O tempo sempre passou com suas horas sem eu nunca ter me dado conta de que ele estava contando cada uma delas. Essa despreocupação durou até os meus 25 anos, quando nasceu o João Pedro, meu filho. Como toda mãe, o medo do tempo daquela criança passar e eu não ver era constante. E foi isso mesmo que aconteceu. As horas passaram, os dias voaram, os anos se esgotaram naquele conta-gotas finito.
Torto Arado e Salvar o Fogo me trouxeram de volta
Há algum tempo eu vivo um desassossego, um desentendimento constante com minhas memórias. Quando comecei a ler Torto Arado parecia que eu estava abrindo um álbum de família, que mesmo não sendo a minha de hoje, era a que já tive em algum passado. E partes dela permanecem em mim. Seja na minha pele e nos meu lábios, mas principalmente no sentir.
Quero minha saúde mental de volta
Sei que não posso esperar que o externo modifique meu interior, mas está muito difícil me manter tranquila diante de tudo o que está acontecendo no país (e que piorou nos últimos meses).
Como posso achar “que não é nada” associar meninas de 13, 14 anos a sexo? Ouvir um homem de 67 anos dizer que “pintou um clima” e relativizar; sendo que eu mesma fui vítima diversas vezes desse tipo de assédio porque era “grandinha” para a minha idade? Sendo que sou mulher e sei muito bem o que é ser mulher nesse mundo hostil a todas nós?
Estresse pós-eleições – vai passar!
A sensação que tive foi de que o luto acumulado desde 2020 se abateu sobre mim no domingo, dia 2 de outubro. A tristeza, o desalento, a impotência e a revolta voltaram com tudo e meu corpo e minha mente não suportaram. Com muito esforço tentei me concentrar no trabalho, mas a vontade era de largar tudo e sair correndo. Cheguei em casa pouco antes das 4h de segunda-feira, fui para a cama e de lá só saí para voltar ao jornal, no fim da tarde.
O pé de eucalipto prateado
Era fim de tarde e as cores do crepúsculo deixaram aquele momento ainda mais fascinante.
Por um instante eu me vi diante de um portal. Instintivamente me aproximei daquele majestoso ser e toquei sei tronco, tão marcado pelo tempo.
Lembrei que naquele dia eu estava marcando em meu corpo mais alguns sinais pelo excesso de sol ou pela falta de água. Que minha consciência poderia ficar bem leve, caso eu cumprisse com o combinado, ou muito pesada. Tudo dependia de minhas escolhas.
Prefiro feijão com charque
Ultimamente tenho pensado que o topo de um muro tem melhor utilidade para passarinhos e gatos. Às vezes eu me apoio nele para conseguir podar a primavera, que se estica tijolos a fora e ameaça chegar ao meio da rua. Mas o muro figurativo é um lugar onde não desejo estar, principalmente em meio a tantos conflitos. Antes eu até via esse recurso como algo seguro, onde seria mais fácil manter relacionamentos e, especialmente, amizades. Não que eu queira me desfazer de amigos ou deseje que eles se desfaçam de mim, nada disso. O que não dá mais é fingir que está tudo bem quando não está. Poderia até pensar que está bem sim, afinal, tenho um emprego, casa própria, quantas refeições quiser ao dia, meu filho e meu marido perto de mim. Grandessíssima egoísta seria se assim pensasse.
Chega de sofrer, vamos lutar!
No dia seguinte à noite que fiquei (e o Brasil que não dorme) sabendo que a vergonhosa não compra de vacinas é muito pior do que sabíamos até aqui, recebi a notícia que o amigo Adão Gomes não resistiu às complicações da doença e morreu. Jovem e saudável foi contaminado, passou dias na UTI e morreu. Assim como ele, milhares até aqui. Uma Florianópolis inteira desapareceu. Em semanas, talvez poucos dias, será uma Porto Velho. São 511 mil mortos por uma doença que já tem vacina, no país que até há pouco tempo era referência em imunização.
Qual é o seu problema?
A pergunta correta é “qual é a sua doença?”. É isso que muita gente que tomou a vacina (no grupo de comorbidades) contra o coronavírus tem escutado. “Ah, olha, só! Você nem parece doente!” – dizem alguns, e eu não sei exatamente se isso é um elogio, transbordamento da inveja – pela imunização alheia – ou a mais pura desconfiança de que o vacinado deu o golpe para receber a primeira dose contra a covid-19.
Alguns por quês sem repostas
O azul é o meu refúgio. Nele eu me alegro e me tranquilizo. Nessa enorme espiral que entramos há um ano nem sempre consigo vislumbrar o céu e me concentrar no azul que há em mim.
São meses de insegurança, incerteza, indiferença coletiva. Há dor, luto, raiva, desesperança, revolta e indignação.
O inferno sou eu mesma
Vem de longe um choro que é cortado por soluços e ‘ais’. Tento me aproximar para ver quem sofre e oferecer ajuda mas não consigo. Agora há gritos e xingamentos. Recuo com medo e percebo que estou num ambiente escuro que não reconheço.
“Cadê o meu quarto, onde está a minha casa?” – pergunto a mim mesma tentando entender o que se passava. Quero ordenar meus pensamentos mas o choro desconhecido está mais alto e o local mais escuro.
