Ontem eu não quis descer para o café da manhã com o Zé Carlos. Preferi ficar no quarto e tomar café na cama. Estava me sentindo cansada. Cansada de não poder descer as escadas sozinhas como todas as manhãs anteriores à queda e entorse do meu pé direito. Desde então, o João Pedro me reboca escada abaixo e depois escada acima.
Quem chuta a dor do outro?
Para quem ainda acredita que a pandemia é uma conspiração e que a culpa pelas mortes é dos governadores e prefeitos que receberam um trilhão de dólares da União e que enfiaram nos bolsos;
Para quem se fia na certeza de que a Covid-19 hoje só pega pobre;
Para quem jura que é invenção isso tudo ai;
Um pé de vida
Uma queda me fez pensar na fragilidade da vida, que num instante está cheia de certezas para em seguida se perder no vazio de dúvidas. Num momento estava conversando sobre a preservação da Mata Atlântica e no outro estava caída com o pé direito virado para trás. Ao descer uma escada na casa de uma entrevistada pisei num degrau solto. Essa mesma escada havíamos subido e descido algumas vezes naquela tarde de quarta-feira quando produzíamos a reportagem sobre o Dia Mundial do Meio Ambiente.
Um 1º de maio histórico
A partir desse 1º de maio, minha jornada de trabalho e meu salário foram reduzidos em 25%. A situação não está fácil, mas há colegas de profissão desempregados e outros que tiveram maior perda salarial.
O navio é um só e estamos todos nele. Alguns mais à proa e a maioria agarrada à popa. Se a remada continuar desigual, o naufrágio é mais à frente. Sem um comandante que conduza a embarcação, parece que teremos que enfrentar a grande tormenta que se aproxima.
Esse talvez não seja o caso de um bote salva-vidas. Talvez um motim.
O menino da foto
Antes de desligar o celular para ir dormir, conferi uma mensagem enviada por minha irmã número 2, a Aerllen. Era uma foto do João Pedro com três anos de idade. Foi como se eu tivesse sido empurrada para uma espiral que abriu uma porta cheia de lembranças sensoriais.
Feminidades
Por motivos diferentes, minha irmã número dois, a Kárita, passou por essa cirurgia no ano passado. Em dezembro de 2014 eu “estreei” nessa experiência. Também foi rápido. Uma dor misteriosa interrompeu um final de semana num hotel fazenda no interior de Rondônia. Primeira avaliação deu apendicite, mas não era. Agradeço a essa dor, que não tinha relação alguma com o problema, ter me mostrado o que eu precisava saber .
A cirurgia que minhas irmã e eu passamos não tem relação genética, pois eram problemas diferentes. Se coincidência existisse, eu diria que essas histerectomias “entre irmãs” é um grandessíssimo exemplo de sincronia universal.
Renascer
Todo dia podemos florescer ou secar.
A escolha sempre será nossa.

Meteoro para quê?
A corrupção e a violência são, geralmente, os motores geradores desse tipo de comentário que às vezes pede um meteoro como solução para a humanidade “que falhou miseravelmente”. Quem comenta não é um cachorro ou uma girafa, mas uma individuo da espécie humana. Como essa pessoa se encaixa nessa sociedade tão cheia de erros? É uma dúvida que tenho.
As falhas morais e éticas estão estampadas nas diversas camadas da sociedade humana. Elas não são poucas, mas já foram bem maiores. Há 500, 200 anos havia mais corruptos e violentos do que hoje e, mesmo assim, seguimos acertando e errando e aqui estamos nós no meio de uma pandemia.
Desculpem o clichê, mas agora é inevitável: A humanidade somos todos nós que estamos agora no planeta que depende de cada humano para continuar a marcha do progresso. E que fique bem claro, estou falando de evolução moral, pois a intelectual vai muito bem.
As observações sobre os passos supostamente sombrios da humanidade podem ser trocadas por atitudes que possam alterar o caminho para um mundo melhor. Cada um deve fazer a sua parte. Claro, se isso for realmente o que os pessimistas desejam.
Máscaras que caem
Em um momento ou em outro de nossas vidas já vestimos duas ou 10 máscaras para encarar alguma situação ou até a nós mesmos. Quem nunca respondeu a um cumprimento com um sorriso bem agradável e palavras gentis quando tudo o que queria era reagir de forma contrária não entenderá o que estou dizendo e, provavelmente, não seja nem deste mundo.
A realidade é que as máscaras estão aí. Uns usam menos outros exageram.
E o fato que a pandemia de Covid-19 tem revelado é que as máscaras não vão se sustentar em meio a essa crise que se instalou no planeta.
Os egoístas não conseguem mais disfarçar o quanto se importam apenas com si e ninguém mais. Os tiranos não estão dando conta de segurar a crueldade e vão rasgar o véu, com que ainda tentavam esconder alguma sobriedade, para se apoderar de máscaras alheias, inclusive. Os inaptos, coitados, esses estão sendo expostos pateticamente em rede nacional.
Só não vê quem ainda prefere manter os olhos vendados. Em meio a uma tormenta não é um bom negócio ser cego. Há o risco de ser conduzido por outro sem visão e o caminho ao precipício pode ser inevitável.
Eu, ex-sedentária
Anos antes dessa experiência volística, vivi bons momentos em quadra na Escola Castelo Branco. Jogava handebol e gostava, contava os dias para as aulas de educação física. Eu tinha 11 anos e todo aquele tamanho, por isso me chamaram. Mas dessa vez o professor não perdeu tempo.
Tempo quem perdeu foi eu por não ter praticado esporte na juventude e nem na vida adulta. Foram várias tentativas e abandonos de academias, aulas de luta, natação e hidroginástica.
Foi lá pelos final dos 30, quase na chegada dos 40 que eu descobri o que me satisfaz e me faz bem. Mas só cheguei até ele pelas dores. Dor nas costas, nas pernas, na alma. Acúmulo de trabalho que não tem corpo sedentário que suporte.
O pilates salvou minha vida. Eu sou uma devota de Joseph Pilates. Ele lá no céu e eu aqui no solo com todas as professoras maravilhosas que tive até agora, com destaque mais do que especial para minha maior incentivadora e modelo, a querida Neiry.

A coisa é tão séria que eu (quem diria!) faço exercícios em casa. Nesses dias de quarentena a Bruna, a querida fisioterapeuta que nos atende (Zé Carlos também é um fiel rs), preparou aulas para quem não aguenta ficar sem atividade.
Eu gosto de me exercitar, queria fazer mais – quem sabe ainda faça?! Há menos de 15 anos eu jamais imaginaria que a Marcela de hoje, aos 47, estaria louca para correr, levantar pesos, fazer abdominais, subir montanhas e até remar.
A vida é dinâmica e é preciso avançar. Às vezes o que nos falta é um empurrãozinho, pena que, quase sempre, é a dona dor quem nos move. Um viva para a dor no ciático, sem ela eu não teria chegado ao primeiro estúdio de pilates.
