Quando menina, dividia um quarto com minhas três irmãs. Anos depois, adolescentes, mudamos de casa. Era uma casa grande, com quatro quartos – mas estava na fase de acabamento, que deve ter durado uns 10 anos, talvez menos. Já não éramos quatro. Tinha nascido o primeiro (e único) menino e a última irmã estava a caminho. Por uns três meses ficamos nós, seis filhos, com nossos pais em um quarto. Desnecessário enumerar os problemas e dificuldades que enfrentamos com tanto aperto e desconforto.
É preciso carregar?
Casamento, namoro, trabalho, amizade – seja o que for – tem gente reclamando. Alguns acreditam serem a cruz que devem carregar, que devem levá-la até o Gólgota, ou sabe-se lá para onde, e insistem. Continuam nas lamentações sem nada fazer para mudar a situação. Têm as mesmas atitudes esperando resultado diferente. Mas acho que sabem que não terão. Apenas não querem enxergar. Talvez seja um apego ou medo do depois. Ou os dois.
Ouça suas dúvidas
Por mais otimista que você seja, haverá um dia em que você duvidará, fraquejará. Pode ser no meio de um sábado cheio de atividades ou no final de uma quarta de alegria. Não importa. Esse momento vai chegar e fazer você se questionar. Faça silêncio e ouça. Às vezes estamos tão focados no objetivo, na certeza de que será alcançado de acordo com nossos planos e esquecemos a possibilidade de termos que alterar nossas planilhas.
Medo útil
Ir para o banho* sempre foi um acontecimento. Quando meu pai avisava que domingo iríamos para o Periquitos – oh, quanta expectativa! “Vamos dormir para amanhecer logo” – dizíamos.
Descer de boia no rio, correr pela beirada, subir o barranco, saltar na água. Que delícia de vida. Minha relação com rios, igarapés e seus parentes é de encanto, sou atraída por eles, mas até certo ponto. Meu sonho é vencê-los a nado. Aqui uma pausa para muitos risos. Não sei nadar!
Viagens que me escolhem
Há alguns anos, tomei gosto por viajar e passei a me organizar para isso. Anotava feriados, possíveis folgas e planejava a viagem, mesmo sem saber ao certo o destino. Dependia do preço da passagem. Queria ir a São Luís, mas não dava? Opa, vamos então para Aracaju. Preços estão ótimos e podemos aproveitar para ficarmos uns dias em Salvador. E assim foi feito. Teve um ano que fomos duas vezes a Mato Grosso, passagens baratíssimas e feriados não faltavam. Mesmo estado, destinos distintos: primeiro, Chapada dos Guimarães e no feriado seguinte fomos conhecer as águas transparentes de Nobres.
Minha primeira e difícil mudança
Eu nasci e vivi até os 13 anos na rua José Bonifácio, bairro Pedrinhas, em Porto Velho. No centro do mundo, do meu mundo. No dia que papai colocou a casa à venda minhas irmãs e eu ficamos bem descontentes. Mas ninguém ficou mais desesperada do que eu.
No dia da mudança, lembro-me bem, me agarrei ao telefone e não queria largar, falando com uma grande amiga – da qual não tenho notícias há uns 30 anos, pelo menos -, seria o fim da minha vida viver longe dela, oh Deus! Eu chorava, esperneava em cima do caminhão da mudança. Que cena!
No aguardo
Minha casa está à venda há dois meses, nesse período muitas pessoas entraram em contato, algumas visitaram o imóvel, outras marcaram e não apareceram.
Eu apenas sorrio e aceno, pacientemente, aguardando o novo proprietário chegar.
O cheiro da toalha azul
Alguns sabores e cheiros trazem lembranças para você? Sim, né? Acho que todo mundo tem esse baú de recordação. Cheiro de pão com manteiga molhado no nescau me remete à lancheira do pré-escolar. Nossa! O cheiro é muito específico. Ficava impregnado na toalha que eu usava para cobrir a mesa e então merendar no Jardim de Infância Branca de Neve – que está de pé até hoje recebendo “o futuro do Brasil”.
Valor somos nós quem damos
O quintal da minha casa é um jardim. Tem palmeiras, primaveras, pimenteiras, muitos cactos, uma variedade de plantas cujos nomes desconheço. A alegria desta semana foi acompanhar o desenvolvimento das primeiras jabuticabas, após quase quatro anos de espera.
Essa árvore resistiu ao escavamento frenético do Argus Maximus. Ela chegou aqui sendo uma frágil plantinha e na terceira vez que foi retirada do chão pelo Argus, ficou em três pedaços. Insistente e otimista que sou, plantei novamente, reforcei a proteção contra as brincadeiras caninas e ela seguiu o curso da vida.
Infortúnio maior é viver sem fé

“Não percas a tua fé entre as sombras do mundo.
Ainda que os teus pés estejam sangrando, segue para frente, erguendo-te por luz celeste acima de ti mesmo.
Crê e trabalha.
Esforça-te no bem e espera com paciência.
Tudo passa e tudo se renova na Terra, mas o que vem do Céu permanecerá.
De todos os infelizes, os mais desditosos são os que perderam a confiança em Deus e em si mesmos, porque o maior infortúnio é sofrer a privação da fé e prosseguir vivendo.
