O tempo sempre passou com suas horas sem eu nunca ter me dado conta de que ele estava contando cada uma delas. Essa despreocupação durou até os meus 25 anos, quando nasceu o João Pedro, meu filho. Como toda mãe, o medo do tempo daquela criança passar e eu não ver era constante. E foi isso mesmo que aconteceu. As horas passaram, os dias voaram, os anos se esgotaram naquele conta-gotas finito.
Superstição familiar
Joaquim, sem saber o que o aguardava, estava todo serelepe na sala de espera do posto de saúde. Tomou quatro vacinas e uma gotinha. – “Coitadinho!”, comentei com a mãe e a avó dele. E logo em seguida perguntei: -“Colocaram a fralda no freezer?”
É claro que elas haviam colocado! Como interromper a tradição familiar de, na noite anterior à vacinação da criança, colocar uma fralda molhadinha de xixi no congelador? Afinal, não custa nada tentar um jeito tão simples de prevenir que a criança tenha febre após a vacina.
25 anos é pouco tempo para tanto
Ele nasceu num dia frio de junho, quando a friagem ainda era fenômeno recorrente em Porto Velho. Talvez por isso goste de frio, eu penso.
Hoje, 25 anos após aquele reencontro, também está frio e chove em São José. No café da manhã, bolo de chocolate do jeito que ele gosta. Mas desta vez teve velinhas. “Por que, mamãe?”, ele pergunta. “Porque são 25 anos, meu filho. Data importante!”, eu respondo.
Torto Arado e Salvar o Fogo me trouxeram de volta
Há algum tempo eu vivo um desassossego, um desentendimento constante com minhas memórias. Quando comecei a ler Torto Arado parecia que eu estava abrindo um álbum de família, que mesmo não sendo a minha de hoje, era a que já tive em algum passado. E partes dela permanecem em mim. Seja na minha pele e nos meu lábios, mas principalmente no sentir.
A chegada da Aurora
Aurora chegou no dia 18/7 muito magra e assustada. Ao contrário da Atena, resgatada em jan/20, em poucos dias Aurora já estava se sentindo segura. Tão segura, que já roeu cadeira, mesa da TV, derrubou vasos e ofereceu mil sorrisos cheio de festa. Pois é, ela sorri 😊
É uma cadelinha alegre que só precisava de alguém para cuidar dela. Há centenas de milhares de cachorrinho (e gatinho) à espera de uma chance para ser, de fato, um bichinho doméstico.
Joaquim chegou!
Os dias que antecederam a chegada do Joaquim foram de ansiedade e insônia. De longe, graças à internet, acompanhei tudo quanto foi possível. Afinal, eu dependia de uma avó nervosa em sua primeira experiência para receber os informes sobre a mãezinha Kaká e o bebê.
A notícia mais esperada veio às 9h30. Eu estava tomando café. Conferi o WhatsApp e dei um grito (talvez dois ou três) e desatei a chorar. E a cada foto da Kaká com o Joaquim nos braços a emoção dobrava. A expressão de alegria/contentamento/gratidão da nova mãezinha era tocante.
Segredo de irmãs
Aos 16 anos precisei trocar de escola e de rotina pelo mesmo motivo que tantos outros adolescentes: trabalho. Estudava à tarde, no Centro de Porto Velho, na tradicional Barão do Solimões – a escola mais antiga de Rondônia, e fui transferida para a Eduardo Lima e Silva, no bairro Floresta – vizinho ao Eldorado, onde morava. Estudar à noite não estava nos meus planos para tão cedo, na verdade, naquela época eu não planejava nada. Em pouco tempo, minhas irmãs Aerllen e Kárita seguiram a mesma trajetória.
Recortes de reencontros
Os dias em Porto Velho passaram ligeiros como a friagem de junho em Rondônia – rapidinho e quase nem dá para aproveitar o clima gostoso sem o calor sufocante. Mesmo assim, foram ótimos. Reencontramos muitos amigos e revimos a família. Todos queriam saber como é morar longe de todos os bem-amados, como é o frio, as pessoas do Sul do país, a comida e a saudade.
A primeira a saber
Numa manhã de um distante 1995, desci do ônibus com cuidado e atenção. Antes do quinto passo, ouço: “Tia, o que é aquilo?”. Com o olhinhos bem abertos, meio surpresos e um tanto assustados, a menininha no meu colo queria saber o que era aquela estrutura tão grande e esquisita. Respondi: “É a sede do Tribunal do Trabalho, neném”. Recebi, como resposta, um olhar ainda mais curioso. Tentei explicar enquanto caminhávamos, ela no meu colo. Mais adiante, a garotinha se admirou do carrinho cheio de laranjas penduradas. “Eu gosto, tia!”. E tomamos um suco gelado.
Presente de Páscoa
Domingo de Páscoa. Recebemos, no portão, um casal de amigos queridos. Trouxeram ovos de chocolate feitos pela Suelen. Ela adora presentear. É artesã de mão cheia, criativa e inquieta. Mesmo com o Pierri grudado, ela conseguiu produzir dezenas de doces para parentes e amigos. Ficamos na calçada de casa. Todos de máscaras e distantes. Quem passava na rua estranhava o grupo mascarado e falante, percebi nos olhares.
