Eu tinha uns 16 anos e procurava emprego com uma amiga, de 18. Naquela manhã a acompanhei até um comércio que existia na rua Brasília, em Porto Velho. O nome do lugar nunca esqueci, Paulista. Um homem branco, alto e estúpido falou, aos gritos, com a minha amiga que não contratava gente da cidade, porque eram pessoas preguiçosas e faltavam ao trabalho em dia de chuva.
Três minutos

Soube, dias depois, que “demorei demais a responder”. Não se tratava de teste ou entrevista, era o primeiro contato após a pessoa ter recebido meu currículo. Eu, que geralmente respondo e-mail e whatsapp rapidamente, fui considerada lerda e, por isso, ignorada.
Quanto tempo temos?
Prestígio?
A repórter desligou o telefone indignada, claro. Nos contou a história, que virou piada “interna” de todos que ali estavam. Hoje “prestígio” é uma expressão conhecida por muitas pessoas que souberam desse fato tão pitoresco.
Lembro-me sempre desse episódio ao ler as inúmeras ofertas de vagas de emprego em que o candidato precisa lavar, passar, cozinhar e construir um foguete em quatro horas pela honra de ter o prestígio de servir a determinada empresa.
Como diz um amigo fotógrafo: -“Meu senhor, prestígio não enche o tanque de gasolina!”.
Terra de ninguém
No feed desconexo apareceu uma vaga esquisita para… jornalista! Requisitos ter mais de 45 anos, ser formado em Jornalismo ou Psicologia (Quê???). Curiosa, enviei e-mail e esperei resposta, que não veio. Já estava imaginando desmascarar alguma furada, mas a pauta caiu. Houve outra vaga que me causou estranheza, não pelo cargo, mas pelo salário oferecido. Mas para esse anunciante não enviei e-mail. Meu único objetivo era ir lá, caso meu currículo passasse na seleção, claro, e perguntar se ele não tem vergonha de oferecer 1.200 reais para um redator com “redação e gramática impecáveis” trabalhar 8h por dia, 6 dias por semana. Achei melhor não gastar meu português com isso. Menos uma pauta, chefe.
Um quarto apertado
Minha mãe era, na época, auxiliar de enfermagem no Hospital de Base Ary Pinheiro e para aumentar (um pouco) a renda prestava plantões no Pronto-Socorro João Paulo II. Foram anos de corre-corre até ser forçada a parar por não ter condições físicas e emocionais para carga de trabalho tão pesada. Junta-se a isso crianças com graves problemas de saúde. Quem suportaria?
Meu pai era taxista, depois comerciante, depois fretista (de frete). Trabalhava sem parar, eu me condoía ao vê-lo alquebrado após um dia exaustivo de preocupação em manter a família alimentada.
Nos duros anos do governo Sarney, quando a carestia tomou conta da vida de todos brasileiros pobres, a situação piorou. Quando era possível, comíamos peru – carne que até hoje desagrada meu paladar. Sendo eu a mais velha, ia cedo para a fila do açougue comprar essa ave pálida e sem sabor. É deste período que tenho uma lembrança de meu pai indo vender a única joia que ele tinha, uma pulseira que ele mandou fazer com pedaços de ouro e prata que eram perdidos no táxi dele. Ele foi a pé, pois não tinha dinheiro para a condução, de casa – no Jardim Eldorado – até a 7 de Setembro, no Centro.
Situações como essa, tenho certeza, formaram meu caráter e minha disposição para o trabalho correto, independente de qual seja, contando que seja honrado. Não passei, ainda, dificuldades na vida adulta como meus pais. As que enfrentei não são nada diante do que eles viveram com os sete filhos. É possível que elas surjam, claro. Com tudo o que vivi até os 19 anos espero ter aprendido a manter a confiança, perseverar no bem e acreditar que o dia de amanhã sempre pode nos surpreender com o sol da solução.
