A Secom foi o meu último grande desafio profissional em Rondônia. Fui convidada pelo Domingues Junior e pela Edna Okabayashi para ser a coordenadora de conteúdo do governo e aceitei meio às cegas. Como “jornalista de redação” entendia que algo precisava ser feito para que o material produzido pela equipe da assessoria de comunicação fosse da mais alta palatabilidade. Tinha que ter relevância e ser atraente. Foi com a ideia de transformar a Secom numa agência de notícias que começamos o trabalho, sempre apoiados pela Edna e o Domingues.
Exemplo que arrasta
Mais de 50 mil pessoas morreram de covid-19 até ontem (20). Cinquenta mil vidas se foram vítimas de um vírus que chamamos ‘novo’ mas que já está há muito tempo entre nós destroçando famílias. Muito tempo para tanta morte são quatro meses desde a primeira vítima no Brasil. Bebês, crianças, jovens e idosos de gêneros, idades e classes sociais distintas morreram nesse imenso País, que está há mais de um mês sem um ministro da Saúde.
Um pé de vida
Uma queda me fez pensar na fragilidade da vida, que num instante está cheia de certezas para em seguida se perder no vazio de dúvidas. Num momento estava conversando sobre a preservação da Mata Atlântica e no outro estava caída com o pé direito virado para trás. Ao descer uma escada na casa de uma entrevistada pisei num degrau solto. Essa mesma escada havíamos subido e descido algumas vezes naquela tarde de quarta-feira quando produzíamos a reportagem sobre o Dia Mundial do Meio Ambiente.
Um 1º de maio histórico
A partir desse 1º de maio, minha jornada de trabalho e meu salário foram reduzidos em 25%. A situação não está fácil, mas há colegas de profissão desempregados e outros que tiveram maior perda salarial.
O navio é um só e estamos todos nele. Alguns mais à proa e a maioria agarrada à popa. Se a remada continuar desigual, o naufrágio é mais à frente. Sem um comandante que conduza a embarcação, parece que teremos que enfrentar a grande tormenta que se aproxima.
Esse talvez não seja o caso de um bote salva-vidas. Talvez um motim.
Nove meses de home office
Os primeiros três meses foram de adaptação ao home office. Muito barulho, entra e sai, distrações, cães latindo e por aí vai. Agora os demais ocupantes da casa entenderam como funciona, que eu estou trabalhando e preciso estar concentrada. Os cães nem sempre conseguem resistir ao caminhão da coleta de lixo ou a um colega cachorro que passa na rua, por isso, sempre antes de começar uma entrevista por telefone deixo eles presos.
Também aprendi a parar de verdade para fazer o intervalo de 15 minutos. Aproveito para passar um café e dar atenção aos carentes Argus, Azula e Atena.
Eu moro e trabalho no mesmo lugar, sendo que faço dupla jornada – sou dona de casa e jornalista, portanto, respeitar horários é fundamental. Meu tempo máximo na cozinha é até as 13h para que eu possa começar meu turno jornalístico às 14h.
Nesses dias de quarentena, quanto ao home office, para mim está tudo certo, pois esse é meu modo de trabalho há nove meses. Não precisei comprar álcool em gel para minha bancada porque há água e sabão por perto.
Quanto a não sair de casa, aí é outra história.
Entrevistas e latidos
Meu atual contrato de trabalho é home office, mas com algumas diferenças. Tenho horas a cumprir e ponto a registrar. Dois domingos ao mês trabalho na redação, em Florianópolis.
Ocupo um canto da sala com notebook, telefone, cadernos, blocos e canetas. E vez ou outra meu espaço de trabalho é invadido por uma Azula carente que deita no meu colo ou coloca a cabeça no meu ombro. Faço um carinho rápido e a despeço.

Dias atrás, meu telefone tocou e a Azula ficou em alerta. Aguardou eu atender a ligação, falar alguma coisa com o interlocutor para então se espreguiçar e soltar um bocejo demorado e barulhento.
“Oi? Não entendi”, disse a pessoa do outro lado da linha.
Noutro dia, estava no meio de uma entrevista Azula e Argus resolveram latir como se o mundo estivesse em chamas. A pessoa riu e eu pedi desculpas. A resposta me tranquilizou: “Tudo bem, eu tenho três”.
Empatia é tudo.
De volta às ruas
Durante a semana também conversei com famílias de refugiados da Venezuela, escrevi sobre estacionamento rotativo, lixo nas ruas, serviço de correios. Nada novo, além da empresa, o local e as expectativas.

O lixo na TV
Eram 7h, a recepção estava lotada e a programação que, parece, anunciava o fim do mundo, era acompanhada por algumas pessoas. Talvez se houvesse som a audiência fosse maior. Primeiro impacto é o nome do programa. Nunca havia ouvido falar. Até pensei ser local, mas ao chegar em casa e pesquisar vi que se trata de um nacional do SBT.
O canal do Silvio Santos, que praticamente extinguiu o jornalismo de sua grade, mantém um programa matinal de péssima qualidade ancorado no sensacionalismo e na preferência do público que consome sorrindo a desgraça alheia.
Em uma hora é possível observar muitas coisas. As pessoas que assistiam àquilo não tinham um celular nas mãos. As que não acompanhavam a sanguinária matinal estavam ocupadas em distrair crianças ou se (des)informando pelo Whatsapp. E eu observava tudo fazendo meu julgamento travestido de análise social.
Currículo fake
– Como foi sua experiência na CNN?, questiona o executivo da vaga.
– Onde? Não entendi a pergunta.
– Na CNN onde você foi repórter. Está aqui no seu currículo.
– Ah, a CNN! Pois é, eu não fui selecionada.
– Mas está aqui no seu currículo!, rebate, quase gritando o meu ex-quase- futuro-chefe.
– Eu coloquei porque tinha a intenção de trabalhar lá…
E assim termina a história: eu sem emprego e queimada no mercado de trabalho.
Mas para o governador do Rio de Janeiro a história não acaba agora. Wilson Witzel incluiu Harvard no Currículo Lattes sem nunca ter estudado na instituição norte-americana. Depois do descuido ter sido descoberto e publicado, o governador, claro, disse que a notícia é mentirosa e pôs, adivinha?, culpa na imprensa.
Witzel continuará governador e logo a história sobre essa fraude será esquecida e substituída por outra até o final do mandato.
E eu continuarei sem a CNN no currículo e com a consciência tranquila.
Três minutos

Soube, dias depois, que “demorei demais a responder”. Não se tratava de teste ou entrevista, era o primeiro contato após a pessoa ter recebido meu currículo. Eu, que geralmente respondo e-mail e whatsapp rapidamente, fui considerada lerda e, por isso, ignorada.
Quanto tempo temos?
