“Me chamou, mãe?”, pergunta João Pedro após meia hora do meu chamado. “Você está com delay? Se fosse vida ou morte, eu já estaria morta”. A resposta foi automática. Eu que sempre critiquei (em pensamento) os exageros da minha mãe estava ali reproduzindo uma versão do clássico “quando eu morrer vocês vão chorar”.
Eles não foram com a minha cara
Fui à Unidade Básica de Saúde do bairro para me cadastrar e marcar consulta com um clínico geral. O primeiro atendente exigiu certidão de casamento para provar que eu moro no endereço apresentado. Voltei em casa e peguei o documento e, claro, nova senha. Fui atendida por outro que disse que eu teria que esperar a visita de agentes de saúde para então marcar a consulta. “Moço, meu marido foi atendido pelo médico no mesmo dia em que esteve aqui. Não foi nenhum agente em casa até hoje”. Ele me fuzilou com o olhar e voltou a mexer nos papéis que eu havia entregue. “Ah, aqui está a certidão de casamento”, disse, como se eu já não tivesse apresentado o documento a ele no início do atendimento.
Prestígio?
Um dia na redação do Diário da Amazônia, uma colega atendeu ao telefone. Era uma colunista do interior do estado convidando-a para escrever uns artigos para uma revista. -“Ah, que beleza”, respondeu a minha colega. -“E quanto é o cachê?”, perguntou. -“Você terá o prestígio de ter seu nome na minha revista”, respondeu a colunista.
Apenas uma placa

Não é apenas um nome de cidade na placa. É a cidade da minha história. Ela estava sempre ali, por onde eu andava, me lembrando de onde vim. Algo tão simples e que me fez sentir um aperto no coração quando recebi as fotos enviadas pelo Zé Carlos diretamente do Detran.
Porto Velho não estava mais ali. São José agora é quem estará comigo por onde eu for.
Feijão sem marketing
Quando exatamente eu não lembro, mas há muito tempo adquiri o hábito de ler rótulos de produtos, verificar procedência, validade, composição etc. Minha primeira interação com empresas ou marcas devido a algum problema relacionado a serviço ou produto foi há 20 anos, disso eu lembro bem, pois tem a ver com o meu filho. Na hora de passar a lata de cereais (para o preparo do mingau) o valor cobrado pela caixa era diferente do anunciado na prateleira. Opa! Peralá, moça, que não está certo. Recorri ao Código do Consumidor, meu conhecido e, claro, paguei o menor preço – não sem antes fazer todo um discurso, eu era dessas.
Mostra mais, Globo!
O prefeito Marcelo Crivella disse a uma repórter, durante coletiva, que é perseguido pela emissora na qual a profissional trabalha, a Rede Globo. Segundo ele, a TV “faz drama” com situações corriqueiras da cidade do Rio de Janeiro. Sério, senhor? Essa série de acontecimentos dos últimos dias é algo assim, normal para a cidade por que ela tem morros, geografia acidentada? Foi mais um evento cotidiano o desabamento de prédios na manhã desta sexta-feira (12) e a morte de dois cidadãos, prefeito?
Vírgulas, muitas
Entrei no portal para ler uma notícia que me interessava. Saí apressada. Tantas vírgulas, muitas delas, quase me sufoco. Ah, mas você não havia dito que não se importaria com o português alheio? Sim, disse, quase jurei. Mas, no meio de um mar de vírgulas, esqueci.
Outro dia li o post de um rapaz no Linkedin sobre a ascensão profissional dele. Uma saga. Nenhuma vírgula. Cinco parágrafos. Nenhuma vírgula. Senti falta de ar. Relevei. O redator não era jornalista.
Bonitinho e ordinário

Uma vitrine de doces é um mundo de possibilidades. Eu bato os olhos num bolinho redondo e penso: Hum… Deve ter gosto de laranja. Aponto para enroladinho e pergunto para ter certeza: é de goiabada e queijo? E a pessoa atrás do balcão geralmente responde: “É Romeu e Julieta”. E eu sempre sorrio a essa resposta.
Condutor da mudança

Dias atrás, após ouvir um homem comentar que as coisas não eram fáceis para ele porque já havia passado dos 60 anos de idade, parei para pensar e me dei conta que em nenhum momento, até ali, eu havia perguntado ao Zé Carlos se a mudança de Rondônia para Santa Catarina não o intimidava. Afinal, ele estava próximo dos 63. Não vejo problema algum em estar envelhecendo, ao contrário! Sessenta anos são o novo 40tinha com alguns bônus.
Doce de importância
Na mala eu trouxe farinha de tapioca, única lembrança física que poderia resistir aos dias de mudança de cidade, aqueles mais de 3.400 quilômetros. Numa tarde na casa nova, enchi uma xícara de café, coloquei um pouquinho de leite e um tanto de tapioca e saboreei como se esses grãos tão simples fossem o que há de melhor para se comer.
