O nome estava comigo há quase um ano. Anotado, salvo, arquivado. E pulsante, querendo vida além da que eu o oferecia na minha memória que nunca esquecia dele. Era pouco para tanta beleza guardada no bloco de notas.
Eu nem desconfiava que naquela segunda-feira ele, o nome, iria deixar de ser um desejo. Que clichê! Logo no tal dia dos começos, e bem cedinho para rimar com aquele outro, o do madrugador.
Frio. 9 graus no app e uns 5 na minha pele. Tudo o que eu queria era terminar o percurso e voltar para casa.
Mas eu a vi. Estava dentro da lixeira. Encolhida, assustada, tremendo de frio. Eu duvidei se estava realmente vendo o que via. Ainda não eram seis e meia, o dia mal havia nascido e eu ali fisgada pela realidade. Como fazer contas diante da urgência?
Em casa apenas disse: “encontrei a Fayga!”. Peguei o carro, e voltei para resgatá-la do frio e do abandono.
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Conheci a obra da artista plástica Fayga Ostrower numa exposição no CIC, em outubro/2022. Fiquei impressionada com a exposição, e a apaixonada pelo nome e a história dessa mulher que até aquele dia era uma desconhecida para mim.
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Fayga Leah estava dentro da lixeira de uma escolinha do bairro onde moro. Foi resgatada e adotada por nós no dia 28 de agosto. A veterinária avalia que ela deve ter entre 10 e 12 meses.
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Agora são cinco: Argus, Azula, Atena, Aurora e Fayga


Mais um detalhe nessa história. Depois de resolvida a questão da “dona” do nome Fayga, a luta foi a busca pelo sobrenome. A cachorrada daqui pode não ter linhagem nobre, mas receberam sobrenomes talqualmente as famílias de alta estirpe. Pois temos: Argus Maximus, Azula Dora Milaje, Atena Cristina Blanca e Aurora Ayira-Mbya. A chegada da Fayga provocou a busca de um sobrenome que combinasse com o polonês da artista homenageada e com o dia frio que fazia quando a cachorrinha foi resgatada. Depois de horas de procura, a Marcela apresentou uma lista de nomes que atendiam aos critérios. Votei na opção “Leah”, após ouvir a justificativa de cada indicação. Leah era associado ao nome bíblico Lia, que na minha cabeça me remeteu a um soneto do Camões, que um professor que tive na 5ª série gostava de declamar: “Sete anos de pastor Jacó servia / Labão, pai de Raquel, serrana bela. / Mas não servia ao pai, servia a ela, / que a ela só por prêmio pretendia. // Os dias na esperança de um só dia / passava, contentando-se com vê-la. / porém o pai, usando de cautela, / em lugar de Raquel lhe deu a Lia (…)” Uma cadelinha altamente internacional, pelos padrinhos de “batismo” que tem. Pense!