Há alguns anos, talvez uns 12, cedi à insistência do João Pedro e da Kaká e aceitei passear de pedalinho no lago do Cacoal Selva Park (Cacoal/RO). Os demais adultos do grupo declinaram da aventura, talvez já imaginando a furada. As duas crianças agiram como tal e deixaram para mim a tarefa de controlar aquilo.
O mar do caminho
Conheci o mar quando eu tinha uns 21 anos. Foi em Fortaleza. Fiquei ali na praia parada olhando para aquela imensidão azul, apaixonada pelo que via. Lembro que usava um anel com uma pedra verde enorme e após sair da água percebi que o anelzão tinha ficado. “Foi a Iemanjá”, disse uma amiga que me acompanhava.
Cheirinho de vida
Segurança, conforto, alegria, vida pulsando. Acordar pela manhã e sentir o cheiro do café é a certeza de que o Zé Carlos está bem e eu estou viva.
Essa é a minha prova matinal de que ganhei mais um dia para viver ao lado de quem amo. Eu disse isso e ele se surpreendeu. Não imaginava que o cafezinho preparado para a família tinha assim tanto significado, além da benção de termos o alimento à mesa.
Dias estranhos
Essa semana está sendo bem estranha. Sem querer, soube que na minha Carteira de Trabalho Digital – da qual desconhecia a existência – estou registrada desde 2013 como ‘operadora de máquina pesada’ no Governo de Rondônia. O período entre 2015 e 2018 como coordenadora de conteúdo não aparece na tal carteira. Ainda não consegui resolver esse mistério.
Amores de outubro
Dias após a publicação, ao chegar à redação e abrir o ‘MSN’ (sim, isso foi há mais de 10 anos!) uma mensagem de um amigo:” Você está com tudo hein? “. Não entendi, e precisei esperar muito tempo para que ele respondesse o meu “Por quê? O que houve?” Horas depois recebi o link da coluna Banzeiros. Era a resposta. O colunista político José Carlos Sá havia comentado o “meu” caderninho sobre Porto Velho (!!!). Eu fiquei eufórica, como se tivesse sido citada na revista Imprensa.
Acompanhava a coluna do JCSá, gostava do que ele escrevia, de suas observações, seu humor e ironia. Mas não o conhecia e ele estava elogiando meu trabalho. Enviei um e-mail em agradecimento à gentileza. Ele respondeu dizendo que acompanhava o meu trabalho há algum tempo. Mais e-mails.
Quase um mês depois nos encontramos pessoalmente. Seis meses depois ficamos noivos. Mês passado fizemos 10 anos de casados.
Tudo começou porque escrevi sobre Porto Velho. Escrevi com minha alma porto-velhense, com meu sotaque cantado, com meu vocabulário meio nordestino com sabor de açaí.
O de 2 outubro desde aquele 2007 passou a ter mais significado para mim. A cidade que eu nasci se juntou à minha paixão por escrever e trouxeram para mim o amor da minha vida.

Bandana da liberdade
Enquanto lavava o bat-lenço, viajei no tempo. Estava no Cohab indo para a Escola Barão do Solimões, no Centro de Porto Velho. Usava minissaia, All Star cano alto e uma bandana na cabeça. Conversava com os meninos do Senai. Troquei de tênis com um deles. Um lado apenas. Fiquei com meu tênis preto manchado de Q-Boa (arte minha) num pé e no outro um meio chumbo do meu colega.
Antes de chegar à escola, tirei a bandana da cabeça e amarrei na coxa. Nos dias seguintes, algumas meninas apareceram na escola de minissaia e bandana. Fui chamada na direção. Ouvi “sermão”. Estava dando mau exemplo. Um escândalo. Usar bandana na coxa era uma espécie de contravenção do regulamento moral da escola. Eu ameacei a ordem e os bons costumes das colegas do colegial. Olha que perigo!
O lenço multi-tarefa é roxo com desenho meio indiano. Lembra palidamente a minha bandana da adolescência. Algumas lembranças estão sempre presentes e às vezes ficam visíveis para que não esqueçamos quem fomos, quem somos, quem queremos ser.
A bandana para mim representa a liberdade que quero ter em ser quem sou.
A história da casa
Foi uma verdadeira saga até, enfim, mudarmos para nossa casa. Para começar, foi difícil encontrá-la. Procuramos nos bairros que queríamos morar, e nada! Levamos cano de muito corretor, que marcava e não aparecia. Visitamos casas esquisitas e outras cheias de energia desagradável. Eu não aguentava mais tanta demora. Precisava entregar a minha ex-casa para o novo dono. Então não teve jeito. Fomos João Pedro e eu para o apêzinho do Zé Carlos.
Até que numa tarde recebo de uma colega de trabalho um classificado. Era ela! O telhado bonito, o pinheiro imponente. Vi tudo isso numa minúscula foto. No dia seguinte fomos conhecê-la. Zé Carlos muito a contragosto, porque a casa estava localizada fora da área delimitada por ele: Nada depois da avenida Guaporé! E a casa amarela ficava após a avenida Mamoré (isso dá algumas largas quadras). Gostei de tudo! A cozinha imensa, o quintal com uma palmeira, um gramadinho.
Iniciamos o processo de compra e longos meses depois mudamos. Domingo, 14 de setembro de 2008. Eu abracei as paredes, beijei o ar, comemorei. João Pedro correu para a rua, havia meninos da idade dele. Era possível brincar. Todos felizes juntos. Reformamos a casa, fizemos um jardim de inverno, deixamos os outros jardins do nosso jeito. Cinco anos depois chega o novo morador, que transformou a vida de todos, Argus Maximus.
Na casa que passamos a viver e planejar nossas vidas, muitas alegrias, algumas doenças, mas muita união. Amigos queridos reunidos, família sempre presente, arraial no jardim, reuniões na cozinha.
Neste ano, por minha insistência, chegou mais uma moradora, a cadelinha mais doce da face da terra – Azula Dora Milaje. Assim como aconteceu com o Argus, Zé Carlos estava meio refratário, mas durou pouco. João Pedro meio enciumado (pelo Argus) tentou ignorar a Azulinha, sem sucesso. Todos juntos em meio a pelos e marcas de patas nas roupas.
Dez anos depois estamos nos mudando. A casa, hoje azul, ficará cheia de energia do amor que emana uma família em um lar.
Vamos para uma nova casa, numa nova cidade, decorar do nosso jeito, encher de plantas e de planos, continuar a vida e construirmos mais uma década juntos.
