folheado muito por cima.
Ainda criança gostava de ler também reportagens, histórias reais contadas como se fosse uma vizinha, cheia de detalhes. Revistas sempre me atraíram. Não demorou muito para eu começar a escrever as minhas histórias. Escrevia no caderno procurando imitar a forma da narrativa do repórter. E assim foi crescendo minha vontade por trabalhar em uma revista e contar histórias de pessoas. Aproximar leitores de personagens. Eu já sabia o que queria, muito mais do que ser professora, queria ser jornalista – quem sabe uma escritora? – não, não. Aí já era demais, pensava.
E o tempo voou, tornei-me adulta e logo que pude virei assinante de Círculo de Livro e de revistas semanais. Assistia a todos os telejornais possíveis. Apaixonada por reportagens, colecionava histórias.
Sem acreditar que um dia poderia tornar-me jornalista, nunca me preparei para realizar este desejo. (E fica para eu contar depois essa parte da minha vida).
Um dia assistindo ao telejornal local do SBT, no intervalo um chamado: “se você tem boa redação, gosta de escrever, venha fazer parte da equipe de redatores da TV Allamanda”. Claro que o anúncio não era exatamente assim, mas a finalidade era a mesma: contratar redatores. Senti um frio na espinha. E minhas irmãs começaram: “Marcela, você não quer ser jornalista? Vai lá, irmã!” E eu fui! Morrendo de medo, de vergonha, mas fui.

Fiz o teste de vídeo. Péssima. Minha vontade era escrever, não queria estar a frente de câmeras, e sim por trás delas. Na prova de redação eu me soltei, montei uma matéria a partir de uma notícia que tinha lido em uma das revistas que assinava. Como eu imaginava, não fui chamada para trabalhar.
E a vida seguiu por três meses até o dia que recebi uma ligação da pessoa que seria minha primeira e mais importante professora de jornalismo e entraria para a lista de amigas-irmãs queridas. Fui para a entrevista com a jornalista Nara Vargas. Ela me mostrou minha redação, a melhor entre todas da seleção de meses antes. Soube que não fiquei com a vaga porque fui muito mal no teste de vídeo (Oh, quem diria?!), mas estavam precisando de alguém que soubesse escrever bem para fazer o jornal mais importante da emissora.
Meses depois já não era mais redatora, era apresentadora de um programa de notícias populares. Ao vivo! Imagina? Eu ao vivo. Seguiram-se então a bancada do telejornal da TV Meridional, a Band local, e depois, finalmente, consegui o que me interessava: a rua! Fui para a reportagem escrever e contar histórias. Não era revista impressa, mas bem melhor do que ser “âncora”. Para mim, claro. Sei de gente que daria muita coisa para estar numa bancada.
Quatro anos de TV, de escola, de preparo, me levaram para o impresso. Repórter, editora, editora-executiva, editora-chefe, coordenadora de conteúdo… professora de jornalismo!

Volta lá para meu primeiro sonho profissional de infância. Quando concluí o curso de jornalismo – sim, muito tempo depois de prática, fiz o curso, pois não havia em Porto Velho -, fui convidada para dar aulas. E eu fui fazer o que acredito que seja a principal função de um professor: compartilhar conhecimento, colaborar com o crescimento do outro, formar. Gostei demais da experiência. Acredito ter colaborado com os alunos, hoje colegas de profissão.
Essa linha do tempo sobre minha vida profissional me fez refletir sobre eu nunca ter me preparado, pelo menos conscientemente, para nada disso. Deixei a escola muito cedo (depois eu conto), não pensei que conseguiria cursar uma faculdade (cursei duas), nunca ambicionei nada além de trabalhar “direitinho” e fazer o melhor, independentemente do local onde estivesse empregada.
Hoje continuo apaixonada pela minha profissão, mas – muito diferente do que pensava – estou aberta a mudanças. Minha crença em fazer o melhor é inabalável e serei feliz onde quer que eu possa trabalhar.
